Publicado em 27 de setembro de 2023 às 08:21
Avessa aos holofotes e à articulação política comuns a alguns ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), a ministra Rosa Weber deixou uma marca nada discreta em sua passagem pela Corte, que se encerra no dia 2 de outubro, quando ela completa 75 anos e é obrigada a se aposentar.>
Para juristas ouvidos pela BBC News Brasil, sua trajetória foi marcada por decisões importantes e controversas – como o voto de minerva que autorizou a prisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou a recente manifestação pela liberação do aborto – e também por mudar a dinâmica da Corte, aprovando durante sua presidência uma alteração no regimento interno que limitou decisões individuais dos ministros, como os intermináveis pedidos de vista que paralisavam julgamentos indefinidamente.>
Já outra mudança capaz de impactar a estrutura do Poder Judiciário foi aprovada no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em sua última sessão como presidente do órgão: uma alteração na dinâmica de promoção de juízes para a segunda instância vai aumentar a presença de mulheres nos Tribunais de Justiça e Tribunais Regionais Federais.>
“Confesso que sinto esse resultado como uma verdadeira vitória”, disse Weber após a decisão.>
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No entanto, mais do que suas decisões em processos ou sua gestão como presidente do STF e do CNJ, é sua postura como ministra que é mais lembrada como seu legado para a Corte.>
Em contraste com diversos colegas, Weber passou seus quase doze anos na Corte sem conceder entrevistas, sem participar de eventos patrocinados por empresas, sem comentar julgamentos fora dos autos e sem se reunir com políticos.>
Ela também atuou com respeito ao colegiado, ou seja, seguindo as jurisprudências (decisões anteriores) do STF, ao invés de buscar impor sua vontade individual nas decisões.>
Para juristas ouvidos pela reportagem, a ministra agiu como uma espécie de modelo ideal de integrante da Suprema Corte – o que não impede algumas críticas, como no caso do voto contra o habeas corpus de Lula, caso que divide os entrevistados.>
"Em seu comportamento pessoal, funcional e social, a Ministra Rosa Weber transmitiu ao STF aquela aura de grandeza, de dignidade, de gravitas e de respeitabilidade. Esse, pois, o seu grande legado, que assim será sempre lembrado, ad perpetuam, nos fatos da história judiciária do Supremo Tribunal Federal", disse em mensagem à BBC News Brasil o ministro aposentado Celso de Mello, que dividiu o plenário do Supremo com Weber por quase uma década.>
Ele destacou também a importância de sua liderança na reação da Corte aos ataques de 8 de janeiro, quando as sedes dos Três Poderes foram vandalizadas por bolsonaristas radicais insatisfeitos com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva como presidente.>
"O Brasil teve, então, na pessoa da ministra Rosa Weber, presidente do Supremo Tribunal Federal, um decisivo fator de equilíbrio, de confiança, de firmeza e de segurança no respeito incondicional à nossa Lei Fundamental (a Constituição) e na preservação da estabilidade do regime democrático, das instituições da República e das liberdades essenciais do Povo de nosso País", escreveu Mello.>
Para o professor de Direito Processual Penal da Universidade Federal Fluminense (UFF) João Pedro Pádua, a descrição e o respeito à colegialidade de Weber são posturas que fortalecem a institucionalidade do STF e, consequentemente, a democracia.>
"A literatura da ciência política vem apontando isso. O argumento central do livro Como as democracias morrem (Daniel Ziblatt e Steven Levitsky) é que as democracias modernas claudicam não por posturas ideológicas de um lado ou de outro, mas porque as suas instituições se enfraquecem e aí grupos autoritários conseguem tomar o poder ou dominar o funcionamento da República", afirma. >
"No caso da ministra Rosa Weber, isso (sua postura) é especialmente importante porque contrasta com a pouca relevância dada à instituição do Supremo Tribunal Federal e ao papel do Supremo junto a outras instituições que os colegas da Rosa Weber normalmente demonstram", disse ainda.>
Autor do livro O Supremo, entre o direito e a política, o professor do Insper Diergo Werneck também exalta o perfil discreto na ministra.>
Na sua avaliação, o fato de Weber não se manifestar fora dos autos e se manter distante da política fortalece seus votos, pois não deixa margem para suspeitas sobre as motivações de suas decisões.>
Isso, acredita, deu mais autoridade à ministra para tomar, eventualmente, decisões de forte intervenção em outros Poderes, como no caso em que suspendeu liminarmente o funcionamento do chamado Orçamento Secreto, em que o Poder Executivo liberava recursos para emendas parlamentares com pouca transparência. Depois, a decisão foi confirmada pela maioria da Corte.>
Em contraste à postura austera de Weber, Werneck cita ministros que falam com frequência em público, como Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Luiz Fux, Alexandre de Moares e Luís Roberto Barroso.>
