Perto de completar 50 anos, o prefeito de Vila Velha, Max Filho (PSDB), acumula uma biografia invejável e um currículo político respeitabilíssimo, iniciado quando era muito jovem, nas fileiras do brizolismo e no embalo do governo do pai dele. Em 1988, com apenas 20 anos, o filho de Max Mauro elegeu-se vereador de Vila Velha, cidade que viria a governar de 2001 a 2008 e agora, novamente, em um terceiro mandato quase interrompido precocemente pelo próprio prefeito. Nos anos 1990, Max Filho teve atuação marcante na Assembleia, destacando-se na luta contra os desmandos de Gratz e a corrupção denunciada no governo José Ignácio. Assim como o pai, é um homem público sério, correto e, até que alguém prove o contrário, de reputação ilibada. Tem, enfim, nome, história e experiência.
Justamente por isso, por toda a sua história e experiência, é difícil compreender o movimento político frustrado que Max Filho protagonizou ao longo dos últimos dois meses e que, na última quinta-feira, teve um desfecho melancólico para ele mesmo: falamos da repentina tentativa – não combinada com o eleitor vilavelhense – de lançar candidatura a governador do Estado, no fim das contas abortada, não por vontade pessoal de Max, mas por força das circunstâncias.
Bom lembrar que a viabilização dessa empreitada passaria por um detalhe importantíssimo para o povo governado por Max: para poder ser candidato, ele teria que renunciar até ontem ao cargo de prefeito, deixando em seu lugar o seu vice, Jorge Carreta, um político com pouquíssima expressão e, como o próprio Carreta admite, pouquíssimo conhecido pelos próprios moradores nas ruas. Seria um caminho sem volta. Além disso, Max teria que trocar de sigla também até ontem, pois no PSDB não tem hoje legenda para disputar eleição a síndico.
Após semanas de suspense sobre seu destino e de incertezas para os moradores da cidade (quem será o prefeito, afinal, a partir de abril?), Max usou o auditório da prefeitura para anunciar que não, não abandonará pela metade o mandato para o qual foi eleito em 2016. “Menos mau”, poder-se-ia dizer: o prefeito recobrou o juízo e recuou a tempo de salvar a si mesmo de uma insensatez política; “rouco de tanto ouvir”, deixou falar mais alto a voz da razão e das responsabilidades assumidas para com seus munícipes.
Mas não, não foi bem assim que as coisas sucederam.
Max Filho não decidiu ficar na prefeitura só porque quis ou porque tenha mudado de ideia, mas basicamente porque não conseguiu viabilizar seu plano de voo estadual. Simples assim.
A verdade é que Max entrou voluntariamente em um labirinto político. Para sair dele, teria que renunciar ao mandato e conseguir se filiar, dento do prazo legal, a um partido que topasse lhe dar guarida e bancar o seu projeto. Não conseguiu. Os poucos que realmente se dispuseram a recebê-lo não reúnem nem lhe ofereceram as condições para dar suporte à sua ousada candidatura: tempo de TV, repasses do Fundo Partidário, capilaridade política por toda a extensão do Estado, entre outros pontos básicos sem os quais não é possível sustentar uma candidatura majoritária estadual. Max, assim, recuou. Não conseguindo encontrar a saída do labirinto criado por ele mesmo (e para si mesmo), acabou saindo pela mesma passagem pela qual entrou no labirinto.
Prefeito: “Saio deste momento maior do que entrei”
Para se desagravar o desfecho frustrante do movimento de Max Filho, pode-se alegar que tudo não passou de blefe. Só que também não foi bem assim. Ao contrário, por exemplo, do prefeito da Serra, Audifax Barcelos (Rede) – que também chegou a ensaiar candidatura em dado momento –, Max queria de verdade ocupar uma raia na corrida ao governo do Estado e se empenhou para tornar isso possível. Suas declarações e gestos graduais desde meados de fevereiro não deixam dúvida quanto a isso.
