“Este ano não vai ser igual aquele que passou. Eu não brinquei, você também não brincou.(...). A marchinha carnavalesca"Até Quarta-Feira" dá o tom do período momesco vivido agora em muitas partes do Brasil.
Pesquisa da Confederação Nacional de Municípios (CNM), feita entre 27 janeiro e 18 de fevereiro de 2020, mostra que neste ano pelo menos 43% das cidades do país não investiram em eventos de carnaval. Aliás, esse percentual pode ser maior, visto que o levantamento coletou respostas de 3.922 municípios, o que representa apenas 70,4% dos 5.568 existentes no Brasil.
Por ser a nação do carnaval, esses números causam sensação de decepção. Mas, por trás deles, existem razões econômicas preponderantes. Falta dinheiro para tudo, ou quase tudo, na grande maioria das prefeituras. A situação fiscal é crítica ou difícil em 74% dos municípios brasileiros. Cerca de 33% não conseguem pagar com recursos próprios as suas contas básicas.
Apenas 4% têm excelência em gestão financeira. É um quadro triste, constatado em estudo da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), com base nas contas municipais de 2018 enviadas pelas prefeituras ao Tesouro Nacional. Lamentavelmente, 100 prefeitos descumpriram a Lei de Responsabilidade Fiscal. E não há notícia de punição - estranhamente. Isso sim, é carnaval de impunidade.
A Confederação Nacional dos Municípios prefere queixar-se do cenário macroeconômico. É fácil. Ao analisar a falta investimentos do poder municipal em eventos carnavalescos, a CNM lembra que "a crise financeira dos últimos anos ainda reflete nas decisões de investimentos dos municípios, que precisam destinar recursos para áreas prioritárias". Poderia também ter reclamado de questões estruturais que sufocam os orçamentos das municipalidades.
ARGUMENTO POLITICAMENTE CONVENIENTE
Em resposta à pesquisa da CNM, a maioria das prefeituras buscou argumento politicamente conveniente, garantindo que os recursos serão canalizados para saúde, educação e infraestrutura. São prioridades inquestionáveis. Sem dúvida. Porém, não necessariamente impedem o esforço do poder público - sem agravar crises na saúde, educação etc - para o aproveitamento econômico do período carnavalesco. Ou seja, como estratégia para atração de visitantes aos municípios, impulsionando comércio, serviços e, também, a arrecadação.
No Espírito Santo, a pesquisa da CNM entrevistou apenas 56 dos 78 municípios (71%) e se deparou com um quadro atípico no Sul do Estado. Várias cidade cancelaram a programação em função das aflições pelo excesso de chuvas. Ruas foram destroçadas, prédios e casas desabaram, pontes foram levadas pela correnteza. Milhares ficaram desabrigados e desalojados. Comércio e lavouras debaixo d'água. Prejuízos vultosos. Obviamente, o carnaval também afundou nesses locais. Pelo menos neste ano.
Uma antiga ladainha continua válida: o Espírito Santo precisa tirar melhor proveito do carnaval, como força econômica. O enorme potencial turístico tem muito a ser desenvolvido.. As oportunidades do evento carnavalesco não devem se restringir a Vitória (favorecida pelo brilho do sambódromo) e a outras poucas cidades capixabas. Temos muito mais a oferecer e a ganhar.