No fim de 2010, o ex-governador Gerson Camata, de quem Paulo Hartung se considera aluno, deu um conselho, em entrevista à TV Gazeta, para o governador que se preparava para assumir: “O Espírito Santo precisa andar com o pé no acelerador. Nunca ficar com o pé no freio. (...) Mete o pé no acelerador! Bota o Estado pra correr mais”.
O conselho foi destinado a Renato Casagrande, mas serviria para qualquer sucessor. Quatro anos depois, ao voltar ao Palácio Anchieta, Hartung não seguiu a recomendação do mestre. Escolhendo outro pedal, pisou no freio ao invés de acelerar. Assim, a “sacudida” prometida por Hartung durante a campanha de 2014 não se concretizou, pelo menos não em termos de investimentos públicos.
No lugar disso, o que vimos foi um grande freio de arrumação nas contas públicas estaduais. Nos três primeiros anos de governo, os investimentos do governo foram tímidos. Só agora, em 2018, com a melhoria na arrecadação, é que o Estado pôde investir o total de
R$ 1,4 bilhão anunciado ontem por Hartung, sendo R$ 813 milhões com recursos próprios (montante que ultrapassa os R$ 504 milhões investidos com recursos próprios nos três primeiros anos somados). A pergunta que fica é: daria para ter sido de outro jeito?
O retorno de Hartung ao Palácio Anchieta coincidiu com o início do pior momento da economia nacional desde a hiperinflação. Não bastasse a recessão econômica que atingiu todo o país em 2015 e 2016, com reflexos no PIB até hoje, o Espírito Santo enfrentou alguns componentes locais que tornaram ainda mais grave aqui um cenário que já era delicadíssimo no resto do país: paralisação da Samarco no fim de 2015, seca prolongada derrubando a produção agrícola, queda do preço internacional do barril de petróleo a menos de US$ 30,00. Formou-se a tempestade perfeita e foi por “águas turvas”, como diria o próprio Hartung, que ele teve que conduzir o leme do navio capixaba. Nesse contexto, se tivesse realmente acelerado, poderia ter levado o Estado a bater no iceberg e afundar.
O que fez então Paulo Hartung? Fez o ajuste fiscal. E foi essa, sem sombra de dúvida, a marca maior desse seu terceiro governo (segundo ele, o último). Manteve as finanças do Estado organizadas e equilibradas; ano após ano, alcançou superávit primário, cortando na despesa, em vez de aumentar receitas via tributação; não concedeu aumentos ao funcionalismo, mas honrou compromissos com fornecedores e pagou a folha sempre em dia.
Poder-se-ia questionar: mas isso não é básico? Não é o mínimo que se espera de um governador eleito? Pois é. Em circunstâncias normais sim, fosse essa a regra geral. Mas quando se olha ao redor e se vê vários Estados quebrados, devendo as calças e os sapatos 48 a servidores, com direito a governadores presos, o governo PH se erige em louvável exceção. Nessas circunstâncias, o “pouco” logrado por ele vira muito. Algo digno de cumprimentos e de nota. Aliás, de nota A, concedida pela Secretaria do Tesouro Nacional (uma espécie de avaliação de risco para investimentos nos Estados). O ES foi o único ente federado a receber o grau máximo de investimento na última avaliação.
Por falar em prova, à parte certo exagero na propaganda sobre os “projetos inovadores” implementados por sua gestão, é necessário reconhecer os méritos e feitos do governo em algumas áreas essenciais, sobretudo na educação. Neste ano, o ES atingiu o melhor desempenho, dentre todos os Estados, no Ideb.
Na segurança, apesar da greve da PMES em fevereiro de 2017, o índice de homicídios cai de 39,4 por 100 mil habitantes em 2014 para 28 por 100 mil habitantes em 2018 (o menor em 29 anos). Na saúde, em que pesem as agruras de sempre do sistema público estadual, o governo inaugurou as primeiras unidades da Rede Cuidar no interior, descentralizando a oferta de exames e consultas especializadas.
Não foi, enfim, a sacudida prometida e desejada. Mas, dada a conjuntura em que governou, Hartung tem razão ao citar o Espírito Santo, ao fim do seu governo, como um “ponto fora da curva”, com “resultados diferenciados no país”.
Talvez o grande mérito de Hartung tenha sido não o de recuperar as finanças colapsadas de um Estado que ele herdou em crise (o que não foi o caso), mas o de evitar o colapso das finanças estaduais num dos momentos mais difíceis para se governar o Espírito Santo, o que poderia facilmente ter ocorrido, fosse outro o governante sentado na cadeira.
Com seu hábito de falar em tom professoral, o aluno de Camata deixa um legado pedagógico: mostrou aos capixabas a importância da austeridade fiscal. A posse de Casagrande, na terça-feira, será a cafezinho e água.
Quanto ao futuro político de Hartung, ele tornou a dizer ontem que não disputará mais eleições no Estado. No Estado. A grande chacoalhada que o governador deve dar agora é na própria trajetória política. Hartung se tornou um peixe muito grande para um aquário muito pequeno. Há de buscar um maior.
O governador Paulo Hartung foi tietado por alguns cidadãos durante o velório e o enterro de Gerson Camata, na última quinta-feira. Em meio à consternação geral, alguns fizeram selfies com ele. Uma senhora interrompeu a entrevista da coluna para abraçá-lo. Perguntou se era verdade que ele não disputaria mais mandatos e disse que seu sonho é vê-lo na Presidência.