Publicado em 7 de março de 2026 às 08:10
Eliminar o líder e obter um acordo com figuras do próprio aparato estatal para construir uma relação política e comercial favorável aos Estados Unidos.>
Essa é, em essência, a estratégia que permitiu ao presidente americano, Donald Trump, abrir uma nova etapa de cooperação com o governo venezuelano após a captura do ex-presidente Nicolás Maduro no início de janeiro (3/1).>
No entanto, o que aconteceu na Venezuela com uma facilidade aparentemente surpreendente parece muito mais complicado no caso do Irã.>
EUA e Israel eliminaram o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, e algumas das principais figuras de poder da República Islâmica após vários dias de ataques aéreos que desencadearam uma guerra de dimensão regional no Oriente Médio.>
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Trump sugeriu que o resultado poderia se assemelhar ao alcançado na Venezuela e chegou a insinuar que poderia surgir no Irã um governo, especialmente um novo líder, disposto a cooperar com os EUA.>
"Tenho que estar envolvido em sua nomeação, como com Delcy na Venezuela", declarou o presidente dos EUA nesta quinta-feira (5/3), dias depois de definir a atual situação na Venezuela como "o cenário perfeito" para o Irã.>
No entanto, executar de forma bem-sucedida essa estratégia para o Irã apresenta desafios importantes: é muito mais populoso (cerca de 92 milhões de habitantes, ante os 28 milhões na Venezuela) e conta com um Exército mais poderoso, uma elite clerical fundamentalista e uma sociedade heterogênea na qual convivem diversas correntes e identidades sociais e religiosas, incluindo minorias separatistas.>
Os EUA poderiam replicar no Irã a sua fórmula de transição de poder aplicada na Venezuela?>
A comparação entre Venezuela e Irã revela profundas diferenças, começando pela própria natureza das operações militares dos EUA nos dois cenários.>
Em Caracas, foi uma incursão rápida e limitada: no último 3/1, forças especiais dos EUA bombardearam alvos militares e capturaram o então presidente Nicolás Maduro, que foi transferido para Nova York (EUA) junto com a sua esposa para enfrentar acusações de narcotráfico e terrorismo.>
Apenas alguns dias depois, a então vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, assumiu o poder de forma interina, e as instituições do Estado venezuelano continuaram funcionando.>
O ataque contra o Irã foi muito diferente: EUA e Israel lançaram uma ofensiva muito mais ampla contra a estrutura militar e política do país, com ataques contra milhares de alvos — de instalações de mísseis a centros de comando — que acabaram com a vida do aiatolá, Ali Khamenei, e de outras pessoas que ocupavam altos cargos do regime iraniano.>
A operação desencadeou uma nova guerra no Oriente Médio que ameaça se expandir e afetar a economia e a segurança em escala global.>
"Não acredito que a estratégia da Venezuela seja realista para o Irã", explica o analista iraniano-americano Sina Toosi, pesquisador principal do instituto de pesquisas Center for International Policy com sede em Washington, em entrevista à BBC News Mundo (serviço de notícias em espanhol da BBC).>
Na Venezuela, aponta Toosi, os americanos "eliminaram a principal figura e chegaram a um acordo com o restante do regime, enquanto no caso iraniano acabaram com Khamenei, mas o restante do regime continua no poder. Não há nenhum acordo com eles e o país, seu governo e seu Exército continuam contra-atacando de forma feroz".>
Aí entra em jogo outro fator: o Irã tem uma capacidade de defesa muito superior à da Venezuela, com um gasto militar entre três e quatro vezes maior, o maior arsenal de mísseis balísticos do Oriente Médio e uma indústria própria que, apesar de décadas de sanções internacionais, fabrica projéteis em massa, drones e outros sistemas avançados de armas.>
"Trump obteve antes vitórias militares rápidas, fáceis e politicamente favoráveis — a captura de Maduro e o ataque a instalações nucleares iranianas em junho de 2025 — e pensou que talvez pudesse conseguir algo rápido e breve. Mas isso não é o que está acontecendo agora", conclui Toosi.>
Em todo o caso, mesmo que EUA e Israel neutralizem completamente o sistema de defesa de seu inimigo, o cenário político no Irã apresenta sérias dificuldades.>
Após anos de crise econômica e divisão social, o aparato político venezuelano estava altamente concentrado em torno da figura presidencial e de um círculo relativamente reduzido de dirigentes.>
O Irã, por sua vez, conta com uma arquitetura política muito mais complexa: desde a Revolução Islâmica de 1979, o poder se distribui entre instituições religiosas, órgãos eleitos e estruturas militares como a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã.>
Esse arranjo foi concebido para garantir a continuidade do regime mesmo que ele seja decapitado, com mecanismos de sucessão como o processo de escolha do líder supremo por meio da Assembleia de Peritos (órgão clerical de 88 membros eleito por voto popular para mandatos de oito anos).>
Isso reforça a resiliência institucional do sistema e, sobretudo, indica que a morte do aiatolá não implica necessariamente um colapso ou uma mudança política.>
"Mudar essa estrutura, realizar uma verdadeira mudança de regime, não consiste apenas em matar Khamenei ou bombardear instalações. Vai exigir tropas no terreno e enormes esforços de mudança de regime", prevê Toosi.>
