Ao receber a coluna na quinta-feira (12), na Residência Oficial, para sua primeira entrevista após decidir ficar no cargo e no PMDB, o governador Paulo Hartung tratou de embaralhar ainda mais as cartas no jogo eleitoral, enchendo os dedos de uma mão para citar integrantes de seu grupo político que, segundo ele, podem ser lançados e apoiados por ele para sua própria sucessão no governo estadual. Isso, é claro, se o próprio Hartung abrir mão do direito de disputar a reeleição, hipótese que esta coluna enxerga com bastante ceticismo a esta altura.
A lista de Hartung inclui o vice-governador César Colnago (PSDB); o ex-secretário de Segurança Pública André Garcia (PMDB); o deputado estadual Amaro Neto (PRB); o atual presidente da Assembleia, Erick Musso (PRB); e o deputado federal Sérgio Vidigal (PDT).
“O Estado tem nomes para o presente, para esta sucessão agora, e para o futuro. O Brasil não tem. O Espírito Santo tem quadros importantes para me suceder agora, na minha visão, e para operar no futuro”, formula Hartung.
“(Lançar outro nome) é minha prioridade absoluta”, ressalta ele. “A minha opção é uma opção que tenho batalhado por ela. (...) Tenho compromisso com a renovação. Tenho compromisso com a alternância no poder. Tenho compromisso com a oxigenação da política.”
Hartung não fecha a porta para a reeleição. Mantém em aberto as duas opções e destaca que a decisão final só será tomada e anunciada na segunda quinzena de julho. Mas enfatiza que, hoje, dá preferência à alternativa de apoiar um dos aliados listados por ele para sucedê-lo no Palácio Anchieta. “Qual a prioridade? É a renovação e reoxigenação da política capixaba, se tiver espaço para isso.”
Não é fácil acreditar nesse cenário, nem que Hartung esteja realmente disposto a concretizá-lo, por algumas razões. Para começo de reflexão, imaginar o governador abrindo mão de postular a reeleição e lançando algum outro candidato para substituí-lo equivale a aceitar a ideia de que ele esteja disposto a ficar sem mandato eletivo pelos próximos anos. Difícil imaginá-lo voluntariamente na planície a esta altura de sua trajetória.
Seria uma demonstração de abdicação de poder que não rima com Paulo Hartung, um ser político por natureza, presente (e exitoso) em todas as eleições que pôde disputar, desde o início dos anos 1980, à exceção da de 2010.
Governador lança candidatos só para manter suspense
Confrontado com nossa observação sobre o quase ineditismo de uma “não candidatura” voluntária em sua história, Hartung pontua que ficou sem mandato duas vezes: a primeira, após concluir a sua administração em Vitória (1993- 1996); a segunda, justamente após 2010. Naquele ano, Hartung poderia ter pleiteado uma cadeira no Senado. Preferiu concluir o mandato e, nos quatro anos seguintes, ficou fora da vida pública. Sob sigilo, porém, até colaboradores próximos ao governador admitem que ele não ficou confortável durante essa última experiência sem poder e sem exercer mandato algum, vulnerável, inclusive, a investidas de adversários no Judiciário.
Além disso, o contexto atual é bastante diferente daquele de 1996, quando Hartung na verdade, nem se quisesse, poderia emendar novo mandato de prefeito (a reeleição só seria instituída no mandato seguinte). E também é diverso do cenário de 2010, quando ele estava encerrando não o primeiro, mas o segundo mandato seguido no governo, não podendo, portanto, concorrer à reeleição. Agora, estamos falando de um governador em vias de encerrar o primeiro mandato e que, mesmo podendo pleitear a renovação de seu governo, estaria renunciando a tal direito. Não conhecemos precedente na recente literatura política brasileira (se alguém souber, avise-nos).
Por isso, os potenciais substitutos elencados por Hartung soam muito mais como balões de ensaio. A esta altura, esse exercício de balonismo é válido, legítimo e até oportuno. É o momento certo para se fazer isso, afinal. Tomadas as primeiras decisões (no caso, ficar onde está), Hartung tem mais quase quatro meses para anunciar seus planos eleitorais definitivos. Não tem por que antecipar decisões – e, por seu estilo, não o fará. Mantendo o padrão PH, sustentará o mistério enquanto puder. E, com a dúvida agora limitada a uma pergunta binária (ser ou não ser candidato à reeleição?), a maneira que tem para manter vivo o mistério é, precisamente, inflando “candidatáveis”. É o que lhe resta no momento.
