Gosto de ficar imaginando os acontecimentos que antecederam fatos emblemáticos, como o suposto grito de independência ou morte, dado do alto de um cavalo branco. Pois foi o que andei fazendo para tentar entender os meandros do episódio que surpreendeu o Brasil em pleno domingo. Pelo que vi na imprensa, foi coisa de umas poucas pessoas, das muitas que fazem da política instrumento para ações espúrias, incluindo a de transformar tribunais de justiça em palco para encenar enredos vergonhosos. Dito isso, vamos às suposições.
Dito e feito. Domingo, lá estavam os três em Curitiba, monitorando os acontecimentos. Passada a euforia com o primeiro ato, o preso, homem tarimbado e sagaz, se declarou descrente da possibilidade de ser solto com tamanha facilidade
Deputado Espertão telefona pro deputado Parceiro e diz: “Tá na hora de soltar o cara. Vai ter que ser neste fim de semana, quando o nosso desembargador estará de plantão no tribunal. Ele só precisa que a gente entre com aquele habeas corpus que já está pronto. Ele disse que resolve a parada com uma só canetada, como estão fazendo os nossos ministros lá no Supremo. A hora é essa, companheiro. Por sorte, o pessoal está chateado com a desclassificação, doido pra encontrar motivo pra comemorar. Precisamos do homem solto, na campanha”. “Beleza, então vamos chamar o deputado Tonessa pra acompanhar os fatos ao lado do chefe e entrar na foto quando ele estiver saindo do prédio da Federal”, responde o deputado Parceiro.
Dito e feito. Domingo, lá estavam os três em Curitiba, monitorando os acontecimentos. Passada a euforia com o primeiro ato, o preso, homem tarimbado e sagaz, se declarou descrente da possibilidade de ser solto com tamanha facilidade. Afinal, seu fiel advogado e um outro, caríssimo, daqueles que resolvem tudo diretamente com os togados de Brasília, não tinham conseguido tirá-lo daquele lugar. Depois de ouvir tudo em silêncio respeitoso, o deputado Espertão, agora com ares de malandro federal, sentenciou: “Deixa com a gente, presidente. Pode ir preparando as declarações e os discursos. Vai ser vapt-vupt.”
Como a tramoia magistral gorou por inconsistência jurídica, é fácil supor que o tal magistrado, que deu sucessivas canetadas durante o plantão, vai ficar se explicando pelo resto da vida.
*O autor é engenheiro de produção, cronista e colhereiro