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Música e poder

Poder de Chico Buarque transcende a música, já o de Bolsonaro é passageiro

Daqui a 50 anos, o nome do atual presidente apenas figurará na lista dos ex-presidentes. Daqui a mil anos, as melodias de Chico Buarque ainda serão cantadas e ele será celebrado como um dos maiores músicos

Publicado em 22 de Janeiro de 2020 às 04:00

Públicado em 

22 jan 2020 às 04:00
João Baptista Herkenhoff

Colunista

João Baptista Herkenhoff

Cantor e compositor Chico Buarque Crédito: Divulgação
O presidente da República informou que não vai assinar o diploma que confere a Chico Buarque o Prêmio Camões. Ao saber dessa decisão do presidente da República, Chico Buarque ironizou que a a ausência da assinatura do presidente valoriza o prêmio.
Traduzindo sua ironia - a assinatura do presidente mancharia a láurea.
Daqui a 50  anos, o nome do atual presidente apenas figurará na lista dos presidentes porque uma lista dessa natureza não pode omitir nenhum nome. Daqui a mil anos, as melodias de Chico Buarque ainda serão cantadas e ele será celebrado como um dos maiores compositores do Brasil.
O poder político é passageiro. O poder das ideias é eterno. Somente quando o titular de poder político é também portador de ideias - um verdadeiro estadista - sua herança é preservada. Quando o titular do poder político é vazio de pensamento, sua lembrança dura o tempo do seu mandato.
Como muito bem escreveu Joaquim Ferreira dos Santos, "Chico Buarque é a voz que nos resta, a veia que salta, aquele que torna suportável essa noite de mascarados e pigmeus de boulevard. Sempre que tira o violão da capa e pega o dicionário de rimas, o país melhora.
Há quem prefira escrever a história do Brasil com fuzil, desligar o radar da estrada e azucrinar os golfinhos de Angra com turistas.
Chico, armado com a bemol natural sustenida no ar, atira de volta o "luz, quero luz" que cantam os poetas mais delirantes. O Brasil de 2019 é uma pátria-mãe tão distraída que parece ter perdido a noção da hora. Ao Deus-dará. É um trem de candango, um bando de orangotango, todos com um bom motivo para esfolar o próximo.
A maioria, trancada em pânico nos seus camarins, toma calmante com um bocado de gin. Lá fora, no Brejo da Cruz, desfila a estarrecedora banda de napoleões cretinos, todos de marcha a ré em permanente ode aos ratos e às tenebrosas transações.
Nas horas vagas, apedreja-se a mais recente Geni. Chico dá esperança. Mesmo com todo o problema, todo o sistema, ele inventa um outro país - e a gente vai levando. É só uma página infeliz da nossa história.”
Poucos sabem que Chico Buarque viveu, por algum tempo, em Cachoeiro de Itapemirim. Seu pai foi promotor de Justiça e atuou, por algum tempo, na Comarca de Cachoeiro.
Consta que, no processo do qual resultou a aposentadoria compulsória de Vinicius de Moraes, foi escrito, como conclusão: “Vá trabalhar, vagabundo”. Chico Buarque, valendo-se do episódio, aproveitou a frase, que transformou em verso, numa de suas mais inspiradas composições.

João Baptista Herkenhoff

É juiz de Direito aposentado e escritor. Aborda temas atuais com uma visão humanista, com foco nos direitos humanos. Escreve às quartas

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