Publicado em 18 de março de 2026 às 17:36
Guerras raramente têm vencedores claros. E as populações civis costumam pagar o preço mais alto.>
Com os mercados globais de energia e as cadeias de abastecimento desordenadas, alguns países estão se preparando para enfrentar severas consequências econômicas. Mas outros conseguiram encontrar novas oportunidades estratégicas em meio ao caos.>
A guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã trazem consequências dramáticas para a região e para o mundo. Ela desestabilizou os países do Golfo e levou centenas de milhares de pessoas a deixarem suas casas em todo o Oriente Médio.>
Além da zona de guerra, o pico dos preços do petróleo e a interrupção do tráfego marítimo no Golfo, especialmente nas proximidades do Estreito de Ormuz, elevam os custos para empresas e consumidores.>
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Mas quais países podem sair ganhando ou perdendo em meio à crise?>
O Irã é um importante aliado e parceiro militar da Rússia.>
A morte do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei (1939-2026), marca mais um revés para Moscou no campo externo, após a deposição de Bashar al-Assad, na Síria, e a captura de Nicolás Maduro, na Venezuela, pelos Estados Unidos.>
Ainda assim, o conflito no Oriente Médio poderá oferecer à Rússia uma vantagem na sua própria guerra, afastando os recursos militares americanos da Ucrânia.>
"O esgotamento dos interceptadores e mísseis Patriot é benéfico para a Rússia, pois ele limita o que a Ucrânia pode conseguir no mercado", explica à BBC News Rússia a professora Nicole Grajewski, do Centro de Estudos Internacionais do Instituto de Estudos Políticos de Paris, na França.>
Mas a maior demanda de drones iranianos Shahed por Teerã, provavelmente, não trará impactos significativos às capacidades de Moscou na Ucrânia, segundo especialistas.>
"A Rússia dependeu do Irã para cooperação no setor de defesa durante um período muito específico, no início da guerra na Ucrânia, quando o Irã forneceu drones Shahed e, o mais importante, a tecnologia de produção e licenças desses drones, em 2022-2023", explica à BBC News Hanna Notte, diretora para a Eurásia do Centro de Estudos sobre Não Proliferação, nos Estados Unidos.>
"Estamos, agora, em um estágio em que a Rússia não precisa do Irã para prosseguir com a guerra na Ucrânia", prossegue ela. "A Rússia pode produzir drones Shahed sozinha.">
Paralelamente, o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã tem asfixiado o transporte de petróleo e gás, fazendo os preços dos combustíveis dispararem.>
Isso pode dar um certo alívio financeiro para a Rússia, que sofre pressões significativas devido à guerra na Ucrânia.>
O orçamento federal da Rússia considera a exportação do petróleo do país a US$ 59 por barril. Mas, agora, o preço do petróleo bruto aumentou significativamente e chegou a atingir quase US$ 120 por barril.>
E, com a maior parte dos países do Golfo reduzindo sua produção, a Rússia pode conseguir exportar mais petróleo para mercados importantes, como a China e a Índia.>
Na última semana, o governo americano anunciou uma flexibilização de algumas sanções relacionadas ao petróleo da Rússia. >
A medida prevê uma isenção temporária de cerca de 30 dias para permitir que países comprem petróleo e produtos petrolíferos russos sancionados que já estavam em navios no mar, numa tentativa de conter a alta global dos preços da energia. >
Embora limitada, a medida pode facilitar temporariamente as exportações russas e gerar receitas adicionais para Moscou.>
A China ainda não sofreu efeitos graves da guerra no Irã. Mas ainda irá sentir as pressões.>
Apenas cerca de 12% do petróleo bruto importado pela China vem do Irã, segundo o Centro de Política Energética Global.>
Além disso, Pequim detém estoques de petróleo suficientes para vários meses e poderá facilmente pedir ajuda à Rússia em seguida.>
Mas o "setor industrial orientado à exportação" da China também será atingido, segundo Fyfe.>
As exportações representam cerca de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) chinês — o valor total das mercadorias produzidas e dos serviços fornecidos pelo país.>
Por isso, elas se tornaram um importante motor da sua economia, prejudicada pela queda dos preços dos imóveis e pelo fraco consumo doméstico.>