"O comportamento da ministra Rosa Weber é muito importante porque mostra que faz sentido cobrar que seja diferente", nota o professor.>
"É possível e desejável que ministros aceitem que vão ter que perder certas liberdades para integrar o Supremo. Não vão poder só fazer mais coisas do que fariam se não fossem ministro do Supremo. Vão poder fazer menos", reforça.>
Nesse sentido, caso se confirme a expectativa de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva escolha um jurista homem de sua confiança para a vaga de Weber, pode haver uma "dupla perda" para o Supremo, avalia Werneck, seja pela redução da presença de mulheres na Corte (Cármen Lúcia será a única ministra), seja pela entrada de um integrante com perfil mais político.>
Hoje, os nomes mais cotados para a vaga são os ministros Flávio Dino (Justiça e Segurança Pública) e Jorge Messias (Advocacia-Geral da União).>
Magistrada de carreira na Justiça do Trabalho, Weber chegou ao STF por indicação de Dilma Rousseff em 2011. Ela foi apenas a terceira ministra mulher em 132 anos de história do STF, depois de Ellen Gracie, indicada por Fernando Henrique Cardoso, e Cármen Lúcia, indicada por Lula.>
Devido a sua aposentadoria, Weber ficou apenas um ano na presidência do STF, metade do mandato normal. Nesse curto período, deu andamento a julgamentos de temas sensíveis, com o que rejeitou o marco temporal para territórios indígenas.>
Também pautou a retomada do processo que discute a descriminalização do porte de drogas para consumo, julgamento que acabou suspenso por um novo pedido de vista (mais tempo para analisar o caso), após reunir cinco votos favoráveis a liberação no caso específico da maconha (inclusive o de Weber).>
"Rosa Weber não só pautou temas controversos, como ela geriu para que esses casos chegassem até o fim, custasse o que custasse", nota Eloísa Machado, professora de direito constitucional da FGV, citando em especial o caso do Marco Temporal, que consumiu onze sessões de julgamento. >
Já ao final do seu mandato, a ministra iniciou o julgamento de uma ação pela descriminalização do aborto até 12 semanas de gestação, dando um voto histórico pela liberação do procedimento.>
Para os defensores da descriminalização se trata de um importante posicionamento pelo direito das mulheres, enquanto o lado favorável à proibição vê o voto como uma afronta à maioria conservadora do país e um desrespeito à vida do feto.>
Weber foi sorteada para relatar a ação em 2017 e já em 2018 realizou audiências públicas no Supremo para ouvir os argumentos dos dois lados. A demora em levar a ação a julgamento é atribuída ao clima político desfavorável durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022).>
Depois, a presidência da ministra acabou atropelada pelo 8 de janeiro, o que atrasou novamente o julgamento, acredita a antropóloga Débora Diniz, professora que pesquisa o tema do aborto e esteve à frente da ação que em 2012 levou a liberação da interrupção da gestação de fetos anencéfalos (sem cérebro) pelo Supremo. >
O julgamento acabou sendo iniciado no plenário virtual — em que os ministros apenas depositam seu voto escrito eletronicamente – e foi interrompido por um destaque (pedido para levar o caso ao plenário físico) de Barroso. Como próximo presidente do STF, é ele quem vai decidir quando o tema volta a ser analisado.>
Quando isso ocorrer, é dado como certo que um novo pedido de vista interromperá o julgamento, possivelmente de um dos ministros considerados mais conservadores — André Mendonça e Nunes Marques, ambos nomeados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.>
Diniz espera que outra medida capitaneada por Weber, a mudança no regimento interno do STF aprovada em dezembro de 2022 que limitou os pedidos de vista a um prazo de 90 dias, contribua para que a ação sobre o aborto não fique eternamente em suspenso.>
Na sua leitura, a presidente do Supremo promoveu essa alteração tendo em vista os temas sensíveis que ela queria julgar durante sua presidência. >
"Essa mudança que a ministra Rosa Weber faz, de limitar os pedidos de vista, é revolucionária. E ela não faz isso sem ter grandes questões em mente, que foram essas que ela enfrenta (pautando ações sensíveis para julgamento)", acredita.>
O professor Diego Werneck também chama a mudança de "revolucionária". Ele ressalta que a ideia de limitar os pedidos de vista e a duração de medidas individuais dos ministros (como algumas liminares) já vinha sendo discutida internamente por outros ministros.>
Mas, na sua avaliação, a ministra tinha "autoridade moral" para avançar o tema em sua gestão, justamente por não abusar dos mecanismos que ficaram limitados com a decisão.>
No auge da operação Lava Jato, o STF viveu uma intensa disputa interna sobre a possibilidade de um réu condenado em segunda instância começar a cumprir a pena antes do trânsito em julgado do processo – ou seja, quando todos os recursos se esgotam. Recuperar esse contexto é importante para analisar o polêmico voto de Weber que contribuiu para a prisão de Lula.>
