Mãos dadas contra a violência doméstica
Mãos dadas contra a violência doméstica. Crédito: Skeeze/Pixabay

Descolonizar a comunicação: aprender de mãos dadas e seguir caminhando

Não é simples quebrar os modelos pelos quais fomos acostumados a narrar o mundo. É preciso assumir a complexidade e as contradições desse caminho

Tempo de leitura: 3min
Publicado em 28/03/2026 às 10h00
  • Liliane Ramos e Aparecida Torrecillas

    São idealizadoras e apresentadoras do podcast Pensar-Vento, disponível no aplicativo do Spotify

“Quando nós falamos tagarelando e escrevemos mal ortografado, quando nós cantamos desafinando e dançamos descompassado, quando nós pintamos borrando e desenhamos enviesado, não é porque estamos errando, é porque não fomos colonizados”, explicou no já célebre poema o filósofo e ativista quilombola Nego Bispo. Esta síntese poderosa e as provocações que vêm junto dela têm nos levado a exercícios práticos de recusa ao colonialismo a partir da chave da ação.

O processo colonial impõe como hegemônico um modelo branco, eurocêntrico, heteronormativo, patriarcal e cristão, combatendo o que foge disso com violência física e simbólica. Como profissionais e pesquisadoras da comunicação, artes e ciências sociais, temos pensado em como suas consequências profundas e duradouras levantam um muro quase intransponível para que distintos modos de existência consigam emergir e se colocar como legítimas formas de operar. Essa é a inquietação que tem nos movido: se é possível pensar em uma colonização da e pela comunicação, com a perpetuação de visões dominantes e silenciamentos, é possível também construir narrativas outras, múltiplas.

Em 2025, propusemos experimentar as possibilidades de construção da publicidade como processo ativo de enfrentamento e resistência no projeto “Agência-escola Act”, em Flexal ll, Cariacica. A experiência foi intensa: um movimento de valorização dos saberes da “rua”, em que refletimos sobre a identidade dos participantes e construímos a proposta de uma agência como “trincheira criativa, ponte entre mundos que raramente se olham nos olhos”.

Mas demos de cara com o muro construído por paradigmas cristalizados pelo colonialismo. Pra começar, a dificuldade de compreensão do projeto para além do seu cunho social: como escapar da visão essencialista benevolente que enxerga a periferia apenas pelo prisma da carência? E abrir espaço para que seus modos de fazer subvertam lógicas mercadológicas consolidadas e formas específicas de criar?

Outro tijolo desse muro é o do paradigma da eficácia, que afirma que o rápido e certeiro é sempre melhor. Como incluir nisso quem mora em locais que dependem de um transporte público precário, não tem acesso à tecnologia de ponta e depende de múltiplas e minguadas fontes de renda para sobreviver?

Então, a inquietação inicial nos moveu ainda mais, para ponderar sobre a razão de incluí-los – e a nós – em um sistema reconhecido por sua opressão e desumanização. A inovação real não estaria no deslocamento do olhar para uma comunicação que contribua para a regeneração dos sistemas, privilegiando a diversidade de narrativas?

Ao final, entendemos que a descolonização da publicidade requer um esforço estrutural contínuo que passa pela valorização financeira, por um olhar não hierarquizado para as diferentes subjetividades e para as oportunidades de aprender ao co-criar com elas.

Agora, em 2026, lançamos o Pensar-Vento: leituras e partilhas de mundos, podcast sobre contracolonialidade. Nossa lente foram obras literárias escritas por mulheres, com a participação de convidadas que trouxeram suas diferentes experiências de vida para tensionar a conversa. Nosso principal aprendizado: expansão de olhar também resvala em limitações e necessidades de aprofundamento.

A escolha por autoras e convidadas cisgêneras produziu ausências diante de um debate que exige escuta mais ampla, com corpos trans, não binários e identidades dissidentes, por exemplo, ocupando o lugar da fala e da criação. Experiências que nos mostram que enfrentar os efeitos do colonialismo exige, antes de tudo, comprometimento político, no sentido amplo do termo.

Descolonizar a comunicação demanda um exercício contínuo, coletivo, com a retórica descendo à experimentação e ao erro. Não é simples quebrar os modelos pelos quais fomos acostumados a narrar o mundo. É preciso assumir a complexidade e as contradições desse caminho. Mas é, mais que nunca, um esforço conjunto necessário.

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