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Jace Theodoro

Noção de espaço está em falta nas prateleiras do cotidiano

Quando limito espaços, físicos e afetivos, não é para apartar, mas garantir a sanidade de uma relação que se pretenda civilizada, respirável

Publicado em 16 de Agosto de 2018 às 17:34

Públicado em 

16 ago 2018 às 17:34
Jace Theodoro

Colunista

Jace Theodoro Jace Theodoro

Falta de noção com espaço

Jace Theodoro*

Foi no meu tempo de bailarino que aprendi a lição. O tempo de “danseur” foi o mesmo quando Adão descobriu as propriedades da maçã, e não estou falando dos seus efeitos antioxidantes, mas dos pecadilhos a ela atribuídos. A lição foi a da ocupação do espaço no entorno sem prejuízo para os que me rodeiam. O espaço foi e é tema sempre presente porque está em toda a parte. Do vazio que há entre os olhos do nobre leitor e à página desta crônica ao lugar que ocupamos no mundo.

Noção de espaço anda sem lugar nas prateleiras do cotidiano e isso se vê nas pequenas ações. O estudante que entra no ônibus com a mochila nas costas e vai socando e compartilhando o peso da bolsa com todos os passageiros, sem pensar no espaço a mais que ela ocupa no busu lotado é pequeno exemplo da juventude de hormônios em alta, extensiva aos marmanjos de serotonina preguiçosa pra perceber o vizinho.

Vizinhos podem ter natureza espaçosa, esquecidos de que, na parede ao lado, ouvidos estão prontos pra escutar seus haveres e misérias. Um volume de voz mais potente e está entregue o currículo de quem imagina ser só seu o espaço em um prédio de convivência diversa. Brigas de família ganham proporções quando gritos sobem e descem pelo fosso ou o funk nada brejeiro do filhinho atinge o ouvido do pianista clássico, vizinho de porta.

Nas relações amorosas, o espaço é propício a desenhos com ares de rasura. Quando o sujeito faz do amante objeto dos seus próprios desejos, vislumbra-se temerária invasão de espaço com discurso de “só quero cuidar de você, você sem mim nunca será completo”. Ter o controle sobre o outro, seus passos, quereres, fome e sede. Quando o amor ganha feições de posse, o seu espaço é o meu, pode mirar o chão porque o pé estará rente ao abismo.

Meu mestre Rainer Vianna, figura primordial da dança contemporânea e da expressão corporal no Brasil, dizia pra eu aplicar as lições de espaço no palco e, mais que tudo, levar pra minha vida. Assim, quando limito espaços, físicos e afetivos, não é para apartar, mas garantir a sanidade de uma relação que se pretenda civilizada, respirável. Eu recomendo.

*O autor é jornalista e cronista

 

Jace Theodoro

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