O discurso enfático de Oprah Winfrey na defesa da igualdade e da representatividade no Globo de Ouro fez muito barulho e está mais perto da realidade capixaba do que se supõe. A apresentadora, atriz e megaempresária norte-americana é a mulher negra mais influente do mundo. A advertência dela foi direta: não há mais espaço para o silêncio de vítimas de abusos sexuais ou de racismo. Um recado com força suficiente para ecoar por todo o planeta e chegar também ao Estado que coleciona alguns dos maiores índices de feminicídio e morte de negros do país.
Não enxergar a vulnerabilidade da população negra por aqui é uma forma de omissão. No Espírito Santo, negros entre 15 e 29 anos têm 5,5 vezes mais chances de morrerem vítimas da violência do que jovens brancos. A taxa supera a média brasileira, em que jovens negros têm 2,7 vezes mais probabilidades de serem mortos. A cor da pele e a desigualdade social estão intimamente ligadas, e oportunidades e autoestima podem fazer a diferença. É disso que Oprah falava ao citar o Oscar recebido pelo ator Sidney Poitier, em 1964: “Nunca havia visto um homem negro ser celebrado dessa maneira”.
Com as mulheres não é diferente no Estado: no ano passado, foram cerca de 4.150 casos de agressões na Região Metropolitana, o que coloca uma mulher sendo agredida a cada duas horas. O número de feminicídios confirmados no Estado entre janeiro e novembro chegou a 37 em 2017. Casos de assédio e estupro também são uma rotina assustadora.
Oprah, uma das personalidades mais populares e bem-sucedidas dos EUA, fez a defesa da verdade, numa noite em que o ativismo feminino atravessou o tapete vermelho. “Por muito tempo, não ouviam as mulheres, ou não acreditavam nelas quando ousavam falar a verdade sob o poder desses homens. Mas esse tempo acabou. Esse tempo acabou. Esse tempo acabou”, professou Oprah. No mundo de sonhos de Hollywood, a opressão feminina tem sido a realidade. A justiça, contudo, começa a ser feita. Que as vozes até hoje silenciadas mais perto da gente também tenham essa chance.