Também é preciso levar em conta o componente religioso da República Islâmica, que se define como um sistema político baseado na autoridade clerical xiita e reivindica para si uma legitimidade ideológica distinta da de outros governos autoritários convencionais.>
Isso implica que seus líderes tendem a interpretar as pressões externas como uma ameaça existencial, o que reforça a coesão interna em tempos de crise e dificulta a possibilidade de encontrar agentes dispostos a se alinhar às demandas dos EUA.>
A BBC News Mundo perguntou a Toosi, do Center for International Policy, se seria possível encontrar uma figura como a de Delcy Rodríguez entre os homens que integram a elite de poder do Irã, onde coexistem facções mais moderadas e pragmáticas que historicamente atuaram como contraponto à linha-dura dominante na política interna.>
O especialista responde que "se Washington quiser um dirigente de confiança no Irã, terá muito mais dificuldade do que na Venezuela, que está no quintal dos EUA e é muito mais fácil de interferir e moldar".>
"Se falamos de figuras como Ali Larijani [chefe de segurança do Irã], Masoud Pezeshkian [presidente do Irã] ou outros integrantes do sistema, eles vão chegar a um acordo com Trump para reconhecer Israel ou eliminar seus programas nuclear e de mísseis? Isso me parece muito pouco provável caso essa estrutura continue existindo", afirma.>
E acrescenta: "Mesmo que encontrassem uma figura mais moderada e tentassem chegar a um acordo com ela e colocá-la no poder, como chegaria lá? Conseguiria apoio suficiente da Guarda Revolucionária, do clero e da base tradicional do regime? Também não vejo isso como algo viável".>
À margem da política, a composição da sociedade iraniana também é um fator importante a ser considerado: enquanto a Venezuela é um país relativamente homogêneo do ponto de vista religioso e étnico, a nação persa apresenta maior complexidade.>
Na República Islâmica, convivem diferentes minorias étnicas, de árabes a curdos, baluch ou azeris, concentradas sobretudo em regiões fronteiriças e historicamente consideradas potenciais focos de instabilidade.>
Os especialistas acreditam que essa diversidade introduz riscos adicionais em qualquer tentativa de transição política, já que alguns desses grupos poderiam aproveitar a fraqueza temporária do sistema para tomar o controle pela força em certas regiões ou estabelecer milícias que desestabilizem o processo.>
Outra diferença fundamental é o peso geopolítico de ambos os países.>
Apesar de contar com as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, a Venezuela não possui uma capacidade de projetar poder militar ou político além de seu entorno imediato.>
O Irã, por sua vez, é um ator central no Oriente Médio, onde mantém uma rede de aliados e milícias em diferentes países, do Hezbollah no Líbano aos rebeldes houthis no Iêmen, o que de fato já ampliou o alcance da guerra em curso.>
"O Irã pode causar muito mais problemas e tem muito mais capacidade de influência em sua região do que a Venezuela tinha, o que torna muito mais difícil uma mudança de regime ou mesmo uma transição", afirma Toosi.>
Além disso, sua posição geográfica é central para o comércio energético global: o Estreito de Ormuz, cujas águas banham a costa ocidental iraniana, é passagem obrigatória de 20% do transporte mundial de petróleo.>
Até o último sábado, cerca de 20 milhões de barris passavam diariamente por esse estreito, o que representa um valor anual de mais de US$ 500 bilhões (cerca de R$ 2,5 trilhões).>
Toosi, do Center for International Policy, avalia que o Irã "poderia caminhar para um cenário de guerra civil ou de colapso" se o conflito persistir, algo que implica riscos para todas as partes.>
"Devemos lembrar que o país se estende do golfo Pérsico ao mar Cáspio, no cruzamento entre Ásia, África, Europa e Eurásia, de modo que um planalto iraniano desestabilizado, com mais de 90 milhões de pessoas, teria repercussões por muito tempo", afirma.>
Isso, diz ele, dá ao regime dos aiatolás um forte incentivo para resistir pelo maior tempo possível: o Irã sabe que prolongar a guerra implicaria custos elevados para o Ocidente e para o mundo em termos econômicos e geopolíticos, por isso confia que, em algum momento, seus adversários vão optar por interromper a ofensiva e negociar um acordo que garanta sua continuidade.>
Outro elemento que diferencia o caso iraniano do venezuelano é o envolvimento de um ator externo fundamental: o Estado de Israel.>
Enquanto o governo Trump poderia ver com bons olhos um acordo com o Irã que implique a continuidade da República Islâmica — como ocorre, por enquanto, com o chavismo na República Bolivariana da Venezuela —, o governo do israelense Benjamin Netanyahu pretende pôr fim de uma vez por todas ao regime dos aiatolás.>
"Mesmo que Trump quisesse chegar a um acordo com este regime, Netanyahu e os israelenses disseram que querem que ele desapareça. Provavelmente prefeririam o caos ou até a implosão do Irã a um acordo desse tipo", afirma Toosi.>
Toosi acrescenta que, dada a enorme influência do lobby israelense sobre o governo dos EUA, o objetivo de acabar completamente com a teocracia iraniana "está presente no ouvido de Trump, o que marca outra diferença muito importante em relação ao caso da Venezuela".>
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