Publicado em 26 de outubro de 2025 às 08:32
Citado como razão principal para os Estados Unidos sancionarem o Brasil, o ex-presidente Jair Bolsonaro não foi mencionado pelo presidente Donald Trump durante o encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva neste domingo (26/10).>
A informação é do secretário-executivo do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, Márcio Elias Rosa, que participou da reunião com Trump ao lado de Lula.>
O encontro ocorreu em Kuala Lumpur, na Malásia, onde os dois líderes participam da 47ª Cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean).>
Antes do encontro, que durou 45 minutos, os dois presidentes conversaram com jornalistas. Ao ser questionado sobre se falaria de Bolsonaro com Lula, Trump respondeu: "None of your business" (Não é da sua conta). >
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"Eu sempre gostei do Bolsonaro. Me senti mal com o que aconteceu com ele. Ele está passando por muita coisa", comentou o americano.>
Segundo o relato do governo brasileiro, foi Lula quem mencionou na conversa formal entre os dois as sanções aplicadas a ministros do Supremo Trribunal Federal (STF) pelos EUA, devido ao julgamento de Bolsonaro. >
O ex-presidente foi condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Sete dos onze ministros tiveram cancelados seus vistos para entrar em solo americano. Além disso, o ministro Alexandre de Moraes sofreu retaliações financeiras por meio da lei Magnitsky, que inclui bloqueio de bens e contas nos EUA.>
"Isso [o tema Bolsonaro] não foi discutido. A questão do Bolsonaro apareceu antes na entrevista, que foi perguntado, mas muito lateralmente", disse Rosa.>
"O que o presidente Lula usou como exemplo foi a injustiça da aplicação da lei Magnitsky em relação a algumas autoridades, como do Supremo Tribunal Federal, quão injusta é essa medida em relação a esses ministros porque respeitou-se o devido processo legal e não há nenhuma perseguição jurídica ou política", continuou.>
Elias Rosa não informou qual foi a reação de Trump ao pedido de Lula para a retirada dessas sanções.>
O tema principal da conversa foi a tarifa de 50% que os EUA impuseram sobre boa parte das importações brasileiras — medida que provocou a maior crise diplomática recente entre os países.>
Em postagem no Twitter, Lula disse que a reunião foi "ótima" e acrescentou que as negociações continuam "imediatamente" para buscar soluções para o tarifaço e também para sanções contra autoridades brasileiras impostas por Trump citando o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Brasil.>
Nas primeiras declarações após o encontro, o chanceler brasileiro Mauro Vieira detalhou que as conversas continuam ainda neste domingo entre as duas equipes para uma possível suspensão da tarifa de 50%.>
A conversa aconteceu em Kuala Lumpur no período da tarde (de madrugada no horário de Brasília).>
O encontro foi articulado ao longo de semanas por assessores dos dois governos, desde o breve cumprimento entre Lula e Trump em setembro, durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova York.>
Na ocasião, o americano afirmou que houve "química excelente" com o brasileiro e indicou estar disposto a fazer uma reunião bilateral.>
Em julho, os Estados Unidos anunciaram tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, atingindo especialmente exportações agrícolas e de carne bovina.>
Na época, o governo Trump deixou claro diversas vezes que essas punições tinham natureza política.>
Além das tarifas, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) abriu uma investigação contra o Brasil, acusando o país de adotar "práticas comerciais desleais".>
A Casa Branca também impôs restrições de visto a autoridades brasileiras e sanções financeiras ao ministro do STF, Alexandre de Moraes, e à mulher dele, Viviane Barci de Moraes.>
As medidas foram tomadas em meio julgamento que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por incitar ataques às instituições brasileiras.>
O governo brasileiro classificou as sanções como um ataque à soberania nacional e uma tentativa de interferir na independência do Judiciário.>
As sanções tiveram como pano de fundo a atuação do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente brasileiro.>
O deputado se mudou para os Estados Unidos no início do ano e iniciou articulações junto à Casa Branca para buscar medidas contra o Brasil que pudessem pressionar pela absolvição e pela anistia do pai.>
Em setembro, no entanto, Lula e Trump se cruzaram brevemente durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova York, mantendo contato próximo desde então.>
No dia 6 de outubro, os líderes fizeram uma videoconferência de aproximadamente 30 minutos.>
Na conversa, Lula pediu a Trump a retirada da tarifa imposta aos produtos brasileiros e das medidas restritivas aplicadas contra autoridades brasileiras.>
Na ocasião, Trump não teria respondido diretamente ao pedido de Lula para a retirada das tarifas e das sanções econômicas e de vistos. O presidente americano teria se limitado a dizer que o tema seria conduzido pelas equipes técnicas dos dois países.>
Já em 16 de outubro, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, e o secretário de Estado americano, Marco Rubio, se reuniram por uma hora na Casa Branca, em Washington.>
Em uma breve declaração à imprensa, o chanceler brasileiro disse que encontro foi "muito produtivo, num clima excelente de descontração e de troca de ideias e posições de uma forma muito clara e muito objetiva".>
Segundo Vieira, houve "muita disposição para trabalhar em conjunto para traçar uma agenda bilateral de encontros para tratar de temas específicos de comércio".>
Pelo lado americano, Rubio e o representante de comércio dos EUA, Jamieson Greer, disseram em um comunicado conjunto que tiveram com o ministro brasileiro "conversas muito positivas sobre comércio e as questões bilaterais em curso".>
Segundo a nota, os três "concordaram em colaborar e conduzir discussões em múltiplas frentes no futuro imediato e estabelecer um plano de ação".>
Mesmo com os esforços do encontro para tentar selar a paz, os dois líderes também deram sinais de que não pretendiam recuar de suas posições durante a semana que antecedeu o encontro.>
Na quarta-feira (22/10), Trump afirmou que os pecuaristas americanos "estão indo bem" graças à tarifa imposta sobre o gado de outros países, como o Brasil.>
"Os pecuaristas, que eu adoro, não percebem que a única razão pela qual estão indo tão bem — pela primeira vez em décadas — é porque impus tarifas sobre o gado que entra nos Estados Unidos, incluindo uma tarifa de 50% sobre o Brasil", escreveu em sua rede social.>
O republicano acrescentou que, se não fosse por ele, os criadores de gado americanos "estariam na mesma situação dos últimos 20 anos", que classificou como "péssima".>
Já Lula, na quinta (23/10), voltou a defender alternativas ao dólar no comércio global. Durante a visita que faz à Indonésia, o presidente afirmou que tanto o Pix quanto o sistema de pagamentos indonésio têm potencial para facilitar o intercâmbio entre os dois países e entre os membros do Brics.>
"O século 21 exige que tenhamos a coragem que não tivemos no século 20", disse Lula, ao defender "uma nova forma de agir comercialmente, para não ficarmos dependentes de ninguém", sem citar diretamente os Estados Unidos.>
A defesa de moedas alternativas à americana, reforçada pelo Brasil durante a cúpula dos Brics em julho, foi apontada por Trump como um dos motivos para a imposição das tarifas às exportações brasileiras.>
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