Publicado em 18 de julho de 2023 às 08:12
O Sistema Único de Saúde (SUS) gastou mais de R$ 3,8 bilhões no tratamento do câncer em 2022 — e, segundo pesquisadores, parte significativa desse dinheiro poderia ser economizada se os tumores tivessem sido diagnosticados em fases precoces, quando o tratamento é mais efetivo e mais barato.>
Esses são alguns dos achados de uma recente pesquisa do Observatório de Oncologia, que faz parte do grupo da sociedade civil Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC), a partir de dados do ano passado disponíveis no DataSUS.>
A análise revelou, por exemplo, que uma única sessão de quimioterapia contra o câncer de mama de estadiamento 1 (o mais precoce) custa R$ 134,17 aos cofres públicos. Já na fase 4 da doença (a mais avançada), essa mesma modalidade de tratamento fica R$ 809,56 — um valor seis vezes mais alto. >
O tratamento tende a ficar mais caro, segundo especialistas, por envolver drogas específicas, desenvolvidas para combater tumores avançados. Essas opções terapêuticas costumam ter um preço mais elevado. Além disso, o paciente em estágio avançado pode necessitar de sessões extras de tratamento e um acompanhamento mais próximo. >
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Veja abaixo mais detalhes sobre o chamado estadiamento (ou estágio) — termo usado para apontar o grau de disseminação do câncer.>
Ainda segundo as estatísticas disponíveis, uma parcela considerável dos tumores é detectada tardiamente. No câncer de mama, 57% dos casos são flagrados em estadiamentos 1 e 2, ante 43% que já evoluíram para 3 e 4. >
Já no caso do pulmão, 88% dos pacientes só descobrem a enfermidade quando ela está mais grave, nos estadiamentos 3 e 4.>
Os pesquisadores calcularam essas estimativas de possível economia por estágio e tipo de câncer — mas apontam que não é possível determinar com precisão uma economia total devido à falta de dados mais detalhados na área de oncologia, como a gravidade de todos (ou da maioria) dos tumores diagnosticados no país.>
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), são esperados 704 mil casos novos e 235 mil mortes por essa doença no Brasil a cada ano. >
Isso faz com que os tumores sejam a terceira principal causa de óbitos no país, atrás apenas do infarto e do acidente vascular cerebral (AVC).>
De acordo com o levantamento do Observatório de Oncologia, dos 3,8 bilhões gastos apenas com o tratamento do câncer no SUS, 77% desse valor (R$ 3 bilhões) vai para o tratamento ambulatorial, que envolve sessões de quimioterapia e radioterapia, por exemplo.>
As somas restantes são utilizadas para cirurgias (R$ 519 milhões, ou 13% do total) e internações (R$ 374 milhões, ou 10%).>
Ao dividir esse custo total pelo número de intervenções realizadas no ano passado, os pesquisadores descobriram que cada procedimento ambulatorial em oncologia custa, em média, R$ 758,93, enquanto uma internação sai R$ 1.082,22 e uma cirurgia representa R$ 3.406,07.>
A epidemiologista Ana Beatriz Almeida, uma das autoras do trabalho, destaca que esses valores se referem exclusivamente ao tratamento — incluindo gastos com remédios, insumos e equipamentos.>
"O câncer não envolve apenas as terapias. Existem outros gastos do ponto de vista da saúde pública, como as campanhas de prevenção e os exames de diagnóstico, que não entraram nessa conta", esclarece.>
Os responsáveis pelo levantamento também mostram uma preocupação com os efeitos da pandemia de covid-19 nesse orçamento. Afinal, durante o período que o coronavírus circulou com muita intensidade, nos anos de 2020 e 2021, boa parte da população não saiu de casa e deixou de fazer os exames capazes de detectar o câncer em estágios precoces.>
"Estamos falando de um sistema que já tem recursos limitados, então qualquer nova sobrecarga orçamentária representa um alerta", diz Nina Melo, coordenadora do Observatório de Oncologia.>
"E queremos justamente que os pacientes sejam diagnosticados de forma precoce. Isso representa um desfecho clínico melhor, mais qualidade de vida e, claro, uma redução de custos ao SUS", complementa ela.>
As diferenças ficam ainda mais visíveis quando esses valores são divididos segundo o tipo de câncer e o estágio em que eles são diagnosticados.>
Para fazer esses cálculos, os especialistas selecionaram quatro tumores frequentes na população: os de mama, próstata, colorretal e pulmão.>
Esse grupo de doenças consome uma fatia considerável do orçamento das terapias oncológicas na rede pública: juntos, os problemas tumorais que afetam alguma dessas quatro partes do corpo representam 57% dos gastos totais com quimioterapia, 54% da radioterapia, 25% das internações e 31% das cirurgias.>
