Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 06:09
Mais que petróleo ou minerais valiosos, a presença crescente da China na América Latina é o grande motor por trás da invasão dos Estados Unidos à Venezuela e do aumento de tensão entre o governo americano e líderes da região, avalia o ex-presidente da Colômbia Ernesto Samper Pizano.>
"Acredito que o que está incomodando [Donald] Trump ou que ele quer exorcizar é a presença positiva da China na América Latina", disse ele à BBC News Brasil, referindo-se à aproximação comercial e aos investimentos do país asiático na região.>
A China é hoje o principal parceiro comercial de países como Brasil, Chile e Peru, e há mais de uma década tem feito pesados investimentos na região, especialmente no setor de infraestrutura.>
"Os EUA estão muito nervosos porque o que a China fez foi simplesmente percorrer o caminho que eles deixaram aberto", completa Samper.>
>
Em entrevista à BBC News Brasil, o ex-presidente também comentou sobre a situação atual na Venezuela e sobre a presidente em exercício do país, Delcy Rodríguez, que foi empossada depois que o então presidente Nicolás Maduro foi deposto e detido em uma operação militar dos EUA em 3 de janeiro. >
Samper descreve Delcy Rodríguez como alguém "competente" e "preparada", com apoio "em muitos setores empresariais", trânsito entre militares e contatos com setores de oposição. >
Ele conviveu de perto com a atual mandatária venezuelana entre 2014 e 2017, quando foi secretário-geral da União das Nações Sul-americanas (Unasul), enquanto Rodríguez ocupava o Ministério das Relações Exteriores sob a presidência de Maduro. >
"[Delcy] tem uma maneira de ser que lhe permite ter muito diálogo com todos os setores", disse, na entrevista concedida à reportagem por videoconferência, de Bogotá.>
Samper tem 75 anos e vem de uma família proeminente na Colômbia. Seu avô foi candidato à presidência do país e um tio-avô pilotava o avião no qual morreu o cantor Carlos Gardel. >
Em 3 de março de 1989, quando era senador e disputava a vaga de candidato do Partido Liberal à presidência, foi alvejado por cinco disparos em um atentado promovido por grupos paramilitares. >
O candidato de esquerda José Antequera, atingido por 13 projéteis na mesma ocasião, não sobreviveu. Quando Samper chegou ao hospital Caja de Previsión, 17 minutos depois do atentado, os médicos deram-lhe quatro minutos de vida. >
"Doutor, não me deixe morrer", pediu.>
Passados cinco anos, Samper foi eleito presidente com um programa de reformas sociais. Em um país convulsionado pela expansão do narcotráfico, o governo de Samper, de 1994 a 1998, foi marcado pelo Processo 8000, instaurado a partir da denúncia de que um de seus assessores teria recebido US$ 6 milhões do Cartel de Cali para a campanha. >
O inquérito levou à prisão de um ministro da Defesa e um procurador-geral, mas Samper, que sustentou não ter sido informado da operação, escapou do impeachment.>
Ao deixar o governo, criou duas fundações e foi um dos inspiradores do Grupo de Puebla, organização que reúne líderes de centro-esquerda e esquerda da América Latina e da Espanha, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente do Estado espanhol José Luis Zapatero. >
Quase quatro décadas depois, ainda leva no corpo quatro das cinco balas que o atingiram em 1989.>
Leia a seguir os principais trechos da entrevista de Ernesto Samper à BBC News Brasil.>
BBC News Brasil – Já se passaram algumas semanas desde a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela e a prisão de Nicolás Maduro. Como o senhor avalia esse episódio e que lições se pode tirar dele?>
Ernesto Samper – O primeiro é que o caso do presidente Maduro nos EUA encontrou surpresas. A primeira delas, e talvez mais importante, é que o Departamento de Justiça dos EUA revelou que o Cartel de los Soles não existia. Se o Cartel de los Soles não existe, as acusações feitas ao presidente Maduro como chefe desse cartel sucumbem e o processo fica debilitado. >
Certamente há uma grande indignação na América Latina por essa operação de intervenção [dos EUA na Venezuela] porque, ainda que nos últimos 50 anos os EUA tenham promovido mais de 64 intervenções em distintos países da América Latina, incluídos Brasil, Chile e quase todos os países da América Central, havia 35 anos que não se produzia uma invasão como a que se produziu na soberania da Venezuela. >
Há 35 anos, houve uma operação parecida no Panamá para extrair o general Noriega [Manoel Noriega, ditador do Panamá deposto em 1989 pelos EUA]. Assim, a América Latina, que é uma zona de paz no mundo, viu-se realmente muito surpreendida com essa violação da soberania e alteração da condição de paz. >
