Três episódios desta semana escancararam o aguçado oportunismo de personagens importantes da trama política e jurídica brasileira. Gente que soube aproveitar situações favoráveis para cometer atos considerados moralmente reprováveis em qualquer circunstância. O que pensar, para início de conversa, de um presidente interino que resolve sancionar uma lei, desastrosa para o equilíbrio fiscal, tão logo tem a chance de ocupar o gabinete no Planalto? É uma rasteira tão baixa, algo imaginável somente nas mais distantes republiquetas, mas ainda o tipo de artimanha indissociável dos enredos políticos nacionais.
A vítima do golpe desferido por Rodrigo Maia não foi Michel Temer, foi o cidadão. Até mesmo por relatos de aliados de ambos indicarem um ato encenado. Teatro para Temer não se indispor com a própria equipe econômica, que deu parecer desfavorável à medida. Assim, pelas costas e sem direito de defesa, o prejudicado é o contribuinte.
O afrouxamento da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) para municípios é nocivo, um retrocesso para a administração pública. A legislação, em vigor desde 2000, é um marco civilizatório, que impôs freios aos gastos públicos e estabilizou a economia.
Mas não para por aí. No campo jurídico, outros reveses marcaram a penúltima semana deste 2018. Aproveitando-se dos prazos impostos pelo recesso, o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo, também conseguiu desestabilizar as contas públicas ao suspender a medida provisória que adiava o reajuste salarial dos funcionários federais de janeiro de 2019 para 2020. Uma canetada que vai custar caro aos cofres públicos. Pior, leva a crer que persiste a insensibilidade diante dos desafios que continuam sendo impostos ao país. São medidas que tornam mais distantes a recuperação econômica e, consequentemente, a justiça social que dela provém.
E o que dizer da trucagem empreendida pelo também ministro Marco Aurélio Mello para impedir as prisões em segunda instância? Outra canetada no apagar das luzes, felizmente impedida pelo presidente do Supremo. Movimentos subterrâneos na proporção vista neste fim do ano mostram que o maquiavelismo à brasileira continua não deixando escapar nenhuma chance. Posturas mais republicanas precisam se tornar a regra, é questão de respeito ao cidadão.