
Beatriz de Barros Souza*
Se um dia, em tempos de eleição, um político fosse às ruas e anunciasse: “Não farei nada com meu salário!”, o que aconteceria? Imagine-se, logo, a revolta do povo, em choque com o descalabro proferido pelo suposto candidato.
Igual revolta, estranhamente, não se segue à frase que mais se ouve quando a pauta é estender a mão a quem necessita: “Não vou fazer nada por imigrantes”, dizem na política, “pois falta tudo para brasileiros”. Notem a interessante estratégia de nada prometer a ninguém e ainda poder ser eleito.
Imigrantes não possuem direitos políticos, segundo a Constituição brasileira de 1988. Todavia, pagam impostos: seja embutidos nos bens e serviços (que consomem), seja nos descontos do salário (quando auferem algum), ou ainda para emitir documentos (quando os possuem). Não recebem, com isso, qualquer auxílio ou benefício incompatível com sua faixa de renda. Assistência social e saúde no Brasil são “universais”.
Imigrantes não possuem direitos políticos, segundo a Constituição brasileira de 1988. Todavia, pagam impostos. Não recebem, com isso, qualquer auxílio ou benefício incompatível com sua faixa de renda
Ao chegarem a uma cidade onde a língua e os costumes lhes são desconhecidos, porém, quem lhes dirá o que fazer e aonde ir sem o direito de votar e eleger quem por eles prometa fazer algo que possa vir a beneficiá-los?
Surpreende, no Brasil, o voto em governantes com o bordão: “falta dinheiro”. Nosso país possui uma das economias mais ricas do mundo. Notícias daqui a toda hora divulgam o perdão a dívidas de milionários, e a todo ano repetem a novela do aumento dos salários de juízes, muito acima do mínimo salário.
Por nada disso, o povo brasileiro sai às ruas ateando fogo a pessoas marginalizadas ou seus pertences enquanto canta o Hino Nacional, tal como nos fatos contra nossos irmãos venezuelanos registrados recentemente em vídeo.
Os abastados, seja em condição migratória ou não, nada devem temer em um país que sempre os acolheu em berço esplêndido. Já os mais pobres dos pobres, esses devem temer tudo, pois não terão sequer as migalhas do que for gratuito, quanto mais o direito à vida, esse item que de tão caro não se compra, a não ser por dívida.
*A autora é mestre em Direitos Humanos pela USP e doutoranda em Psicologia pela Ufes