Na América Latina, há muitos anos não vimos um conflito territorial entre países. Vivemos em paz. Creio que esta política do presidente Trump, agressiva contra a América Latina, como se vê no caso do aumento das tarifas, da perseguição aos migrantes, de acabar com programas da Usaid [agência do governo americano para ajuda a países pobres] que beneficiavam setores sociais, demonstra agressividade para obter um reflexo eleitoral [nos EUA].>
BBC News Brasil – Trump disse que uma intervenção similar na Colômbia "soa bem". Como o senhor reage a essa afirmação?>
Samper – Como tudo de Trump, [é uma afirmação] desafiante, agressiva. Todavia, talvez não seja conhecido publicamente que depois dessa afirmação houve um diálogo telefônico entre o presidente Trump e o presidente [da Colômbia, Gustavo] Petro, em que concordaram em se reunir na primeira semana de fevereiro em Washington. >
Creio que os temas mais importantes dessa reunião serão, primeiro, que o problema do narcotráfico não é somente um problema da Colômbia, mas também dos países consumidores e que o tipo de drogas que estão sendo produzidas na zona andina, como a cocaína, não é o tipo de droga consumida hoje nos EUA, como o fentanil. >
O segundo tema que certamente estará no radar da conversa entre os dois presidentes será o tema do futuro das negociações de paz com o Exército de Libertação Nacional [grupo guerrilheiro colombiano que não aderiu ao Acordo de Paz de Havana entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia em 2016] e, mais concretamente, a permanência do ELN na Venezuela. >
Ainda que seja claro que essa permanência está provada, é certo que a Venezuela cumpriu um papel muito importante em cercar os distintos setores [da guerrilha colombiana abrigados em seu território] e enfrentá-los para celebrar acordo como o Acordo de Paz de Havana. >
Finalmente, penso que o tema que permeia essa relação tão tensa não é nem sequer o petróleo ou as terras raras [minerais cruciais para indústrias de alta tecnologia]. >
Acredito que o que está incomodando Trump ou que ele quer exorcizar é a presença positiva da China na América Latina. Os EUA estão muito nervosos porque o que a China fez foi simplesmente percorrer o caminho que eles deixaram aberto.>
BBC News Brasil – Petro parece ter optado por uma política de engajamento com Trump depois de fortes choques verbais. O senhor acredita que Petro escolheu o caminho correto?>
Samper – Acredito que escolheu o caminho correto por várias razões, mas a mais importante é que, de alguma maneira, contribui para que Trump não intervenha nas eleições que se realizarão na Colômbia a partir do mês de março deste ano. >
Trump deu muitos exemplos de intromissão em processos eleitorais. Fez isso recentemente no caso de Honduras, inclusive absolvendo um criminoso [o ex-presidente Juan Orlando Hernández, que cumpria pena de 45 anos nos EUA por tráfico de drogas, do conservador Partido Nacional] para que pudesse ajudar o candidato vencedor das eleições [Nasry Asfura, também do Partido Nacional, eleito presidente com 40,3% dos votos e que tomará posse no dia 27 de janeiro]. >
Fez o mesmo no Chile, favorecendo o candidato da extrema-direita [José Antonio Kast, do Partido Republicano, que venceu a eleição presidencial em segundo turno com 58,16% dos votos]. Voltou a fazê-lo com um cheque generoso para [o presidente Javier] Milei na Argentina, que lhe permitiu ganhar as eleições parlamentares [os EUA ofereceram à Argentina um resgate financeiro de US$ 40 bilhões semanas antes das eleições de outubro de 2025, vencidas pelo partido de Milei]. >
Ou seja, ele [Trump] vai tratar de intervir em todas as eleições. Se nós conseguirmos que, por meio de um acordo, ele não se meta nas eleições da Colômbia, creio que seria um bom resultado, especialmente para os setores progressistas.>
BBC News Brasil – O jornal britânico Financial Times pergunta, no título de um artigo publicado no último dia 19 de janeiro, se o novo regime venezuelano encabeçado por apoiadores de Maduro e alinhado com os EUA é "sustentável". O que o senhor pensa disso?>
Samper – Penso que a única saída que a Venezuela tem neste momento é aquela para a qual de alguma maneira se está abrindo caminho, a de que a presidente em exercício, Delcy Rodríguez, uma pessoa que tem apoio em muitos setores empresariais, conhece muito bem o tema do petróleo, tem relações com o setor de oposição que não é o de María Corina Machado [proeminente oposicionista venezuelana e Prêmio Nobel da Paz de 2025], tem ótima formação e sobretudo tem contatos com os quadros militares, que são indispensáveis nesta etapa como apoiadores de um processo de transição, conduza a transição.>
BBC News Brasil – O senhor conhece pessoalmente Delcy Rodríguez. Ela pode cumprir esse papel?>
