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Cultura

Não se pode ignorar livros e bibliotecas, pois o preço da ignorância é alto

Nunca houve uma época tão democrática para se ler ou se publicar como nos dias de hoje. Falo isso porque vivo há mais de sessenta anos entre livros e escritores, bibliotecas e leitores

Publicado em 25 de Novembro de 2019 às 04:00

Públicado em 

25 nov 2019 às 04:00
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

Livros, estante, biblioteca Crédito: Pixabay
Inicia-se, hoje, a Semana Nacional do Livro e da Biblioteca, cujo ápice será na próxima sexta-feira, dia 29, data em que se comemora a criação da Biblioteca Nacional pela Coroa Portuguesa, no Rio de Janeiro, em 29 de outubro de 1810. Há motivos para comemorar? Penso que sim.
Nunca se leu tanto e de tantas maneiras, em nosso país, nunca se escreveu tanto, e em todos os gêneros e modalidades, como hoje. Apesar de todas as crises, política, econômica, social e de valores, por que passamos, os brasileiros estão lendo bastante, escrevendo e publicando muito, sob a forma tradicional, impressa, ou eletrônica, e há de tudo e para todos, de forma gratuita, como os downloads ou livros patrocinados por órgãos públicos ou privados, até os produtos caríssimos saídos da indústria gráfica para colecionadores ou pessoas de alto poder aquisitivo.
Nunca houve uma época tão democrática para se ler ou se publicar como nos dias de hoje. Falo isso porque vivo há mais de sessenta anos entre livros e escritores, bibliotecas e leitores, e posso comparar os dias de penúria do passado com os de hoje. É claro que ainda convivemos com situações de extrema precariedade, a maioria das escolas não possui bibliotecas, grande parte da juventude não lê nada, só quer saber de rede social, professores estão despreparados para lidar com essa invasão tecnológica e não sabem como usar essas ferramentas em favor do ensino e da educação, a maioria dos municípios não oferece bibliotecas públicas adequadas aos cidadãos, enfim, poderia continuar citando toda uma realidade que conheço de cor e salteado.
Deixemos de lado esse mimimi de sempre e vamos falar de coisas boas. Após um momento de crise na indústria gráfica e livreira, parece que o pior já passou. As vendas aumentaram, sobretudo na internet, e se houve fechamento de livrarias e de editoras que não sobreviveram à mudança dos tempos, outras estão indo bem. Hoje, os catálogos são digitais e livros são impressos sob demanda.
Livros meus publicados há mais de trinta anos, como “O gato xadrez” e “A casa mal assombrada” estão voltando ao mercado e estão à disposição de novos leitores e sob novas roupagens. Voltando de viagem, constatei numa grande livraria, no aeroporto, livros de todos os tipos e com preços variados. Alguns, na lista de best-sellers, podiam ser comprados de 9,90 a 29,9, preços bem acessíveis. Clássicos reeditados em tiragens belíssimas, um encanto para os olhos e o coração.
Ao meu lado, viajou um jovem norte-americano que, após trabalhar no México e na Argentina, vinha passar um tempo no Brasil. Para treinar o português, lia, no celular, um site chamado “Papo de Política”. Me perguntou o sentido de “Papo”, palavra desconhecida pra ele. Para entender o continente em que vivia, lia, impresso, e em inglês, um livro grosso escrito por um especialista em América Latina. Também carregava um kindle, que não abriu, certamente com livros eletrônicos de literatura ou de sua área de trabalho, uma biblioteca de poucos gramas.
Assim é o mundo de hoje, livro e biblioteca mudaram de formato, mas sua essência continua. Livro é para ensinar, informar, distrair, divertir, dar prazer, compartilhar, emocionar. Só não dá pra ignorar, pois o preço da ignorância é alto.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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