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Tarcísio Bahia

O Brasil perdeu a graça

Se antes construíamos cidades com Brasília ou bairros inteiros, hoje nem sequer se consegue duplicar uma BR 101 ou acabar a obra da Leitão da Silva

Publicado em 13 de Agosto de 2018 às 14:52

Públicado em 

13 ago 2018 às 14:52
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia Tarcísio Bahia
Palácio do Planalto, um dos símbolos arquitetônicos de Brasília, cuja construção ainda pode ser considerada um grande desafio Crédito: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Tínhamos o samba irreverente de Noel e Zé Keti. No futebol, um Mané de pernas tortas gingava sem cair, e quem caía eram os branquelos de fala esquisita. Copacabana era uma festa.
É claro que depois disso ainda tivemos Cazuza e Barão com “Pro dia nascer feliz”, a galera do Casseta & Planeta e Sônia Braga. E ainda que a seleção tenha perdido a Copa de 82, aquele time comandado por Zico, Sócrates e Falcão foi realmente encantador.
Dava mesmo para acreditar, afinal só mesmo com esperança e perseverança se podiam realizar obras como foi o Aterro do Flamengo (um enorme parque de lazer, com paisagismo de Burle Marx, além de sistema viário) ou Brasília, em pleno cerrado no planalto central (a construção de uma cidade nesta escala ainda é um desafio em termos mundiais). E até aqui no Espírito Santo, o aterro da COMDUSA em Vitória, que resultou na região da Enseada do Suá, pode ser visto como um marco urbanístico e paisagístico capixaba.
No Brasil chato e sem graça de hoje, onde humoristas como Chico Anísio ou Costinha não teriam vez por conta do politicamente correto, as cidades também estão se tornando o lugar da desesperança. Se antes construíamos cidades ou bairros, hoje nem sequer se consegue duplicar uma BR 101 ou acabar a obra da Leitão da Silva. O projeto do Cais das Artes, assim como o MAM no Rio e o MASP em São Paulo, foi pensado não só como um museu, mas um lugar público de convívio de tal modo que sua estrutura é suspensa criando uma praça coberta, onde se pretendia que fossem realizados eventos, festas e todo tipo de encontros, sejam eles culturais ou até políticos, como ocorre nos dois outros museus brasileiros já citados.
Nesse Brasil tão sério, o medo tomou conta das cidades, desanimando as pessoas a saírem de casa para se divertir principalmente ao ar livre. A praça é o espaço público destinado a esse tipo de ocasião que é o lazer, tão necessário à vida. Mas já há administrador municipal que se opõe à construção de praças, argumentando que acabam se tornando local de insegurança, dominado por consumidores de drogas e assim criando mais demanda para a municipalidade.
O Brasil de antes era admirado no mundo por sua graça, que ia da música, ao futebol, passando pelo cinema e arquitetura.
Aparentemente a graça da música brasileira atual é ainda a bossa nova, afinal não deixa de ser irônico o lançamento de um filme chamado “Onde está você, João Gilberto” dirigido por um francês e baseado num livro de um alemão.
No futebol de hoje, apesar de exportarmos jogadores, temos um campeonato nacional e os estaduais combalidos, sem falar em todo o noticiário envolvendo a corrupção na CBF e um ex-presidente brasileiro da FIFA, e no recente caso da escolha da sede da Copa de 2026, quando o representante do Brasil traiu o voto de confiança do grupo sul-americano. E o que falar do nosso principal jogador?
O cinema sim é engraçado, pois nossa produção é dominada por comédias pastelões de gosto duvidoso, ou então por obras que mostram o lado cruel e violento que marca a sociedade brasileira atual.
Houve uma época na qual arquitetura e engenharia brasileiras eram famosas, Niemeyer era um nome reconhecido mundialmente, construíamos parques e cidades; hoje, porém, edifícios, passarelas e viadutos mal projetados e construídos caem, e temos uma paisagem urbana composta por caixotes sem graça.
Mas sem graça mesmo são nossas opções políticas, o que mostra que ficaremos ainda muito tempo sem rir.

Tarcísio Bahia

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Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaço

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