O presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou ao mandato no início da tarde desta quinta-feira (5/11), após o aumento da pressão provocada pela crise do banco digital Ueno Bank.
"Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República. Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas", afirmou.
O Banco Central do país determinou, na terça-feira (3/11), a intervenção na fintech, após constatar que seu índice de solvência caiu para menos da metade do mínimo exigido. A crise provocou o bloqueio de recursos públicos e das economias de milhões de clientes.
A decisão foi tomada por unanimidade pela diretoria do Banco Central e levou à suspensão imediata de todos os serviços do Ueno Bank, um dos principais bancos do Paraguai que, segundo dados da própria instituição, tem 3 milhões de clientes, o equivalente a 60% da população adulta do país.
Peña, do conservador Partido Colorado, foi eleito em 2023 com ampla vantagem, após vencer o opositor Efraín Alegre, do Partido Liberal Radical Autêntico.
Ele é o nono governante de direita entre os dez que comandaram o país desde a redemocratização, iniciada em 1989 com o fim da ditadura do general Alfredo Stroessner.
"Obrigado a quem nos deu seus sonhos, confiou neste projeto, depositou suas esperanças para que possamos ser melhores, e vamos ser melhores", disse Peña após o resultado das eleições.
"Depois de anos de estagnação econômica, déficit fiscal elevado, taxa de desemprego elevada, aumento da pobreza extrema, não é só trabalho para uma pessoa ou um partido. Por isso apelo à união e ao consenso, à prosperidade sem exclusões", acrescentou.
A ascensão de Santiago Peña
Santiago Peña tem 47 anos e nasceu em Assunção, capital do país.
Até 2015, Peña era um estranho à política nacional. Economista formado pela Universidade Católica de Assunção, onde lecionou Teoria Financeira e Teoria Econômica, foi para os Estados Unidos em 2001 fazer mestrado em Administração Pública na Universidade Columbia, em Nova York.
Em 2009, integrou a equipe do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, onde dirigiu a relação do órgão com a África. "Naqueles anos, o potencial que vi de fora para o meu país gerou um grande impacto em mim", disse a repórteres antes das eleições internas do partido.
Durante uma década, fez parte do Banco Central do Paraguai, primeiro na área de Pesquisa Econômica e depois como diretor. Só em 2015, porém, passou a atuar na política nacional, ao assumir o Ministério da Fazenda no governo Cartes.
"Peña é uma pessoa que se apresenta como um tecnocrata, um especialista em economia de alto nível, com estudos no exterior e credenciais que lhe dão força técnica. A questão é se isso pode compensar a falta de capital político", disse à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC, Magdalena López. Ela é PhD em Ciências Sociais e coordenadora do Grupo de Estudos Sociais do Paraguai da Universidade de Buenos Aires.
"Peña nasceu do fracasso do projeto de reeleição de Cartes", disse José Duarte Penayo, doutor em Filosofia e filho do ex-presidente colorado Nicanor Duarte Frutos, referindo-se à tentativa frustrada do ex-presidente, em 2017, de modificar a Constituição para permitir a reeleição.
Em 2017, Peña disse que sentia que era hora de "descer à arena eleitoral para fazer mais" e renunciou ao Ministério da Fazenda para disputar a candidatura à Presidência nas eleições internas do partido, nas quais perdeu para seu antecessor, Mario Abdo.
Em 2018, com o fim do governo Cartes, Peña teve sua primeira experiência no setor privado: passou a integrar o conselho de administração do Banco Basa, do Grupo Cartes, conglomerado empresarial do ex-presidente que, segundo o próprio Peña, representa 2% do PIB nacional.
A relação com o ex-presidente Horacio Cartes
Para alguns, Peña era o "protegido" de Cartes. Para outros, seria quem o protegeria nos próximos anos.
Em seu discurso de comemoração após o resultado das eleições, Peña dedicou um agradecimento especial a Cartes, presidente do partido.
"Sua contribuição, presidente, não se paga senão com a moeda do respeito e da admiração. Obrigado por esta vitória vermelha", disse Peña.
Em 2022, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos definiu Cartes como "significativamente corrupto".
"Cartes se envolveu em atos de corrupção antes, durante e depois de seu mandato como presidente do Paraguai. A carreira política de Cartes foi baseada e continua dependendo da mídia corrupta para o sucesso", disse o comunicado do Departamento de Estado na época.
As sanções econômicas contra Cartes alteraram o mecanismo de financiamento da última campanha política, baseado na solicitação de empréstimos bancários.
A relação com Donald Trump
Apesar das acusações dos Estados Unidos, Peña nunca se afastou de Cartes. Mas também se aproximou do presidente republicano Donald Trump.
Alinhado ao governo Trump, Peña elogiou o presidente americano em uma reunião do Escudo das Américas, horas depois da Assembleia Geral da ONU, em setembro, em Nova York.
"Permita-me parabenizá-lo, porque acho que o senhor bateu um recorde mundial: não acredito que tenha havido um presidente americano que tenha se reunido tantas vezes com presidentes do hemisfério ocidental", disse.
O Escudo das Américas surgiu em março como uma coalizão de Washington com governos da região politicamente próximos para combater o crime organizado.
Neste mesmo mês, Peña assinou um polêmico acordo que autoriza a presença de militares e empresas americanas no país para combater o crime organizado. Para alguns, tratava-se de uma "obrigação estratégica". Para outros, de uma "ingerência direta" dos EUA no Paraguai.