Samper – Creio que é uma pessoa competente, assim como seu irmão, Jorge Rodríguez [presidente da Assembleia Nacional, o parlamento nacional venezuelano]. >
Quando fui secretário-geral da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), conheci muito de perto seu trabalho, desenvolvemos muitos projetos conjuntos e me consta que são um pouco as pessoas que estavam mais próximas de Maduro, que representam mais de alguma maneira seu projeto político. >
Há outros setores nos quais não tenho tanta confiança. Delcy é uma pessoa preparada em universidades inglesas e francesas, fala vários idiomas, esteve encarregada de todo o tema da mineração e do petróleo nos últimos anos. Introduziu umas condições de estabilização econômica que hoje em dia são percebidas na Venezuela, talvez por uma desdolarização da economia. Tem uma maneira de ser que lhe permite ter muito diálogo com todos os setores.>
BBC News Brasil – Quais seriam as condições de um processo de transição na Venezuela?>
Samper – Poderia haver um processo de transição sempre e quando os EUA aceitassem desbloquear a economia venezuelana, porque eles a mantêm totalmente bloqueada há seis anos, especialmente no tema do petróleo, e o governo provisório da Venezuela aceitasse a libertação dos presos que hoje em dia são da oposição, presos por razões políticas. >
Isso seria um bom começo para que se iniciasse uma etapa de diálogo nacional que culminasse em eleições livres. Acredito que esse é o caminho. >
O caminho, por exemplo, de entregar o governo à oposição seria saltar da frigideira para o fogo.>
BBC News Brasil – O senhor acredita que a preocupação com transição e democracia é central para os EUA neste momento? Trump justificou a ofensiva contra Maduro com acusações de narcotráfico e autoritarismo, mas parece ter abandonado esse discurso.>
Samper – Creio que Trump utilizou a acusação de narcotráfico para poder justificar a intervenção na Venezuela e uma possível intervenção na Colômbia por razões policiais, que o livram de se apresentar ou responder perante o Congresso dos EUA, de pedir permissão para invadir um país ou para sequestrar um presidente. >
Creio que, com a razão do narcotráfico, ele pode dizer que está cumprindo uma ordem judicial. Mas, afinal, todos sabemos que o interesse dele na Venezuela não é somente o petróleo, mas também as terras raras produzidas na Venezuela, que são as mesmas produzidas na Groenlândia, que têm um grande interesse porque disso depende o quanto poderão avançar na corrida da inteligência artificial. >
Meu feeling é que, por trás de tudo isso, está a intenção de Trump de frear a presença da China na América Latina.>
BBC News Brasil – A Espanha disse que não reconhecerá intervenções que violem o direito internacional. Isso põe em dúvida o futuro de uma transição democrática na Venezuela como a que o senhor propõe?>
Samper – Não, pelo contrário. O tema da Venezuela, para que se resolva, tem de terminar em eleições livres, mas não somente eleições. Tem de haver uma mudança constitucional que permita que volte a existir um equilíbrio de poderes na Venezuela, equilíbrio que se rompeu porque há 20 anos vem governando um só partido. >
Para [haver] esse equilíbrio de poderes, é necessária uma reforma constitucional. Por isso, eu quero que a Venezuela tenha esse processo de transição. Primeiro, é preciso estar sintonizado com os poderes fáticos que existem na Venezuela, concretamente com os militares, e, além disso, deve terminar em uma reforma constitucional que todos apoiem para que o equilíbrio de poderes volte a se estabelecer. >
Então, sim, pode haver eleições livres para voltar a escolher as pessoas que devem dirigir o país, mas para isso há que ter um mapa do caminho. É preciso dar os passos firmes, e estou certo de que Trump depois de amanhã vai se esquecer da Venezuela e vai estar preocupado em governar a Groenlândia ou ver como se anexa o Canadá ou qualquer uma de suas loucuras expansionistas. >
Ele deveria aprender as lições que lhe deixou o presidente McKinley [William McKinley, presidente americano de 1897 a 1901] há cem anos, que é seu ídolo, de que a fortaleza dos EUA não aumenta com a expansão, mas, pelo contrário, se debilita, porque abre muitas frentes de guerra e de confronto. Os EUA não estão preparados para lidar com tantas frentes ao mesmo tempo, mas há uma que vai pôr fim às aventuras de Trump, que é a frente interna.>
BBC News Brasil – Em que consiste hoje essa frente interna?>
Samper – Creio que nos EUA estão começando a aparecer recursos morais que são os que vão deter Trump. Estou falando dos meios de comunicação, das universidades, dos intelectuais, do prefeito de Nova York [Zohran Mamdani, socialista independente] ou do governador da Califórnia [Gavin Newsom, democrata]. >
