Publicado em 2 de março de 2026 às 08:11
O Exército de Israel lançou no sábado (28/2) uma série de ataques contra o Irã, com a participação dos Estados Unidos. Nestes ataques, morreu o líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei (1939-2026).>
A notícia foi divulgada primeiramente pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e, depois, pelo governo do Irã.>
Trump declarou que "esta é a maior oportunidade que tem o povo iraniano de recuperar seu país".>
A mensagem do presidente americano, publicada na rede Truth Social, durou oito minutos. Ele afirmou que, após os ataques, os iranianos devem buscar a mudança do regime.>
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Estes acontecimentos dramáticos ocorrem semanas depois dos protestos em massa verificados em diferentes cidades do Irã, clamando exatamente pela mudança do regime do país.>
Estas manifestações foram violentamente reprimidas pelo governo de Teerã. Calcula-se que cerca de 3 mil pessoas tenham morrido nas mãos do governo iraniano.>
O Irã tem mais de 90 milhões de habitantes. E, desde 1979, o país é uma teocracia — um sistema que reúne a religião e a política.>
A autoridade máxima da nação não é o presidente, mas o líder supremo, o aiatolá. E o regime controla rigorosamente as atividades políticas, os meios de comunicação e as liberdades civis.>
Ainda assim, a oposição ao regime nunca desapareceu, embora esteja muito fragmentada, segundo os especialistas. Grande parte está no exílio, mas ainda existem poderosas vozes oposicionistas vivendo dentro do país.>
"Os protestos não tinham uma liderança reconhecível. Os principais dissidentes dentro do Irã foram amplamente perseguidos, aprisionados e silenciados", declarou à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) o pesquisador Juan Moscoso del Prado, do Centro de Economia e Geopolítica Global da Esade (EsadeGeo), uma instituição universitária com sede na Espanha.>
"E, embora existam outros grupos minoritários e controversos no exterior, nenhum deles conta com legitimidade doméstica", prossegue ele. "Por isso, não há forças alternativas claras de governo.">
"O Irã é um país complexo e, embora seu regime atravesse um momento de fraqueza interna e externa, é um sistema com bases sólidas e ainda conserva ampla base social, depois de ter esmagado e aprisionado toda a oposição e a dissidência interna", explicam os analistas Haizam Amirah Fernández e Rosa Meneses, do Centro de Estudos Árabes Contemporâneos (Cearc), com sede em Madri, na Espanha.>
Ambos recordam que, durante as mobilizações, não houve sinais de fraturas internas, exceto por uma tímida convocação do presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, para que se "ouvisse os manifestantes".>
"Isso significa que a liderança política e o poderio militar continuam se entendendo e se apoiando um ao outro", prosseguem eles.>
"Sem figuras dentro do país que possam liderar a mudança, os ativistas em prol dos direitos humanos e os líderes políticos no exílio estão dando voz, no exterior, a centenas de milhares de iranianos que pedem uma reviravolta nas ruas.">
Mas os ataques de sábado (28/2) colocam esta unidade à prova. E estes são os quatro principais grupos de oposição iranianos:>
Em 2018, um grupo de 40 ativistas políticos iranianos radicados fora do país se associou ao ex-príncipe herdeiro Reza Pahlavi, fundando um grupo de oposição que apoiava a política de "máxima pressão" do governo Trump em relação ao Irã.>
Durante os protestos, foram ouvidos mais do que nunca os cânticos exigindo o retorno de Reza Pahlavi, filho do último xá do Irã. Ele se encontra exilado nos Estados Unidos.>
"Eles pedem o seu retorno, para que reúna a oposição e lidere a transição para um Estado secular", explica Ali Dashti da BBC News Persa.>
"Agora, com as manifestações sendo produzidas por toda a nação, ele voltou a se apresentar como alternativa, no caso de mudança de regime.">
Em 2022, Reza Pahlavi apresentou um plano de 100 dias para um governo interino no país.>
"Não se trata de restaurar o passado", declarou ele aos jornalistas. "Trata-se de garantir um futuro democrático para todos os iranianos.">
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Reza Pahlavi não vive no país há quase meio século. Nascido em Teerã, ele é o filho mais velho do último líder da dinastia Pahlavi, o xá Mohammad Reza Pahlavi (1919-1980).>
O xá governou o país com apoio dos Estados entre 1941 e 1979, quando foi derrubado pela Revolução Islâmica.>
