Números, para que possamos decifrá-los e entende-los melhor, devemos estressá-los, mesmo que para tanto também nos estressemos. E esse parece-nos ser o destino de praticamente todos nós, mas em especial daqueles que necessitam tê-los como insumo no dia a dia de trabalho, principalmente pela profusão e formas com que os mesmo nos são ofertados. Assim, cada vez mais o mundo é decifrado, entendido e operado através de números. Em especial quando nos referimos ao mundo da economia.
Chamou-me a atenção e ao mesmo tempo a curiosidade os números relativos ao PIB municipal do Espírito Santo de 2016 divulgados na semana passada pelo Instituto Jones dos Santos Neves. Uma coisa é trabalharmos com o PIB estadual, no agregado, que nos garante, por exemplo, uma percepção mais objetiva e clara do que os números estão a nos dizer. Sem dúvida, a crise que se abateu sobre o país, aqui foi mais cruel, no entanto, com nuances e especificidades. O PIB estadual caiu 9,4% em termos nominais e 5,3% em termos reais. À exceção do caso da paralisação da Samarco, foram os preços das commodities, sobretudo petróleo e produtos minero-siderúrgicos, os grandes responsáveis pela queda.
Outra coisa é buscarmos entender como a dinâmica desse PIB distribuiu-se entre regiões e municípios. E aí vamos nos deparar com uma grande assimetria. Afinal, tivemos uma amplitude de extremos de variação do PIB nominal municipal entre 2015 e 2016 nunca antes observada, com uma taxa máxima, positiva, de 40% (Irupi) e uma taxa mínima, negativa, de 74% (Anchieta) e 67% (Presidente Kennedy).
Simplesmente olhando os números nos levaria a crer que enquanto Presidente Kennedy teve a sua riqueza reduzida em 67%, Irupi enriqueceu em 40%. Isso em apenas um ano. Convenhamos, essa é uma leitura rasa dos números. No caso específico de Presidente Kennedy, como também nos municípios fronteiriços à extração de petróleo, estamos lidando com uma categoria de riqueza que, para o município, é apenas fictícia, serve apenas para o cálculo de royalties. Naturalmente, não é fictícia para o país. O que quero dizer com isso é que a queda do PIB do município em nada afetou o bolso do cidadão que lá mora.
Da mesma forma, em Irupi não nos parece que a sua população tenha ficado mais rica em 40% num ano apenas. Confesso que não sei exatamente o que teria acontecido lá. Talvez algo de extraordinário, um empreendimento novo ou uma safra ótima de café arábica. Aliás, esses saltos são mais comuns em municípios de economia pequena e pouco diversificada. Mas o melhor caminho para uma análise mais acurada seria lançarmos o olhar para o PIB pela ótica da renda, ou seja, para onde são destinadas as remunerações: salários, lucros, rendimentos de autônomos etc. E aí vamos ver que o Espírito Santo também apresenta nuances, especificidades e assimetrias.