Publicado em 29 de novembro de 2024 às 12:43
Aviso: esta reportagem contém descrições de natureza sexual.>
"Tive de trabalhar enquanto estava grávida de nove meses", diz Sophie, que é prostituta na Bélgica. >
Ela concilia seu trabalho com o fato de ser mãe de cinco filhos — o que é "muito difícil".>
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Quando Sophie, que quis permanecer anônima, teve seu quinto filho, ela foi submetida a uma cesariana e foi informada de que precisaria ficar de cama por seis semanas. Mas ela diz que essa não era uma opção, e voltou a trabalhar imediatamente.>
"Eu não podia me dar ao luxo de parar porque precisava do dinheiro.">
A sua vida teria sido muito mais fácil se ela tivesse direito à licença maternidade, paga pelo empregador.>
Por causa de uma nova lei na Bélgica — a primeira do gênero no mundo —, este vai ser o caso a partir de agora. >
As profissionais do sexo vão ter direito a contratos oficiais de trabalho, seguro de saúde, aposentadoria, licença maternidade e licença médica. Basicamente, a prostituição vai ser tratada como qualquer outro emprego.>
"É uma oportunidade para existirmos como pessoas", afirma Sophie.>
Há aproximadamente 52 milhões de profissionais do sexo no mundo todo, de acordo com a União Internacional de Trabalhadores do Sexo. >
A profissão foi descriminalizada na Bélgica em 2022, e também é legalizada em muitos outros países, como a Turquia e o Peru. Mas o estabelecimento de direitos e contratos trabalhistas é uma novidade a nível mundial.>
"Isso é radical, e é o melhor passo que vimos em qualquer lugar do mundo até agora", diz Erin Kilbride, pesquisadora da ONG Human Rights Watch. >
"Precisamos que todos os países se movam nessa direção.">
Os críticos dizem que o comércio sexual causa tráfico, exploração e abusos, o que não será evitado por essa lei.>
"É perigoso porque normaliza uma profissão que é sempre violenta na sua essência”, diz Julia Crumière, voluntária da Isala, uma ONG que ajuda prostitutas nas ruas da Bélgica.>
Para muitas profissionais do sexo, o trabalho é uma necessidade — e a lei já poderia ter chegado antes.>
Mel ficou horrorizada quando foi forçada a fazer sexo oral sem camisinha em um cliente, quando sabia que uma infecção sexualmente transmissível (IST) estava circulando na casa de prostituição. Mas sentiu que não tinha opção.>
"Minha escolha era espalhar a doença ou não ganhar dinheiro.">
Ela se tornou acompanhante aos 23 anos — precisava de dinheiro e rapidamente começou a ganhar além do esperado. Achava que tinha encontrado uma mina de ouro, mas a experiência com a IST a trouxe bruscamente de volta à realidade.>
Mel agora vai poder recusar qualquer cliente ou ato sexual com o qual não se sinta confortável — o que significa que ela poderia ter lidado com a situação de forma diferente.>
“Eu poderia ter apontado o dedo para minha chefe [empregadora] e dito: 'Você está violando estes termos, e é assim que deveria me tratar'. Eu estaria protegida legalmente.">
A decisão da Bélgica foi o resultado de meses de protestos em 2022, motivados pela falta de apoio do Estado durante a pandemia de covid-19.>
Uma das pessoas que estavam na linha de frente das manifestações era Victoria, presidente da União Belga de Trabalhadores do Sexo (UTSOPI), que foi acompanhante por 12 anos.>
Para ela, era uma luta pessoal. Victoria considera a prostituição um serviço social, sendo o sexo apenas cerca de 10% do que ela faz.>
"É dar atenção às pessoas, ouvir suas histórias, comer bolo com elas, dançar valsa", explica. >
"Em última análise, trata-se da solidão", acrescenta.>
No entanto, a ilegalidade do seu trabalho antes de 2022 gerava desafios significativos. >
Ela trabalhava em condições inseguras, sem poder escolher seus clientes, e sua agência ficava com uma grande parte dos seus ganhos.>
Victoria contou que foi estuprada por um cliente que havia ficado obcecado por ela.>
Ela foi a uma delegacia de polícia, onde disse que a policial foi "muito dura" com ela. "Ela me disse que profissionais do sexo não podem ser estupradas. Ela me fez sentir que a culpa era minha, porque eu fazia esse trabalho.">
Victoria deixou a delegacia chorando.>
Todas as profissionais do sexo com quem conversamos nos disseram que, em algum momento, haviam sido pressionadas a fazer algo contra sua vontade.>
Por causa disso, Victoria acredita fortemente que esta nova lei vai melhorar a vida delas.>
"Se não existe lei e seu trabalho é ilegal, não há protocolos para te ajudar. Esta lei oferece às pessoas ferramentas para nos deixar mais seguras.">
Os cafetões que controlam o trabalho sexual vão ter permissão para operar legalmente de acordo com a nova lei, desde que sigam regras rígidas. >
Qualquer pessoa que tenha sido condenada por um crime grave não vai ter permissão para empregar profissionais do sexo.>
"Acho que muitos negócios vão ter que fechar, porque muitos empregadores possuem antecedentes criminais", diz Kris Reekmans. >
Ele e a esposa, Alexandra, administram uma casa de massagem erótica na Love Street, na pequena cidade de Bekkevoort.>
O estabelecimento estava lotado quando visitamos — não era o que esperávamos para uma manhã de segunda-feira. >
Eles nos mostraram os quartos meticulosamente mobilados com camas de massagem, toalhas e roupões limpos, banheiras de hidromassagem e uma piscina.>
Kris e a mulher empregam 15 profissionais do sexo — e se orgulham de tratá-las com respeito, protegê-las e pagar bons salários.>
"Espero que os maus empregadores sejam afastados, e que as pessoas boas, que querem exercer esta profissão honestamente permaneçam — e quanto mais, melhor", diz ele.>
Erin Kilbride, da ONG Human Rights Watch, pensa de forma semelhante, e diz que, ao impor restrições aos empregadores, a nova lei "vai reduzir significativamente o poder que eles têm sobre as profissionais do sexo".>
Mas Julia Crumière diz que a maioria das mulheres que ela atende quer apenas ajuda para deixar a profissão e conseguir um "emprego normal" — e não direitos trabalhistas.>
"Trata-se de não ficar na rua com temperaturas congelantes e fazer sexo com estranhos que pagam para ter acesso ao seu corpo.">
De acordo com a nova lei da Bélgica, cada cômodo onde são oferecidos serviços sexuais deve ser equipado com um botão de alarme que vai conectar a profissional do sexo à sua "pessoa de referência".>
Mas Julia acredita que não há como tornar o trabalho sexual seguro.>
"Em que outro trabalho você precisaria de um botão de pânico? Não é a profissão mais antiga do mundo, é a exploração mais antiga do mundo.">
Como regulamentar a indústria do sexo continua sendo uma questão polêmica em todo o mundo. Mas para Mel, tirar a prostituição das sombras só pode ajudar as mulheres.>
"Estou muito orgulhosa de que a Bélgica esteja tão à frente", diz ela. >
"Eu tenho um futuro agora.">
Alguns nomes foram alterados para proteger a segurança das pessoas.>
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