O início da noite do dia 26 de dezembro de 2018 foi marcado pela presença da alta cúpula da segurança do governo Paulo Hartung no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Lá estavam o secretário de Estado da Segurança Pública, coronel Nylton Rodrigues, o delegado-geral da Polícia Civil, Guilherme Daré, e o comandante-geral da PM, coronel Alexandre Ramalho. A razão era o trágico assassinato do ex-governador Gerson Camata.
A poucos dias do início de 2019, uma cena chamava a atenção dos policiais. De um lado, Nylton atendia às ligações de Paulo Hartung e, após dizer “oi, chefe”, contava ao aflito governador a motivação do assassinato alegada por Marcos Venicio Moreira Andrade, ex-assessor de Camata, hoje réu por causa do crime. “Nos falaram de uma dívida”, lamentava Nylton.
De um outro lado do corredor do DHPP, era o então superintendente de Polícia Especializada e, agora, delegado-geral da Polícia Civil, José Darcy Arruda, que teve a incumbência de atualizar o governador Renato Casagrande, já eleito e aguardando pelo dia da posse, sobre os desdobramentos do caso. “Tragédia, chefe”, dizia ele ao socialista. O governador em final de mandato e o eleito estavam arrasados.
Hartung era o mais abalado dos dois no dia seguinte, quando Camata foi enterrado no Cemitério Jardim da Paz, na Serra.
BALDE DE ÁGUA FRIA NA COLETIVA
O crime aconteceu concomitantemente à presença da cúpula da segurança e do governador Paulo Hartung na inauguração do Destacamento de Polícia Militar (DPM) no Morro da Piedade, evento de grandes expectativas para a Sesp e a PM. A informação sobre o atentado contra Camata começou a se espalhar em grupos de WhatsApp enquanto Nylton e o coronel Ramalho atendiam à imprensa.
Coube ao então comandante de Polícia Ostensiva Metropolitana e hoje subsecretário de Estado de Gestão Estratégica da Secretaria de Estado da Segurança Pública, coronel Antônio Marcos de Souza Reis, confirmar que houve de fato um ataque contra Camata e as notícias não eram nada boas.
DESVIO DE CAMINHO
Na teoria, a cúpula iria até a Rua Joaquim Lyrio, cena do crime, para verificar o que houve, mas uma ligação provocou a mudança de rota. O então delegado-geral da PC, Guilherme Daré, avisou que o delegado Danilo Bahiense, que estava licenciado por causa das eleições em que foi eleito deputado, já havia efetuado a prisão e encaminhado o suspeito para o DHPP para diligências.
"A FICHA NÃO HAVIA CAÍDO"
Os policiais mais velhos de guerra no DHPP só comentavam sobre o crime. Até se lembravam de falas do ex-governador e de brincadeiras que ele fazia quando encontrava os servidores em eventos. Entre olhares, só acrescentavam que “a ficha não havia caído”.
Naquele dia foi difícil tirar Paulo Hartung do Palácio Anchieta. O governador prestou coletiva e ficou até um pouco mais tarde na sede do Poder Executivo. Por uma triste coincidência, o assassinato aconteceu próximo ao condomínio do ex-governador, na Praia do Canto.
Foi o dia seguinte ao Natal mais triste da história do Espírito Santo.