Os bastidores do poder no dia em que Camata foi assassinado
Leonel Ximenes
Os bastidores do poder no dia em que Camata foi assassinado
Há um ano, crime que abalou o Espírito Santo mobilizou governador em final de mandato (Paulo Hartung), o eleito (Casagrande) e a cúpula da segurança pública
O ex-governador e ex-senador Gerson Camata, de 77 anos, foi morto pelo seu ex-assessor, que está preso. Crédito: G1
O início da noite do dia 26 de dezembro de 2018 foi marcado pela presença da alta cúpula da segurança do governo Paulo Hartung no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Lá estavam o secretário de Estado da Segurança Pública, coronel Nylton Rodrigues, o delegado-geral da Polícia Civil, Guilherme Daré, e o comandante-geral da PM, coronel Alexandre Ramalho. A razão era o trágico assassinato do ex-governador Gerson Camata.
A poucos dias do início de 2019, uma cena chamava a atenção dos policiais. De um lado, Nylton atendia às ligações de Paulo Hartung e, após dizer “oi, chefe”, contava ao aflito governador a motivação do assassinato alegada por Marcos Venicio Moreira Andrade, ex-assessor de Camata, hoje réu por causa do crime. “Nos falaram de uma dívida”, lamentava Nylton.
Camata foi assassinado na tarde do dia 26 de dezembro na Praia do Canto, em VitóriaCrédito: Arquivo AG
De um outro lado do corredor do DHPP, era o então superintendente de Polícia Especializada e, agora, delegado-geral da Polícia Civil, José Darcy Arruda, que teve a incumbência de atualizar o governador Renato Casagrande, já eleito e aguardando pelo dia da posse, sobre os desdobramentos do caso. “Tragédia, chefe”, dizia ele ao socialista. O governador em final de mandato e o eleito estavam arrasados.
Hartung era o mais abalado dos dois no dia seguinte, quando Camata foi enterrado no Cemitério Jardim da Paz, na Serra.
BALDE DE ÁGUA FRIA NA COLETIVA
O crime aconteceu concomitantemente à presença da cúpula da segurança e do governador Paulo Hartung na inauguração do Destacamento de Polícia Militar (DPM) no Morro da Piedade, evento de grandes expectativas para a Sesp e a PM. A informação sobre o atentado contra Camata começou a se espalhar em grupos de WhatsApp enquanto Nylton e o coronel Ramalho atendiam à imprensa.
Coube ao então comandante de Polícia Ostensiva Metropolitana e hoje subsecretário de Estado de Gestão Estratégica da Secretaria de Estado da Segurança Pública, coronel Antônio Marcos de Souza Reis, confirmar que houve de fato um ataque contra Camata e as notícias não eram nada boas.
DESVIO DE CAMINHO
Na teoria, a cúpula iria até a Rua Joaquim Lyrio, cena do crime, para verificar o que houve, mas uma ligação provocou a mudança de rota. O então delegado-geral da PC, Guilherme Daré, avisou que o delegado Danilo Bahiense, que estava licenciado por causa das eleições em que foi eleito deputado, já havia efetuado a prisão e encaminhado o suspeito para o DHPP para diligências.
"A FICHA NÃO HAVIA CAÍDO"
Os policiais mais velhos de guerra no DHPP só comentavam sobre o crime. Até se lembravam de falas do ex-governador e de brincadeiras que ele fazia quando encontrava os servidores em eventos. Entre olhares, só acrescentavam que “a ficha não havia caído”.
Naquele dia foi difícil tirar Paulo Hartung do Palácio Anchieta. O governador prestou coletiva e ficou até um pouco mais tarde na sede do Poder Executivo. Por uma triste coincidência, o assassinato aconteceu próximo ao condomínio do ex-governador, na Praia do Canto.
Foi o dia seguinte ao Natal mais triste da história do Espírito Santo.
Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.