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Cultura

O que escrevem os capixabas

Hoje, os editais da Secult estadual são a maior fonte de financiamento de projetos culturais e o governo acaba de anunciar R$ 10 milhões em investimento em 2018

Publicado em 02 de Março de 2018 às 15:31

Públicado em 

02 mar 2018 às 15:31

Colunista

Já tive a pretensão de tentar ler todos os livros de literatura escritos no Espírito Santo, e isso era até possível há 30 anos, quando fazia meu doutorado e havia escolhido como objeto de análise a literatura produzida no Estado. Vivíamos, naquela época, o que chamei de boom de uma literatura feita por capixabas, pois tínhamos saído de uma ditadura de 30 anos, a censura havia acabado recente, o país respirava ares de liberdade que nossa geração nunca tinha experimentado, apesar da hiperinflação e da crise econômica afetada por sucessivos planos falidos da triste era Sarney. As condições no Espírito Santo também eram alvissareiras pelo desenvolvimento econômico gerado pelos projetos industriais implantados.
Participei como membro da comissão avaliadora do edital nº 7 para seleção de projetos e incentivo à produção e difusão de obras literárias inéditas de autores residentes no Espírito Santo promovido pela Secult com recursos do Funcultura, ao qual se inscreveram cerca de 180 candidatos. É um número alto e que se repete há algum tempo, e com tendências a aumentar, tendo em vista a diminuição da efetividade de leis municipais de incentivo à cultura, como a Lei Rubem Braga, da PMV, a Lei de Incentivo à Cultura e à Arte de Vila Velha, a Lei Chico Prego, da Serra, e a João Bananeira, de Cariacica, e a falta de recursos da Ufes ou do Ifes para publicação de livros. Hoje, os editais da Secult estadual são a maior fonte de financiamento de projetos culturais e o governo acaba de anunciar o valor de R$ 10 milhões para ser investido neste ano, um acréscimo de 25% ao valor do ano passado.
Dos cerca de 180 livros inscritos, 48 foram do gênero Literatura Infantojuvenil, 1 foi selecionado. As pessoas ainda confundem livro para criança com manual didático, pedagógico ou moralista, menosprezando o literário e o lúdico. Em segundo lugar, está a poesia: 44 inscritos, 1 selecionado. Em terceiro lugar, uma surpresa: 30 romances foram inscritos, 4 selecionados. Em História e Memória: 18 inscritos, 5 selecionados; Conto: 15 inscritos, 1 selecionado; Crônica: 13 inscritos, nenhum selecionado; Ensaio: 5 inscritos, 2 selecionados; Biografia: 4 inscritos, 1 selecionado. Ou seja, as modalidades não literárias - História, Memória, Biografia e Ensaio -, tiveram 8 selecionados, mais da metade. Portanto, é preciso rever esse edital, pois não se podem colocar gatos e cachorros no mesmo saco.
Sugiro três editais: um para obras literárias; outro para obras não literárias e um terceiro para literatura infantojuvenil e histórias em quadrinhos e a premiação de 30 escritores, dez em cada edital. Bora mudar?
*O autor é professor e escritor
 

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