A cada entrevista desde que o projeto veio à tona, o prefeito vinha num indicativo crescente rumo à confirmação da candidatura. Cada vez que falávamos com ele, mostrava-se mais determinado a ser candidato, encampando a tese do pai – frágil e contestável, por sinal – de que os eleitores canelas-verdes na certa entenderiam eventual renúncia, pois sua eleição ao governo seria boa para o povo de Vila Velha, que voltaria a ter um conterrâneo governando o Estado pela 1ª vez desde o próprio Max Mauro.
Depois disso, o prefeito chegou a dizer, em entrevistas à coluna, que “política não se faz sem riscos” e que “estava disposto” a partir para esse projeto. Isso sem contar a entrevista dada por Jorge Carreta neste espaço, ensaiadíssima com Max, na qual o vice se disse pronto e preparado para assumir o lugar do titular, se necessário.
Mais do que as palavras, os gestos foram eloquentes. Ao longo dessas últimas semanas, passando pelo carnaval e pela Páscoa, Max se jogou em verdadeira maratona de conversas com dirigentes de partidos – do maior ao mais nanico, da extrema esquerda (PPL) ao conservadorismo liberal (DEM). Bateu de porta em porta, “dialogando com todos”, em busca de uma legenda que topasse abrigá-lo e, junto com ele, seu projeto eleitoral.
No decorrer desse périplo, passou por alguns constrangimentos evitáveis: apoiador que foi do impeachment de Dilma na Câmara, ouviu vaias de militantes do PCdoB ao lado de Givaldo Vieira e Manuela D’Ávila na Ufes. E recorreu até a Sérgio Vidigal, presidente estadual do PDT, um de seus antigos desafetos desde que se estranharam dentro do mesmo partido há cerca de uma década.
Max, enfim, estava mesmo disposto a embarcar no que deu a impressão de ser uma grande “aventura”; uma viagem rumo ao desconhecido, dentro de um barco incerto (qualquer um que topasse tê-lo a bordo). Tinha tudo para dar água. E deu. Foi um movimento que não condisse com a história, a experiência e o tamanho político de Max e da família Mauro. Um movimento do qual ele sai menor, sem a menor necessidade – na humilde opinião deste colunista e respeitando a opinião em contrário do próprio prefeito. “Saio deste momento maior do que entrei.”
Max Filho é maior que isso. Vila Velha também. Seu atual mandato ficará indelevelmente marcado pelo episódio em que o prefeito ameaçou deixar a prefeitura, mas, não conseguindo abrigo, recuou. Com esse “vou, não vou” explícito, transmitiu um quê de impulsividade e de voluntarismo. Mostrou não exatamente “desapego ao cargo”, no sentido positivo da expressão. Ficou muito mais uma sensação de “desapreço pelo cargo” e desvalorização do mandato de prefeito.
Para se recuperar desse espirro e para que a marca maior de sua gestão não seja a “viagem eleitoral que deu água” (como a da gestão de Rodney foi a viagem pessoal em meio ao aguaceiro), seria desejável que Max voltasse de vez o foco para Vila Velha. E que se concentrasse, de agora em diante, em fazer o melhor dos seus três mandatos na cidade. Tempo para isso ele tem de sobra. Capacidade, idem. A economia há de melhorar. De igual modo, o poder de investimentos. O povo que o elegeu não merece menos.
Com a palavra, Max
“Fico na prefeitura, apesar de ter recebido muito estímulo e de pesquisas qualitativas indicarem a necessidade de um nome que pudesse preencher um espaço enorme na política capixaba. Há um certo fastio com o quadro eleitoral com os nomes já conhecidos das últimas eleições. Mas, após um amplo processo de escuta, sobretudo ouvindo a cidade, entendi que a melhor opção foi a de permanecer à frente da Prefeitura de Vila Velha. Não foi por falta de opção. Recebi muitos honrosos convites.”
“Ânimo redobrado”
“Estamos fazendo uma grande administração em Vila Velha”, disse o prefeito, citando projetos como o Bike VV, a nova iluminação do Convento, a licitação de contratos como os de áreas verdes, coleta de lixo e limpeza pública. “Fico no cargo com o ânimo redobrado. Sigo no trabalho para o qual fui eleito. Deixei de ser deputado federal para ser prefeito de Vila Velha, e não me arrependo! Gosto do que faço. Tenho uma grande equipe. Estamos entregando e entregaremos até o final uma excelente administração.”