Desde então, o herdeiro se transformou em um dos mais reconhecidos críticos do aiatolá Khamenei e promove a transição democrática do seu país.>
Acredita-se que o MKO seja um dos maiores grupos da oposição iraniana no exílio.>
Eles têm dinheiro e influência, "mas a maioria das pessoas dentro do Irã os odeia", segundo Dashti.>
"Existem provas de que seus membros participaram da guerra Irã-Iraque (1980-1988), mas pelo lado dos iraquianos. Fala-se que eles 'têm sangue nas suas mãos', mas muitos os reconhecem como o mais forte grupo opositor iraniano", explica o jornalista da BBC News Persa.>
Pouco depois da Revolução de 1979, o grupo se voltou contra o governo, que proibiu a participação nas eleições do seu líder, Massoud Rajavi, e começou uma luta armada para derrubar o regime.>
Rajavi não é visto em público há anos, gerando rumores sobre sua morte. Seus partidários se referem à sua esposa, Maryam Rajavi, como "presidente do Irã no exílio".>
"É uma oposição muito poderosa, devido aos seus contatos com figuras de alto perfil do governo dos Estados Unidos e de outros países, como a Alemanha, o Reino Unido e a Espanha", afirma Dahsti.>
"De tempos em tempos, eles realizam conferências, à qual comparecem políticos ativos e ou que já tiveram muita relevância.">
Este grupo é formado por ex-funcionários, clérigos críticos e políticos que pedem mudanças graduais do lado de dentro, mas sua margem de manobra é muito limitada.>
Com o tempo, o grupo sofreu uma grande ruptura entre os que acreditam que reformar o Irã não será suficiente e querem mudar o país por completo e os que pensam que o país só precisa de algumas reformas.>
Entre os que endureceram sua visão e defendem um Estado secular e democrático, que separe as questões religiosas das civis, estão seus ex-líderes.>
Um deles é o ex-primeiro-ministro Mir-Hossein Mousavi, que se encontra em prisão domiciliar desde fevereiro de 2011.>
O ex-presidente do Parlamento iraniano e ex-candidato a presidência Mehdi Karroubi, muçulmano erudito, também faz parte deste grupo. Como Mousavi, ele foi colocado em prisão domiciliar em 2011 e libertado em 2025.>
Também se destaca neste grupo Mostafa Tajzadeh, que foi vice-ministro do Interior do governo do ex-presidente Mohammad Khatami (1997-2005). Suas principais críticas são dirigidas ao aiatolá Khamenei.>
No outro lado do espectro, surgem figuras muito midiáticas do país, como o acadêmico Mohammad Fazeli, os ex-presidentes Hassan Rouhani (2013-2021) e Mohammad Khatami e o jornalista Abbas Abdi.>
A inflação do Irã atinge 50% e a moeda local, o rial, já sofreu desvalorização de 68% no mercado paralelo este ano.>
Os cortes de eletricidade, a falta de água e a perda de poder aquisitivo se estenderam a todas as classes sociais.>
Estes fatores geraram grande descontentamento entre os cidadãos iranianos, que protagonizaram protestos cíclicos nos últimos 20 anos.>
Em 2009, a sociedade saiu às ruas com a Revolução Verde, que foi violentamente reprimida. O mesmo ocorreu em 2011 e 2019, com igual reação por parte do governo.>
A morte sob custódia policial da jovem Mahsa Amini (1999-2022), detida por não vestir o véu "adequadamente", gerou uma nova explosão de manifestações.>
"A mão de ferro brutal voltou a se fechar sobre os ativistas, na sua maioria jovens de uma geração que não se identificava com os valores e as imposições ideológicas da República Islâmica", recordam os analistas do Centro de Estudos Árabes Contemporâneos (CEAC).>
Foi naquele momento que surgiu o movimento "Mulher, Vida e Liberdade", reunindo vários grupos pequenos e distintos que têm em comum ideias de esquerda.>
O movimento surgiu de forma espontânea, descentralizada e muito forte entre mulheres, jovens e minorias.>
"Aqui encontramos, por exemplo as associações feministas, os jovens, os partidos das etnias curdas e os baluch, uma das minorias étnicas e religiosas mais importantes do Irã", explica Dashi. "Estes dois últimos grupos buscam maior autonomia, não necessariamente a secessão.>
Moscoso del Prado destacou que os líderes das manifestações no interior do país eram "uma geração jovem, de menos de 30 anos, que representam a metade da população iraniana, muitos deles mulheres e com nível superior.">
"São a mesma geração que liderou os protestos pelos direitos das mulheres em 2022", explica ele. "Os dois episódios tiveram forte repercussão e apoio entre a diáspora iraniana que mora nas capitais europeias e nos Estados Unidos.">
Agora, a questão é qual será o papel da fragmentada oposição iraniana com os novos ataques americanos e israelenses ao Irã.>
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