A interrupção do tráfego marítimo na região do Estreito de Ormuz não é um grande problema para a China, mas chegar ao Oceano Atlântico é fundamental para os produtos chineses que se dirigem ao Ocidente.>
E, no outro lado da Península Arábica, o Estreito de Bab el-Mandeb, que conecta a Ásia, a Europa e a África, sofreu ataques dos houthis do Iêmen, uma milícia armada apoiada pelo Irã.>
"É muito provável que o tráfego no mar Vermelho seja novamente muito prejudicado, com navios cargueiros de longo curso da Ásia que desejam chegar à bacia do Atlântico sendo desviados para contornar o sul da África e o Cabo da Boa Esperança", explica Fyfe.>
"Existe um alto custo a pagar por isso", afirma o especialista em Oriente Médio Neil Quilliam, do centro de estudos Chatham House, com sede em Londres.>
O trajeto "aumenta a viagem em 10 a 14 dias. E, dependendo da mercadoria, para um navio médio, o custo adicional é de cerca de US$ 2 milhões.>
Mas a guerra no Irã pode oferecer oportunidades diplomáticas para a China, que tenta se posicionar como um parceiro responsável em comparação com os Estados Unidos, segundo Philip Shetler-Jones, do Instituto Real de Serviços Unidos de Estudos de Defesa e Segurança (Rusi, na sigla em inglês).>
O presidente chinês, Xi Jinping, continuará projetando sua imagem como líder global estável e previsível, em oposição ao líder americano, Donald Trump.>
E o conflito poderá também ser uma chance para Pequim "procurar indicações" sobre como Trump pode reagir sobre outros temas polêmicos, como Taiwan, a ilha autogovernada reivindicada pela China.>
Imensamente dependentes do petróleo e gás do Oriente Médio, os países do sudeste asiático devem ser fortemente atingidos pela guerra.>
Alguns deles já tomaram medidas drásticas de austeridade, na esperança de reduzir seus impactos econômicos o mais cedo possível.>
No Vietnã, o preço do óleo diesel já aumentou em 60% desde o início da guerra. E o governo pediu a todos que trabalhem de casa, quando possível.>
As Filipinas importam cerca de 95% do seu petróleo bruto do Oriente Médio. Os funcionários do setor público do país, agora, trabalham quatro dias por semana, exceto pelos serviços de emergência.>
Restrições similares foram impostas no Paquistão, com exceção dos bancos. >
Sempre que possível, foram emitidas ordens para que os funcionários trabalhassem de casa e as aulas das universidades ocorrem via internet.>
Em pronunciamento pela televisão, o primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif declarou que é fundamental conservar e racionar cuidadosamente as reservas de combustível do país.>
Em Bangladesh, o governo enfrenta o pânico dos consumidores. Longas filas nos postos de gasolina levaram ao racionamento. É permitida a compra de 10 litros por dia para os carros e apenas dois litros para as motocicletas.>
Mas as consequências da guerra podem ir muito além da falta de energia.>
Agricultores de todo o mundo dependem de fertilizantes para abastecer o solo com nutrientes necessários para o cultivo de alimentos e aumentar a resistência das safras. Qualquer interrupção pode gerar insegurança alimentar global.>
"30% da ureia do mundo, matéria-prima para a fabricação de fertilizantes, passa pelo Estreito de Ormuz", explica Quilliam. "A ureia vem de produtos petroquímicos, derivados do processo de refração de petróleo bruto.">
"Por isso, se você retirar 30% da ureia dos mercados globais, haverá impactos concretos sobre a segurança alimentar mundial.">
Após os ataques às suas instalações, a QatarEnergy — um dos maiores exportadores de gás do mundo e produtor de ureia para a fabricação de fertilizantes — precisou declarar força maior, uma medida de emergência que permite às empresas suspender temporariamente a produção e fornecimento.>
"Você poderá muito bem observar impactos em termos de segurança alimentar e inflação daqui a seis a nove meses", segundo Quilliam.>
"Pode ainda não se materializar, mas, à medida que a produção for prejudicada ou os agricultores enfrentarem dificuldades para conseguir fertilizantes, veremos um impacto de longo prazo.">
Com colaboração da BBC News Hindi e de Elizaveta Fokht, da BBC News Rússia.>
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