Desde 1988, quando a Constituição foi promulgada, até 2009, vinha prevalecendo o entendimento de que era possível cumprir a pena antecipadamente, mas não havia uma orientação clara do STF sobre o assunto.>
Por causa disso, em 2009 o plenário do STF analisou a questão a partir de um habeas corpus (pedido de liberdade) de um réu condenado por homicídio – na ocasião, por 7 a 4, o Supremo decidiu contra a prisão antes do esgotamento dos recursos, já que a Constituição prevê que "ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória".>
Em 2016, porém, quando o país vivia um forte clamor contra a impunidade em meio à operação Lava Jato, a Corte mudou sua posição, ao julgar um caso específico e, depois, ao analisar provisoriamente duas ações amplas sobre esse tema.>
Na ocasião, uma maioria apertada (6 a 5) entendeu que é possível iniciar o cumprimento da pena após condenação em segunda instância, por ser a etapa em que se encerram a análise de provas (as cortes superiores julgam apenas questões processuais, ou seja, se a lei foi aplicada corretamente no processo).>
O resultado foi modificado porque a composição da corte se alterou, devido à aposentadoria de alguns ministros, e também porque Gilmar Mendes mudou seu voto. Após ter ficado contra a prisão antecipada em 2009, ele votou em 2016 a favor.>
Já em 2017, porém, Mendes indicou que mudou seu posicionamento novamente, o que gerou fortes críticas de que estaria agindo politicamente após a Lava Jato ampliar seu alcance a atingir políticos do PSDB e do MDB, próximos ao ministro.>
Mendes negou essa motivação e se justificou dizendo que havia votado para autorizar a prisão antecipada, mas não para que se tornasse algo automático após a condenação em segunda instância, como estava ocorrendo.>
Após ele sinalizar sua mudança de posição, ministros contrários a prisão antecipada passaram a pressionar a então presidente da Corte, Cármen Lúcia, a pautar novamente as duas ações amplas que discutiam essa questão, e que haviam sido julgadas apenas provisoriamente em 2016.>
Favorável à prisão após segunda instância e crítica a uma revisão tão rápida de uma decisão do colegiado, ela resistiu à pressão. Em vez de pautar as ações mais amplas, levou a julgamento em 2018 um pedido de habeas corpus de Lula, em que a defesa pedia que ele não fosse preso antes do trânsito em julgado.>
O julgamento foi envolto em forte tensão, dada à grande projeção política de Lula – ele havia sido condenado meses antes em segunda instância no caso do Tríplex do Guarujá, em rápido julgamento do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), que confirmou uma decisão do então juiz Sergio Moro, hoje senador.>
Como esperado, Gilmar mudou de lado, votando contra a possibilidade de Lula ser preso. O petista acabou indo pra cadeia, porém, porque Weber se manifestou contra seu pedido de habeas corpus.>
Para Diego Werneck, o voto foi coerente com a postura da ministra de respeitar o colegiado: como havia uma decisão ampla do STF autorizando a prisão antecipada para todos os réus, não faria sentido, na lógica de Weber, considerar ilegal que Lula fosse preso.>
"Quem me acompanha nesses 42 anos de magistratura não poderia ter a menor dúvida com relação ao meu voto, porque eu tenho critérios e procuro manter a coerência das minhas decisões", disse Weber no julgamento, após ser interrompida em seu voto, com críticas dos ministros Marco Aurélio Mello e Ricardo Lewandowski (já aposentados).>
A professora Eloísa Machado, por sua vez, considera "um erro de avaliação" o voto da ministra, já que a jurisprudência da corte que autorizava a prisão antecipada era "instável" e seria revista em seguida.>
De fato, em 2019, o novo presidente do STF, Dias Toffoli, levou a julgamento novamente as ações amplas que discutiam a constitucionalidade da prisão após segunda instância. Nessa caso, Weber voltou a votar contra essa possibilidade, firmando maioria no Supremo contra o cumprimento antecipado da pena.>
Lula foi solto após essa decisão, e depois teve suas condenações anuladas pelo Supremo, devido a ilegalidades na condução dos processos da Lava Jato.>
"Eu acho que esse talvez seja o momento mais é polêmico e que marca a trajetória da ministra Rosa Weber. Talvez ela devesse ter se mantido fiel as suas convicções ao invés de se atrelar a uma maioria do colegiado que já se mostrava instável", nota Machado.>
"De fato, é um mérito os ministros do Supremo serem deferentes às posições do colegiado. Isso não é algo ruim. Porém, essa decisão da possibilidade de execução da pena após condenações em segunda instância não se mostrava uma posição consolidada na Corte. Portanto, se ela se mantivesse atrelada a suas convicções contrária a antecipação da execução da pena, ela não estaria minando a colegialidade do tribunal", acrescenta.>
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