No gráfico a seguir, você confere os valores totais usados no SUS com o tratamento desses cânceres, divididos em três modalidades terapêuticas e os gastos com internação. >
A quimioterapia representa a principal fatia em todos tipos:>
Mas e os custos individuais de cada tratamento? Para responder a essa questão, o Observatório de Oncologia estimou o preço de uma única sessão de quimioterapia de acordo com o estadiamento da doença.>
Para resumir, um tumor de estadiamento 1 é aquele que foi flagrado bem no início e ainda não comprometeu tecidos linfáticos próximos; o 2 se espalhou um pouco mais em seu local de origem; o 3 está avançado localmente, mas não afetou outros órgãos; e o 4 foi diagnosticado com metástase (quando a doença já aparece em lugares que vão além de sua posição original).>
E os números obtidos pelos pesquisadores revelam diferenças importantes, como é possível ver no gráfico abaixo.>
Além da diferença de seis vezes no preço da químio contra o câncer de mama, o custo desse tratamento tem uma distância de quase R$ 150 nos tumores de próstata de fase 1 ou 4 e de mais de R$ 300 nos colorretais.>
"Nós já esperávamos que houvesse um aumento de preços em estadiamentos mais avançados, mas a diferença dos valores foi muito além do que imaginávamos", diz Melo.>
"Quando a doença é descoberta em estadiamento avançado, os protocolos terapêuticos incluem medicamentos de alto custo na maior parte dos casos", explica a médica Catherine Moura, CEO da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale), que não esteve envolvida diretamente com a pesquisa.>
"E isso tudo tem um preço", complementa. >
Vale reforçar que esses valores apresentados anteriormente se referem apenas a uma única sessão de químio. Geralmente, os pacientes precisam fazer diversos ciclos dessa terapia, com intervalos de algumas semanas entre eles.>
Ou seja, se esses valores forem multiplicados pelo número de quimioterapias realizadas e a quantidade de pacientes que recebe o diagnóstico de câncer todos os anos, a economia com o tratamento poderia chegar à casa dos milhões de reais se mais tumores fossem diagnosticados em estágios precoces, acreditam os pesquisadores.>
E aqui surge uma grande dificuldade para completar essa análise: a falta de registros nacionais mais detalhados sobre a gravidade do câncer no momento da detecção.>
A reportagem da BBC News Brasil pediu que o Observatório de Oncologia levantasse quantos casos da doença são diagnosticados no Brasil de acordo com o estadiamento.>
As estatísticas encontradas pelos pesquisadores mostraram um cenário bastante nebuloso. Uma grande proporção de tumores notificados tem o estadiamento classificado como "ignorado".>
"Isso é muito prejudicial para a epidemiologia do câncer, e leva a limitações nas análises que poderíamos fazer", lamenta Almeida. >
É possível conferir esses números no gráfico abaixo:>
Vale dizer que essas estatísticas em específico vêm apenas de hospitais de referência em oncologia que realizam esse trabalho de transmitir os dados para os bancos públicos, e não representam toda a realidade do diagnóstico e do tratamento do câncer no país.>
Se excluirmos a alta proporção de tumores com estadiamento ignorado e levarmos em conta apenas aqueles que receberam a classificação de gravidade adequada, é possível ter uma ideia de como o diagnóstico da doença ocorre muitas vezes numa fase tardia, em especial quando ela acomete o pulmão e a região colorretal:>
Segundo os pesquisadores, isso permite ter uma ideia — mesmo que vaga — de como a detecção precoce dos tumores representaria uma economia aos cofres públicos (sem contar, claro, nas maiores chances de sobrevida relacionadas a um tratamento realizado quando a doença ainda não evoluiu).>
Almeida lembra que os impactos financeiros do câncer vão muito além do preço de um remédio ou de outro. >
"Não podemos nos esquecer dos custos indiretos. Um paciente muitas vezes deixa de trabalhar, além das mortes prematuras também representarem um prejuízo à economia", destaca a autora da pesquisa.>
Moura, da Abrale, entende que é preciso focar cada vez mais em campanhas de prevenção e detecção precoce do câncer. >
"Todo esse investimento é efetivo", acredita ela.>
"É importante que a população de todo o país esteja consciente sobre os diferentes tipos de câncer, os mais prevalentes e como minimizar os fatores de risco para eles.">
"E somente com campanhas de conscientização, feitas por meio de diferentes canais, para que o alcance seja igualitário, conseguiremos alcançar esse resultado", conclui ela.>
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