Enquanto ganha tempo, Hartung ainda aproveita este período justamente para testar nomes da base e o real tamanho político de cada um. Por que não?
Em política, nunca se diz “nunca”. Menos ainda em se tratando do governador. Porém, na hora H para PH, é bem mais provável que ele espete cada balão hoje inflado por ele próprio, anuncie candidatura e afie o mesmo alfinete para usar, na campanha, contra oponentes que já buscam inflar a si mesmos contra ele.
“Bolo” em aeroporto deu certo, mas revela incoerência
“Nesse campo eu não dou sinal trocado. (...) A minha presença lá seria um sinal. A minha ausência foi outro sinal. A minha presença era um sinal errado. A minha ausência é um sinal certo, de quem quer ver este país organizado.”
Com essas palavras, o governador deu à coluna, ontem – como publicamos em 1ª mão no Gazeta Online –, a sua explicação definitiva para um fato que intrigou os capixabas: sua ausência deliberada no ato de inauguração do novo terminal do Aeroporto de Vitória, realizado no dia 29 de março, com a presença do presidente Michel Temer (também do PMDB) e de cinco ministros.
Na manhã daquele mesmo dia, a Polícia Federal havia deflagrado a Operação Skala, na qual amigos íntimos de Temer foram presos, com autorização do STF, como parte do inquérito que apura possível favorecimento de empresas por meio do “decreto dos portos” assinado pelo presidente. Hartung afirma que sua decisão de não figurar ao lado de Temer no evento teve mesmo o objetivo de enviar um “sinal claro”, que não permite “dubiedades”: o de que não compactua com escândalos de corrupção onde quer que seja. “Eu quero ver este país limpando os desmandos, os malfeitos e tudo...”
O ponto que permanece igualmente intrigante é o porquê do rompante de indignação do governador com “os malfeitos” no governo Temer bem no dia da inauguração do aeroporto, já que, até então, isso nunca o impedira de posar ao lado do presidente. Ok, a operação da PF apertou ainda mais o cerco contra Temer. Sublinhe-se: ainda mais. Porém, as gravíssimas suspeitas de corrupção no atual governo, envolvendo a figura do próprio presidente, já não representam novidade para ninguém há muito tempo.
Já tivemos Rocha Loures flagrado a correr com mala recheada de dinheiro; os grampos de Joesley no porão do Planalto; o “tem que manter isso aí”; as duas denúncias da PGR contra Temer por corrupção, formação de quadrilha e obstrução de Justiça, barradas pela tropa de Marun na Câmara. No próprio inquérito dos portos, Temer já havia sido interrogado por escrito e incluído pelo ministro Barroso, o relator, no rol de investigados.
Pelo critério da “distância asséptica”, o que mais seria preciso para que Hartung buscasse evitar esse contágio político? Mas nada disso o impedira, até o dia 29, de frequentar o gabinete de Temer (institucionalmente, como deve ser, e para tratar de pautas de interesse do Estado, como era a do aeroporto). E nem tudo isso bastou para que ele se negasse a receber, uma semana antes, das mãos do próprio Temer, honraria por seus bons serviços pela Educação no país.
Além disso, na própria equipe de Hartung, o governador não tem manifestado a mesma “tolerância zero” com investigações e rolos judiciais, já que manteve no alto escalão de seu governo secretários investigados – um deles até com duas condenações, em primeiro grau, por peculato e improbidade administrativa.
Uma possível explicação: naquele dia, Temer estava, para Hartung, mais contagioso do que nunca. Precisamente naquele dia, deve ter calculado, as atenções e lentes do país inteiro estariam (como de fato estiveram) apontadas para o presidente em sua primeira aparição pública após a deflagração da Skala: por obra do acaso, bem no evento do aeroporto. Hartung calculou o prejuízo e não quis correr o risco de aparecer literalmente ao lado de Temer naquela noite, em pleno Jornal Nacional.
Se o plano foi esse, deu certo para Hartung. O governador apareceu, sim, no JN, mas por causa da nota emitida por ele na qual defendeu o aprofundamento das investigações, distanciando-se de Temer, em vez de surgir colado ao presidente investigado. Diante dos olhos do país, Hartung até que ficou bem na fita, ao invés de queimar seu filme.
Pode ter dado certo. Mas que ficou uma sensação de incoerência, isso ficou...