Publicado em 31 de julho de 2025 às 18:25
O uso da Lei Global Magnitsky para impor sanções contra o ministro Alexandre de Moraes é um abuso das intenções da lei e uma deturpação de sua concepção original, avalia William Browder, executivo financeiro britânico que liderou a campanha pela aprovação da lei nos Estados Unidos.>
"A Lei Magnitsky foi estabelecida para impor sanções a graves violadores dos direitos humanos e pessoas que são culpadas de cleptocracia em larga escala", diz Browder, referindo-se a regimes políticos em que governantes e autoridades usam sua posição para enriquecer de forma ilícita.>
"Ela não foi criada para ser usada para vinganças políticas. O uso atual da Lei Magnitsky é puramente político e não aborda as questões de direitos humanos para as quais ela foi originalmente elaborada. E, como tal, é um abuso das intenções da lei", completou o executivo, em entrevista à BBC News Brasil.>
O uso da Lei Magnitsky contra Moraes foi anunciado na quarta-feira (30/7) pelo governo americano, que justificou a medida afirmando que o ministro seria responsável por "uma campanha opressiva de censura, detenções arbitrárias que violam os direitos humanos e processos politizados — inclusive contra o ex-presidente Jair Bolsonaro". >
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Após o anúncio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se solidarizou com Moraes e afirmou que é "inaceitável a interferência do governo norte-americano na Justiça brasileira". >
Aprovada durante o governo de Barack Obama, em 2012, a Lei Magnitsky foi criada para punir autoridades russas envolvidas na morte do advogado Sergei Magnitsky, que denunciou um esquema de corrupção estatal e morreu sob custódia em Moscou.>
CEO do Hermitage Capital Management, Browder foi o maior investidor estrangeiro na Rússia até 2005, quando foi proibido de entrar no país e incluído na lista negra do governo russo como uma "ameaça à segurança nacional".>
Magnitsky, que era o advogado de Browder em Moscou, morreu na prisão em 2009, após ser acusado de fraude fiscal e condenado a 11 meses de prisão.>
"Então fui a público para tentar encontrar uma maneira de fazer justiça por Sergei Magnitsky", lembra Browder.>
Ele conta que muitas das pessoas envolvidas na morte do advogado lucraram com o crime e mantinham seu dinheiro no exterior. >
Então Browder teve a ideia de congelar os bens e proibir viagens dessas pessoas aos EUA, o que levou à criação da lei, posteriormente ampliada para poder ser aplicada a violadores de direitos humanos de outros países, para além da Rússia.>
Para Browder, o uso da Lei Magnitsky por Trump contra Moraes pode ter consequências graves, comprometendo a integridade da lei e tornando-a passível de ser questionada nos casos em que ela foi legitimamente aplicada.>
Mas ele também avalia que há grandes chances de a decisão ser revertida pela Justiça, diante do flagrante uso da lei em desacordo com sua intenção original.>
"Acredito que há fortes argumentos para que a decisão seja anulada pelos tribunais", diz Browder, que tem dois livros publicados no Brasil: Ordem de Bloqueio (2022) e Alerta Vermelho (2016), ambos lançados pela editora Intrínseca. >
"A lei não foi usada como foi originalmente concebida. E há a oportunidade para que este juiz [Alexandre de Moraes] recorra aos tribunais para reverter isso.">
Confira abaixo os principais trechos da entrevista.>
BBC News Brasil - Por que o senhor discorda do uso da Lei Magnitsky contra o juiz Alexandre de Moraes?>
Bill Browder - Porque a Lei Magnitsky foi estabelecida para impor sanções a graves violadores dos direitos humanos e pessoas que são culpadas de cleptocracia em larga escala [quando governantes e autoridades usam sua posição para enriquecer de forma corrupta].>
Ela não foi criada para ser usada para resolver vinganças políticas. >
O uso atual da Lei Magnitsky é puramente político e não aborda as questões de direitos humanos para as quais ela foi originalmente elaborada. E, como tal, é um abuso das intenções da Lei Magnitsky.>
BBC News Brasil - O senhor pode explicar um pouco mais sobre o contexto da criação da lei e suas intenções originais ao defendê-la?>
Browder - Sergei Magnitsky foi meu advogado russo que descobriu um grande esquema de corrupção do governo russo em 2008.>
Ele expôs isso. Ele testemunhou contra os oficiais envolvidos. E, em retaliação por ter feito isso, ele foi preso. Ele foi sistematicamente torturado na prisão e foi assassinado aos 37 anos, após 358 dias de tortura extrema.>
O governo russo, incluindo o próprio Vladimir Putin, se fechou em defesa própria e se recusou a responsabilizar alguém pelo assassinato.>
