Embora apresentando números e indicadores que podemos considerá-los bons, a economia brasileira mantém-se ainda precavida em relação ao futuro próximo. O sinal mais representativo dessa relutância em deslanchar vem do campo das decisões de investimentos, que se mostram travadas. Das razões para tanto, sem dúvida o destaque maior vem do campo da política, que por conta do altíssimo nível de incertezas ofusca o horizonte de previsibilidade, pelo menos até a realização das eleições em outubro.
Porém, mesmo definido o mandatário máximo do país, além dos membros das casas de representação, não nos parece condição suficiente para assegurar horizontes mais calmos e claros que possam sustentar uma nova rota de crescimento e desenvolvimento.
O país precisa construir e pactuar minimamente um projeto de futuro. Muitos ajustes, acertos e reformas estruturais terão que constar na agenda de prioridades. E mais que isso: é preciso que questões que viabilizem o projeto de futuro sejam abertas aos eleitores sem camuflagens, sem mentiras ou venda de ilusões, e sem, claro, fake news. A reforma da Previdência, por exemplo, deverá estar no topo da lista, por conta do seu peso no equilíbrio nas contas públicas.
Não é demais lembrar que o gasto total com a Previdência em 2017 comprometeu cerca de 57% do total do orçamento geral da União, atingindo a cifra de R$ 680 bilhões. O problema está no fato de que, para cobrir esse gasto, a União arrecadou somente R$ 412 bilhões, gerando, assim, um monstruoso déficit de R$ 268 bilhões. E a tendência é de que esse déficit continue a crescer, podendo chegar à situação de insustentabilidade. Ou seja, não haverá mais dinheiro para pagar aposentados.
Isso, é bom frisar, não se trata de nenhuma ilação ou terrorismo. É pura verdade. Basta observarmos a tendência dos números. Enquanto a arrecadação geral do sistema previdenciário cresceu 16% em termos nominais no período entre 2014 e 2017, os gastos gerais deram um salto de 38%.
E não vamos imaginar que a retomada da economia - que, aliás, não será assegurada se apartada de reformas e, entre elas, a da Previdência -, seja capaz de dar conta de equilibrar esse jogo. No máximo, poderá proporcionar uma pequena extensão de sobrevida.
Portanto, quem assumir o comando do país no próximo governo não terá outro caminho que não passe necessariamente por fortes ajustes nas contas públicas e por um projeto de futuro crível, que alente e alimente, mesmo que minimamente, os anseios e a alma do povo. O momento, no país, não está para aventuras, bravatas e soluções mágicas.
*O autor é economista