
Vitor de Angelo*
Na história recente do Espírito Santo, Paulo Hartung é uma das lideranças de maior êxito político-eleitoral. Em virtude disso, passou-se a alimentar uma expectativa crescente em torno de sua inserção na política nacional, sobretudo nos últimos três anos.
Tradicionalmente, o Espírito Santo tem tido uma importância política pequena no plano nacional. Esse fato, em geral, é atribuído ao tamanho do Estado e de sua bancada na Câmara dos Deputados. Porém, Estados semelhantes possuem um peso na política nacional comparativamente maior, visto que suas lideranças políticas há muito tempo são atores importantes em Brasília.
O modelo institucional brasileiro exige que o presidente governe com base nos partidos e nas lideranças no Congresso. Assim, para aumentar nacionalmente o peso relativo de cada unidade da federação, (1) os governadores podem tentar coordenar as bancadas na Câmara, (2) os parlamentares podem buscar ocupar cargos-chave para o funcionamento da coalizão ou (3) as elites regionais podem procurar ascender na estrutura nacional dos partidos com representação no Legislativo. Isso ajudaria a reverter a tendência histórica verificada no Espírito Santo, mas, com raras exceções, não tem sido essa a realidade do estado.
Hartung não fugiu à tradição: no atual mandato, não coordenou a bancada de deputados federais nem se destacou como liderança partidária dentro do PMDB. Logo, sua projeção nacional a partir de 2015 não ocorreu pela via institucional, mas pela construção de uma imagem pública específica, lapidada por veículos de mídia, think tanks e institutos de ensino e pesquisa de todo o país. A crise econômica atual abriu espaço para uma agenda reformista e fiscalista na qual Hartung, dessa perspectiva, foi apresentado como exemplo de sucesso.
Sem demora, seu nome passou a ser considerado em possíveis coligações nacionais, o que acabou não se concretizando. Todavia, a projeção alcançada por Hartung deveria ter produzido, residualmente, ao menos as condições que lhe garantissem uma eleição com facilidade em âmbito regional. Mas as recentes pesquisas de opinião evidenciam dificuldades para sua reeleição, como rejeição alta e aprovação baixa em áreas importantes.
Estamos diante de um fato politicamente interessante, que é o divórcio entre a imagem do governador fora e dentro do Espírito Santo. Como as articulações políticas reduziram as opções de Hartung à política estadual em 2018, seu desafio será convencer os capixabas de que o Brasil, por assim dizer, é aqui.
*O autor é doutor em Ciências Sociais e professor do mestrado em Sociologia Política da UVV