Então fui a público para tentar encontrar uma maneira de fazer justiça por Sergei Magnitsky.>
E a maneira que decidi fazer justiça foi que muitas das pessoas envolvidas no assassinato dele eram pessoas que lucraram muito com aquele assassinato e mantiveram o dinheiro no exterior.>
E então tive a ideia de congelar seus bens e proibir viagens deles aos Estados Unidos. E apresentei isso aos senadores do Partido Republicano e do Partido Democrata. E isso eventualmente foi aprovado. Se chama Lei Magnitsky e foi aprovada por 92 votos a 4 em 2012.>
Se tornou uma lei federal durante o governo do presidente Obama. Desde então, ela foi ampliada não apenas para a Rússia, mas também para violadores de direitos humanos estrangeiros em outros países. E ao longo dos anos, ela foi usada em vários casos muito importantes.>
BBC News Brasil - O senhor pode dar exemplos?>
Browder - Por exemplo, as autoridades chinesas que estiveram envolvidas no genocídio uigur, que organizaram campos de concentração em Xinjiang.>
Foi usado contra as autoridades de Mianmar envolvidas no genocídio dos Rohingya em Mianmar.>
Ela foi usada contra forças de segurança e indivíduos na Nicarágua que abriram fogo contra manifestantes estudantis pacíficos.>
Ela tem sido usada em casos em que há evidências claras, absolutas e contundentes de abusos de direitos humanos, e tem sido usada como uma forma de as vítimas obterem justiça, o que elas não conseguiriam de outra forma.>
O uso atual da Lei Magnitsky pelos Estados Unidos contra um juiz envolvido em um processo contra um ex-político, no qual os Estados Unidos disseram claramente que estão irritados porque esse ex-político está sendo processado, não é um uso apropriado da Lei Magnitsky, e é uma deturpação de suas intenções originais.>
BBC News Brasil - Essa é a primeira vez que a lei foi mal utilizada ou houve alguma ocasião anterior em que isso ocorreu, que seja do seu conhecimento?>
Browder - Nunca vi a lei sendo mal utilizada até agora.>
BBC News Brasil - Na sua avaliação, quais são as consequências desse uso indevido da lei pelo presidente Donald Trump?>
Browder - Bem, isso simplesmente compromete a integridade da lei. A lei teve imensa credibilidade em envergonhar pessoas que fizeram coisas ruins.>
E se de repente ela estiver sendo abusada e usada para vinganças políticas, então isso tira a credibilidade dos outros casos em que indivíduos sofreram sanções.>
BBC News Brasil - Como o senhor se sente pessoalmente em relação a essa situação atual, tendo dedicado tanto do seu tempo e energia para essa causa?>
Browder - No geral, a Lei Magnitsky não foi aprovada apenas nos Estados Unidos, mas em outros 35 países ao redor do mundo, e continuará sendo uma das ferramentas mais importantes usadas em prol das vítimas de ataques aos direitos humanos.>
Mas acho decepcionante que os Estados Unidos façam isso.>
BBC News Brasil - É possível que as sanções impostas a Moraes sob a Lei Magnitsky sejam anuladas, seja por meios judiciais ou por uma futura administração após a de Trump?>
Browder - Acredito que há fortes argumentos para que a decisão seja anulada pelos tribunais.>
A lei não foi usada como foi originalmente concebida. E há a oportunidade para que este juiz [Alexandre de Moraes] recorra aos tribunais para reverter isso.>
BBC News Brasil - Já houve alguma reversão antes?>
Browder - Ela não foi revertida antes porque não houve abuso da Lei Magnitsky antes. Todos que sofreram sanções antes sofreram sanções adequadamente.>
BBC News Brasil - E o senhor acredita que isso pode ser feito nos EUA ou em tribunais internacionais?>
Browder - É uma lei americana e pode ser anulada pelos tribunais dos Estados Unidos. E o Poder Judiciário é um poder independente do Poder Executivo.>
Então, independentemente do que o presidente [Donald Trump] e seu governo querem, se ficar claro que ele [Moraes] foi injustamente punido com sanções e que a lei foi abusada, então ele tem meios legais para reverter isso.>
BBC News Brasil - Depois da sua publicação no X criticando o uso da lei Magnitsky contra Moraes, muitos apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro o criticam por supostamente não entender o contexto brasileiro bem o suficiente para comentar. Como o senhor responde a essas críticas?>
Browder - Bem, antes de mais nada, a maioria das pessoas que responderam não são pessoas reais.>
Como você sabe, Elon Musk, dono da X, é um grande crítico do juiz [Alexandre de Moraes] porque o juiz tentou calá-lo.>
Então eu nem acredito que essas pessoas estejam me criticando de verdade. Não tenho resposta para bots que fazem declarações falsas.>
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