O jornalismo profissional é merecidamente reconhecido como uma conquista da sociedade desde a passagem do século XIX para o século XX, ocasião em que abriu caminho para a divulgação de informações objetivas e bem apuradas. Foi quando surgiu a figura do repórter e a técnica do bom jornalismo que recomenda dar espaço a todas as versões que cercam um acontecimento.
As pessoas passaram a ter a oportunidade de receber informações de credibilidade que se contrapunham às transmitidas boca a boca tão impregnadas por distorções e boatos próprios da informalidade. Os boatos não acabaram com a profissionalização do jornalismo, mas perderam espaço diante das alternativas que as pessoas passaram a ter de obter informações confiáveis nos noticiários, cada vez mais acessíveis com o advento das impressoras rotativas e das emissoras de rádio e TV.
As pessoas passaram a ter a oportunidade de receber informações de credibilidade que se contrapunham às transmitidas boca a boca tão impregnadas por distorções e boatos próprios da informalidade
Um século depois, as redes sociais, que surgiram com a popularização da internet, deram margem à disseminação das fake news, como têm sido chamadas as notícias falsas – ou “boatos digitalizados”, “um dos grandes males do nosso tempo”, como diz o professor José Antonio Martinuzzo – que têm atormentado a todos que se preocupam com a desinformação e os danos que ela causa à sociedade.
Ressurge, neste contexto, para o jornalismo profissional, oportunidade semelhante à que lhe foi dada há um século: a de separar o “joio do trigo”, ou seja, a de servir como fonte de informação confiável para que as pessoas possam conferir se a mensagem que visualizou nas redes sociais é verdadeira ou falsa.
Esta oportunidade se apresenta de forma concreta diante da proximidade das eleições brasileiras. A partir de agosto, jornalistas de 24 veículos brasileiros de mídia vão identificar, verificar e combater as fake news, rumores e manipulações de informações que possam influenciar o pleito presidencial de 2018. É o projeto “Comprova”, uma iniciativa do First Draft, entidade ligada à Escola de Governo da Universidade de Harvard e que será coordenado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, Abraji.
Os jornalistas integrantes do projeto vão monitorar e fornecer dados sobre desinformações compartilhadas em redes sociais, sites e aplicativos de mensagens privadas. O resultado da checagem será publicado no site do projeto e nos veículos que fazem parte do “Comprova”, entre os quais estão o Gazeta Online e A GAZETA.
É o jornalismo profissional reafirmando, uma vez mais, a relevância do seu papel social e a característica de ser uma conquista civilizatória que legitima a sua importância na sociedade.
*O autor é jornalista