Não há austeridade para o que é prioridade. Para tanto, é preciso elegê-las, e é nisso que o Brasil tem falhado com esmero. Erramos muito, e não é de hoje. O Museu Nacional não foi vítima do ajuste fiscal, mas da omissão institucionalizada, da ausência de um projeto de país que encare cultura, ciência e produção de conhecimento como fundamentais para o desenvolvimento humano, aquilo que dá sustentação à cidadania. A racionalização do gasto público não é descaso: é o contrário, é direcionar recursos para o que é essencial, cortando excessos e privilégios.
A publicação, por este jornal, da seção “O X da Questão” dedicada à cultura no domingo foi um acaso que acabou tornando-se oportuno. Lamentavelmente oportuno, é verdade. Porque a cultura não está nem em segundo plano no país; tanto que poucos programas de governo de candidatos à Presidência detalham ou são objetivos nas propostas para o setor, tratado como perfumaria. É, portanto, relevante que o espaço tenha sido dado às vozes que se mantêm firmes, tratando o debate cultural como protagonista.
E a preservação da memória esteve em pauta. Cris Olivieri, do Fórum Brasileiro de Direitos Culturais, defendeu o papel do Estado na conservação do patrimônio, material e imaterial. Já Eneida Soller, presidente do Conselho Brasileiro de Entidades Culturais, destacou a importância da atuação da sociedade civil, que “precisa estar organizada para defesa de seus direitos, não somente para criar leis, mas também para acompanhar sua aplicação e desenvolvimento – seja na área dos bens culturais, seja em quaisquer outros segmentos da sociedade”.
Tudo isso antes da tragédia que fez desaparecer o incontável (20 milhões de itens!) e valioso acervo histórico, iniciado pela família real há 200 anos. Sem falar na produção científica. É justo atacar a irresponsabilidade dos governantes, mas cabe também à sociedade um mea-culpa, ao tratar a própria memória como algo supérfluo, ignorando-a. Cultura fortalece, forma caráter. Mais cultura é até mesmo menos corrupção, menos jeitinho.
Nesse desastre nacional, não tem jeito: é parte relevante da história de um país que virou cinzas. É irrecuperável, não há como voltar no tempo e fazer diferente. Quanto ao futuro, este pode ser mudado, só depende do exercício de nossa cidadania, que precisa ser mais consciente de si. É uma escolha essencial. E urgente.