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Vitor Vogas

O PT paga agora por seus erros

Publicado em 20 de Outubro de 2018 às 02:27

Públicado em 

20 out 2018 às 02:27
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Crédito: Amarildo
Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT), Joaquim Barbosa (PSB)... Todos esses líderes políticos poderiam perfeitamente estar ombreados com Fernando Haddad na malfadada “frente democrática” que o PT tentou construir desde o início do segundo turno. Afinal, são verdadeiros democratas. E por que não estão ao lado de Haddad? Por causa do candidato? Não. Por causa do PT.
O partido paga agora, no momento mais delicado de sua história, pelos anos de prepotência e de pretensa onipotência no poder e mesmo após perder a Presidência da República. Os erros e a postura arrogante do partido de Lula na interface com aliados, potenciais aliados e adversários políticos cobram agora o seu preço no momento em que o PT precisava como nunca de ajuda para empurrar o carro morro acima.
Bolsonaro representa risco para a democracia e uma ameaça a direitos sociais, humanos e até políticos? No entender deste colunista, sim. Líderes verdadeiramente comprometidos com a democracia, como FHC, Ciro e Marina, evidentemente não compactuam com isso e entendem o campo minado que pode ser o governo Bolsonaro para as instituições democráticas. Não por acaso, todos eles trataram de deixar bem claro que não apoiam o deputado. Daí a apoiarem de corpo e alma o candidato do PT vai uma grande diferença...
Todos mantiveram uma distância bem prudente do palanque petista. Quem apanha não esquece, e o PT já bateu muito em todos eles. Petistas podem até argumentar que não é hora de deixar ressentimentos falarem mais alto quando há algo muito mais importante em risco. A questão é que o PT há muito tempo perdeu a autoridade moral para cobrar apoio de alguém contra um “mal maior”, como se fosse moralmente superior...
Caso emblemático é o do ex-presidente FHC. Chegou até a dizer que, com Bolsonaro, há um muro, enquanto com o PT havia uma porta para o diálogo. Mas com enormes ressalvas: “Não estou vendendo a minha alma ao diabo”, disse o ex-presidente ao “Estadão”, em uma espécie de desabafo para a posteridade. Pudera.
Desconstrução
Qualquer um que suspenda o filtro ideológico precisa reconhecer o lugar de destaque do tucano na história brasileira. Foi um presidente importante e um grande estadista. Fez o Plano Real (contra o qual o PT apostou). Domou a inflação, mal maior do país à época. Trouxe aos brasileiros a necessária estabilidade política e econômica, à qual o PT deu sequência no primeiro governo Lula. Lançou as bases das políticas sociais corretamente aprofundadas pelo PT a partir de 2003.
Não obstante tudo isso, sempre teve seu governo e sua memória enxovalhados pelo PT, que, uma vez no poder, pintou-o como o diabo e nunca lhe reconheceu os méritos e a herança positiva, preferindo esticar a corda em uma polarização desmedida com o PSDB para não dar aos tucanos chance de retorno ao Planalto.
Marina Silva é outra de quem agora não se pode cobrar alinhamento automático. Saiu do PT antes do fim do segundo governo Lula após ser constantemente tratorada nas disputas internas entre ela, no Ministério do Meio Ambiente, e Dilma, então chefe da Casa Civil e “mãe do PAC”. Depois, na eleição de 2014, foi massacrada pelas táticas de guerra da propaganda eleitoral do PT dirigida por João Santana, que chegou ao cúmulo de sugerir que, com Marina, faltaria comida à mesa das famílias mais pobres.
O bombardeio foi um dos fatores que custaram a Marina o passaporte para o segundo turno. Muito mais que seus poucos votos, ela agora poderia levar ao palanque de Haddad sua dignidade e sua grandeza ética. Ferida, limitou-se a não recomendar voto em Bolsonaro.
Diabruras e travessuras
Com Ciro, o poço de mágoas tem razões mais recentes, vinculadas a esta mesma eleição. Apesar de todas as evidências de que era ele o candidato do polo de centro-esquerda mais habilitado a derrotar Bolsonaro – conforme demonstrado por todas as pesquisas do início ao fim do segundo turno –, o PT insistiu, como sempre, em manter o protagonismo e bancar uma candidatura própria. Não satisfeitos, sob direção de Lula, dirigentes petistas operaram para esvaziar a candidatura de Ciro, retirando-lhe por exemplo o apoio formal do PSB e sabotando uma aliança que já estava muito bem costurada com o PDT.
O erro estratégico foi reconhecido por Jaques Wagner (PT) nesta semana. Enquanto Ciro declarou “apoio crítico” a Haddad e foi lamber suas feridas na Europa, coube a seu irmão, Cid, pôr em prática a notória incontinência verbal dos Gomes: “Não admitir o mea-culpa, os erros que cometeram, isso é para perder a eleição e é bem feito”.
Agora, fica claro que o PT está pagando por ter feito o diabo para vencer eleições passadas. Por sua histórica arrogância e por uma busca de hegemonia que sempre o impediu de reconhecer erros em público, enquanto não só criticava adversários, mas manchava e destruía biografias. Desconfio que, nesta encruzilhada histórica, líderes democráticos como os citados nesta coluna não hesitariam em se unir ao PT em uma frente democrática contra o potencial atraso representado por Bolsonaro.
Se não fosse o próprio PT.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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