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Profundidade

Paraisópolis: necessidade de reportagem sem preconceito e sem viés

É importante que os repórteres e os responsáveis pelas redações tomem consciência desta verdade redonda: a imparcialidade (que não é neutralidade) é o melhor investimento. Ofício do jornalismo é o de iluminar a história. Gostemos ou não dela

Publicado em 16 de Dezembro de 2019 às 09:02

Públicado em 

16 dez 2019 às 09:02
Carlos Alberto Di Franco

Colunista

Carlos Alberto Di Franco Carlos Alberto Di Franco
Paraisópolis, em São Paulo, foi palco de tragédia no dia 1º de dezembro Crédito: Wikimedia/Divulgação

O que aconteceu em Paraisópolis? Até agora, creio, o que se viu foram muitas aspas e pouca reportagem.

Recebi de um bom amigo, leitor qualificado e crítico, uma mensagem sugestiva.  “A imprensa poderia fazer este trabalho investigativo: onde está o prefeito (até agora não foi questionado sobre o uso do espaço público)? O que estava acontecendo naquela festa (drogas, bebidas, etc)? Onde estavam os responsáveis pelos menores ali presentes?” Tem toda razão. Reconheço. Impõe-se uma autocrítica.

O sabadão, sem controle e sem lei, é o mercado preferencial para o tráfico de drogas. Fica a impressão de que os policiais invadiram uma festa carregada de normalidade. Os pancadões são locais estratégicos para o tráfico e aliciamento de mão de obra. É uma desgraça. Uma chaga social que precisa ser enfrentada. É preciso fazer perguntas essencialmente jornalísticas: Quem domina o pedaço?  Quem está por trás do evento? E a autoridade municipal, responsável pelo espaço público? Está na moita? Não há nenhum projeto para permitir que a juventude se divirta de modo seguro e sadio? Isso é, de fato, reportagem, jornalismo investigativo. Se a imprensa não for um pouco mais a fundo, vai ser liberou geral.

Escasseia reportagem. Falta profundidade. Jornalismo não é divulgação de versões. É a busca da verdade possível. E isso exige ouvir e investigar. Sem preconceito e sem viés. “O importante”, diz o mítico jornalista norte-americano Carl Bernstein, “é saber escutar. As respostas são sempre mais importantes que as perguntas que você faz. A grande surpresa no jornalismo é descobrir que quase nunca uma história corresponde àquilo que imaginávamos.”

É importante que os repórteres e os responsáveis pelas redações tomem consciência desta verdade redonda: a imparcialidade (que não é neutralidade) é o melhor investimento. Algo que se constrói não com declarações entre aspas, mas com olhar desengajado de quem foi ver a realidade.

O que aconteceu em Paraisópolis? Será que o leitor, cada vez mais crítico e com acesso a fontes alternativas, ficou satisfeito com as nossas reportagens? Apresentamos fatos ou versões?

Nosso ofício, humilde e insuperável, é o de iluminar a história. Gostemos ou não dela.

Carlos Alberto Di Franco

Carlos Alberto Di Franco Carlos Alberto Di Franco

É jornalista e bacharel em Direito. Especialista em Jornalismo Brasileiro e Comparado. Doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra. Neste espaço, jornalismo e sociedade têm destaque

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