O convênio autorizou a presença temporária de pessoal civil e militar do Pentágono e de empresas americanas no Paraguai, para atividades relacionadas à entrada de veículos, treinamento e exercícios militares. A aprovação no Congresso gerou um debate acalorado, que dividiu os legisladores e a opinião pública do país.
A assinatura do acordo entra para a longa história de vínculos entre o Paraguai e os Estados Unidos, que se estreitou com Peña e Trump.
"Desde o início do segundo mandato de Trump, o Paraguai vem vivenciando níveis de colaboração bilateral com os Estados Unidos sem precedentes", explicou Gregory Ross, da consultoria McLarty Associates, à BBC News Mundo.
O governo Peña e o 'boom' econômico
Peña chegou à Presidência com uma promessa econômica clara: "mais dinheiro no bolso dos paraguaios", com geração de empregos e formalização da economia.
Seu partido governou o país nas últimas sete décadas, com exceção de um breve período entre 2008 e 2013. Ele também prometeu acabar com a evasão fiscal, promover políticas para que mais pessoas trabalhem na economia formal e não aumentar impostos.
Nos últimos três anos, período que coincide com seu governo, o Paraguai cresceu, em média, 5,5% ao ano, muito acima da média dos vizinhos e da América do Sul como um todo. Números do Banco Mundial indicam que cerca de 300 mil paraguaios saíram da pobreza nos últimos dois anos, e 2025 registrou o menor índice de desemprego em 13 anos.
Economistas avaliam que o país vive um boom econômico. Citam razões como um sistema tributário relativamente simples e competitivo, dívida pública moderada, baixa inflação, população jovem e disponibilidade de energia renovável barata.
Ainda assim, as projeções do FMI apontam crescimento de cerca de 3,7% em 2026, abaixo dos 6,6% de 2025.
Mas os benefícios do crescimento não chegam igualmente para todos.
"Ainda predominam empregos de menor qualidade. Seis a cada 10 trabalhadores estão na economia informal, o que limita seu acesso à previdência social", explicou Humberto A. Colman, economista-chefe da Fundação Paraguaia Desenvolvimento em Democracia.
"E, embora os salários reais tenham aumentado em mais de 5% no último ano, muitas famílias ainda não recuperaram plenamente o poder aquisitivo perdido em um período anterior de forte inflação dos alimentos", explica Colman.
Para o governo Peña, porém, a chegada de imigrantes é indício de que o país vai bem, e uma das peças promocionais oficiais sobre o assunto diz que o "Paraguai abre suas portas ao mundo".
Os brasileiros são um exemplo: em 2025, o Paraguai bateu recorde ao conceder 40,6 mil autorizações de residência a estrangeiros. Mais da metade (23,5 mil) eram brasileiros, muito mais do que os segundos colocados, os argentinos (4,3 mil).
Para 2026, a expectativa é que o número seja ainda maior. Só nos três primeiros meses do ano, foram emitidas 9,2 mil autorizações para brasileiros.
Quem pede residência no Paraguai é questionado por funcionários do governo sobre os motivos da mudança. E as respostas mais frequentes são sobre o custo do nosso imposto.
A carga tributária total do Paraguai, ou seja, o peso dos tributos arrecadados pelo governo em relação à economia, gira em torno de 14,5% do PIB, segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). No Brasil, a taxa é mais que o dobro, 32%, segundo o Ministério da Fazenda.
Esse modelo, porém, não nasceu com Peña. O sistema começou a ser delineado em 1992 e foi sendo consolidado nos sucessivos governos de direita. Mas foi ele que Peña prometeu preservar ao se comprometer a não aumentar impostos em sua campanha presidencial.
Proximidade com Lula, apesar de crise diplomática
A relação de Peña com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT) era marcada por proximidade e diálogo, apesar de episódios de atrito diplomático anteriores.
Em julho deste ano, a Guerra do Paraguai, o maior e mais sangrento conflito armado da história da América Latina, voltou ao centro de uma disputa diplomática entre Brasil e Paraguai.
A crise foi desencadeada após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmar que "um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil".
A fala ocorreu durante um evento no interior de São Paulo, em que o presidente falava sobre a importância de investimentos na indústria de defesa brasileira.
"A gente gosta de paz, mas a gente não pode se esquecer de que, um belo dia, o Paraguai resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina. E aquela guerra que parecia que era nada durou cinco anos", disse Lula.
A declaração foi interpretada por autoridades paraguaias como uma simplificação das causas do conflito e provocou reações imediatas no país vizinho.
O governo Peña convocou o embaixador brasileiro em Assunção, José Antônio Marcondes de Carvalho, para prestar esclarecimentos sobre o episódio.
O Congresso paraguaio também aprovou manifestações de repúdio às declarações do presidente brasileiro.
No entanto, Peña foi um dos primeiros líderes a parabenizar Lula pela vitória em seu quarto mandato, ainda na noite do primeiro turno.
"Parabéns Lula pela sua eleição como presidente do Brasil", disse Peña.
"Saúdo o povo brasileiro por esta grande jornada democrática. O Paraguai e o Brasil compartilham uma agenda comum de integração e desenvolvimento. Continuaremos trabalhando juntos pelo bem-estar do nosso povo."