“Foi morta pelos bandidos que defendia.” Não foi muito difícil esbarrar nessa frase ou suas variações pelas redes sociais nas horas que se seguiram à execução de Marielle Franco, na noite da última quarta-feira. Mas a sentença não poderia estar mais equivocada. Compreende-se que o Brasil está com feridas cada vez mais difíceis de serem cicatrizadas. O medo anda falando tão alto que ensurdece. Mas é hora de abrir os ouvidos e iniciar o diálogo sobre certas noções que são elementares à vida em sociedade.
Ser um defensor dos direitos humanos não é ser um apoiador da violência, o que seria uma baita contradição. Essa condenação crescente a um dos maiores progressos da humanidade não pode se consolidar como senso comum. A violência não pode ser respondida com violência simplesmente porque seria o retorno à barbárie. A humanidade já passou por períodos de trevas, e homens e mulheres nem sempre foram livres. E, olha, nem faz tanto tempo assim.
Nesse contexto, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela Assembleia Geral da ONU em 1948, foi um marco civilizatório. As atrocidades da Segunda Guerra Mundial ainda ressoavam. Sem distinções, as pessoas então foram agraciadas por direitos fundamentais, como à vida e à liberdade, à liberdade de opinião e de expressão, ao trabalho e à educação. Parecia utopia, e não deixa de ser, mas é a garantia de que ninguém ou nada pode deliberadamente tirar isso de alguém. É o que assegura a dignidade humana, inalienável. E é justamente para garanti-la que existe tanta vigília.
De forma breve, não é ser contra a polícia, mas se opor à truculência policial. Não é defender bandido, mas garantir que não haja injustiças, como a mera criminalização da pobreza. É defender julgamentos justos dentro do Estado de direito. É combater a impunidade. E é, sim, defender as vítimas da violência. São posicionamentos que não se excluem, somam-se, para garantir que seja um direito de todos. Sem exceção.