A afirmação assusta: “Estamos nos aproximando do dia em que o sangue no chão das redações de jornais significará sangue nas mãos do presidente”. Assim o colunista do NY Times Bret Stephens encerrou artigo sobre os riscos da demonização da mídia promovida por Donald Trump. Dias antes, Stephens havia sido ameaçado de morte por um homem que ecoava a hostilidade do líder norte-americano à imprensa. A antipatia pelo jornalismo assume contornos perigosos. E o Brasil não está imune, com setores da sociedade sendo cativados pelas mesmas estratégias de desinformação. Pela nossa própria saúde democrática, todo cuidado é pouco.
O republicano repetidamente chama a mídia de “inimiga do povo”, assim como Stalin. No mês passado, proibiu uma repórter da CNN de cobrir a Casa Branca por fazer perguntas “inapropriadas”. No domingo, rotulou jornalistas de “antipatriotas” no Twitter. A bravata de Trump contra o jornalismo é tão virulenta que levou a ONU a advertir que o discurso feroz pode a qualquer momento sair do campo da retórica e descambar para a violência física. O mesmo alerta de Stephens.
Ao pintar a imprensa como "inimiga do povo", Trump mostra mais do que ignorância. Mostra má-fé. Para a ONU, os ataques do presidente são “desenhados para minar a confiança no jornalismo e levantar dúvidas sobre fatos verificáveis”. É a clássica estratégia de argumentação “ad hominem”, quando, ao ser impossível invalidar o conteúdo da crítica, busca-se desacreditar seu autor.
Segundo levantamento do Washington Post, Trump fez 4.229 declarações falsas ou imprecisas desde o início do mandato. Mas, para ele, a imprensa que o desmascara é que é “fake news”. A grave ironia é que as agressões partem do presidente da nação que se proclama “líder do mundo livre”, com poder para balizar condutas.
Estudo da ONG Freedom House aponta queda mundial da liberdade de imprensa. Antes restritos a países autoritários, os ataques a jornalistas têm invadido democracias consolidadas. A imprensa não é inimiga do povo, pelo contrário. É das tais perguntas “inapropriadas” que sai a informação de interesse público.