Creio que haverá uma conjunção de forças que se somarão. Quem sabe não tenhamos que esperar que ocorra uma mudança de equilíbrio no Congresso nas eleições dos próximos meses, nas quais vai se renovar um terço do Congresso, para ver um Trump muito mais amarrado às preocupações internas do que a consertar o mundo?>
BBC News Brasil – Petro baseou-se na história da Colômbia para cogitar "governos compartilhados" como fórmula de transição na Venezuela. Isso é viável?>
Samper – Não somente é viável como é a única que tem probabilidade de êxito. A própria Venezuela, com o Pacto de Punto Fijo [acordo de transição política firmado entre partidos venezuelanos depois da queda do ditador Marcos Pérez Jiménez, em 1958], talvez tenha feito uma primeira tentativa de ter governos compartilhados.>
Na Colômbia, ficamos por 16 anos com uma frente nacional que previa alternância de partidos no poder e permitiu pacificar o país. A partir dessa pacificação, chegamos a acordos como o de Havana. É preciso lembrar que, na América Latina, não temos regimes parlamentaristas. >
Creio que a saída política para o problema latino-americano é caminhar em direção a regimes semiparlamentaristas. Temos regimes presidencialistas que têm o pior da presidência dos EUA e da monarquia espanhola. Ficamos com os defeitos de cada um desses sistemas, herdamos esses defeitos. Agora necessitamos fazer a transição para um sistema parlamentarista que permita haver eleições e que essas crises se resolvam sem que haja rupturas institucionais.>
BBC News Brasil – Como o senhor reage à elevação do tom entre Trump e líderes europeus sobre a Groenlândia?>
Samper – Penso que, por trás da Groenlândia, está o afã expansionista de Trump, mas ele sabe que a Europa não está em seu melhor momento. A Europa está atravessando uma de suas piores crises em muitos anos, não somente porque tem o problema da Ucrânia, que está a suas portas, mas porque tem problemas de sintonia entre seus membros. >
O excesso regulatório na Europa está paralisando o desenvolvimento de sua ciência e sua tecnologia. Em termos econômicos, está sendo superada pela China. Assim, a Europa tem igualmente uma oportunidade para se reconstituir, para fortalecer seus laços econômicos e para se desprender da tutela militar dos EUA. >
É disso [da dependência militar europeia em relação aos EUA] que Trump está se aproveitando neste momento para dizer que não há quem se oponha a seus apetites expansionistas na Groenlândia, que são motivados não somente pelas terras raras, que são sua obsessão, mas também pela tentativa de deter a China e a Rússia e a influência que podem ter neste momento sobre o norte da Europa.>
BBC News Brasil – O senhor crê que Trump possa recorrer à força na Groenlândia?>
Samper – Creio que Trump é capaz de qualquer coisa, e muito mais de usar a força porque creio que ele se deu conta de que é preferível ser um presidente militar do que um presidente constitucional. >
Ele tem governado com decretos executivos e, em casos como o do bombardeio de lanchas na Venezuela, passou por cima de todas as normas do direito internacional humanitário, da Carta das Nações Unidas, que em seu Artigo 54 trata do emprego da força. Creio que isso de alguma maneira o encorajou, e não descarto que poderá tentar [usar a força novamente]. Agora, o que está acontecendo no interior dos EUA e qual é o pensamento dos militares neste momento são temas que devemos explorar.>
BBC News Brasil – O que restou da integração sul-americana?>
Samper – Essa é uma boa e triste pergunta. A integração da América Latina nunca foi tão necessária como agora e nunca estivemos tão desintegrados como agora. >
Dos grandes mecanismos de integração, a Unasul está praticamente desaparecida e a Celac [Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos] é um mecanismo sem poder, sem secretário, sem pessoal. Permanecem os processos regionais de integração em algumas áreas importantes. >
É importante o [acordo comercial] que acaba de ser assinado pelo Mercosul com a Europa, por exemplo. Esse é um fato de integração importante. Há também o Pacto Amazônico que apresentou avanços, há a integração centro-americana, mas não estamos funcionando como 34 países. >
Os acordos de livre comércio que firmamos em má hora com os EUA são mecanismos para retardar a integração à luz dessa diplomacia ideológica que Trump está fazendo e que dividiu os países entre governos amigos e inimigos da política ideológica de Trump.>
Esse vírus da politização, somado ao vírus da polarização que as redes sociais conseguiram nesses países, assim como os meios de comunicação que são donos das redes, está produzindo uma crise de representatividade muito grande na região.>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta