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Prisioneiros algemados e executados: as acusações de crimes de guerra contra o soldado mais condecorado da Austrália

Novos documentos judiciais, vistos pela BBC, revelam detalhes das cinco acusações de homicídio contra o condecorado oficial militar

Publicado em 19 de Abril de 2026 às 08:33

BBC News Brasil

Publicado em 

19 abr 2026 às 08:33
Imagem BBC Brasil
Um desenho mostra a apresentação em tribunal do militar australiano reformado Ben Roberts-Smith Crédito: AFP PHOTO / ROCCO FAZZARI
Aviso: esta reportagem contém conteúdo perturbador.
Conectado por videoconferência a partir de uma pequena sala de um tribunal em Sydney, Ben Roberts-Smith permaneceu em silêncio durante sua primeira audiência por crimes de guerra, realizada nesta sexta-feira.
O militar australiano vivo mais condecorado foi acusado no início deste mês de cinco acusações de homicídio, supostamente cometidas enquanto o ex-cabo do Serviço Aéreo Especial (SAS) estava destacado no Afeganistão a serviço da Austrália.
Novos documentos judiciais, aos quais a BBC teve acesso, detalham as acusações de que o homem de 47 anos teria assassinado um detido afegão com deficiência, empurrado um prisioneiro algemado de um penhasco, ordenado a soldados novatos que executassem outros em um ritual de iniciação conhecido como "blooding" (sangramento) e colocado objetos junto às supostas vítimas para encobrir os crimes.
Roberts-Smith nega categoricamente as acusações, que, segundo seu advogado, representam um "território jurídico inexplorado" para a Austrália — um país que nunca realizou um julgamento por crimes de guerra contra um de seus cidadãos.
Quais são, então, as acusações e o que deve acontecer agora?

Complexo 'Whiskey 108" — 12 de abril de 2009

Ben Roberts-Smith ingressou nas Forças de Defesa Australianas aos 18 anos e participou de duas missões no Timor-Leste antes de entrar para o Serviço Aéreo Especial (SAS), em 2003.
Quando foi enviado ao complexo conhecido como "Whiskey 108", em 12 de abril de 2009, já acumulava mais de uma década de serviço e uma Medalha de Valor.
As tropas australianas combatiam insurgentes do Talibã na região próxima a Tarin Kowt, no centro do Afeganistão, e a equipe do SAS da qual Roberts-Smith fazia parte foi chamada para limpar a área após um ataque aéreo, segundo documentos judiciais.
Os militares encontraram um túnel, de onde retiraram e algemaram dois homens, identificados pela acusação como pai e filho, Mohammad Essa e Ahmadullah.
De acordo com os documentos, Ahmadullah, que usava uma prótese na perna, teria sido levado para fora do recinto por Roberts-Smith, jogado no chão e morto a tiros de metralhadora.
"Vários membros das Forças de Defesa Australianas, incluindo aqueles que formavam um cordão de segurança fora do local, presenciaram a ação", afirmam os documentos.
Imagem BBC Brasil
As forças australianas participaram da guerra contra o Talibã no Afeganistão Crédito: The Age/Getty Images
De volta ao interior do recinto, Ben Roberts-Smith voltou sua atenção para Essa, segundo a acusação.
Agarrando um agente conhecido como "O Novato" — identificado como Pessoa Quatro nos documentos judiciais —, Roberts-Smith teria pegado emprestado um silenciador de outro militar antes de obrigar o detido a se ajoelhar.
"Dispare nele… (palavrão)", dizem os documentos que ele teria dito à Pessoa Quatro, que interpretou a fala como uma ordem e obedeceu.
De acordo com os registros do processo, ao fim da missão, tanto Roberts-Smith quanto seu comandante de patrulha afirmaram ter "iniciado o novato".

Aldea de Darwan - 11 de setembro de 2012

No fim de agosto de 2012, um soldado do Exército Nacional Afegão que atuava ao lado de militares australianos abriu fogo contra eles, matando três e ferindo outros dois, o que desencadeou uma intensa operação de busca.
A localização do sargento Hekmatullah tornou-se a principal prioridade das forças australianas.
Ben Roberts-Smith — que no ano anterior havia recebido a Cruz Vitória, a mais alta condecoração militar da Commonwealth — partiu em sua busca na aldeia de Darwan duas semanas depois.
Em 11 de setembro, sua equipe chegou de helicóptero e revistou vários recintos próximos ao leito seco de um riacho, capturando três detidos, segundo documentos judiciais. Um deles era um homem chamado Ali Jan.
De acordo com a acusação, Roberts-Smith submeteu os prisioneiros a um "interrogatório tático", o que incluiu socos e agressões físicas contra os homens, que estavam algemados.
Em seguida, Roberts-Smith empurrou Ali Jan, que havia sido levado até a beira de um penhasco por um colega — identificado pelo pseudônimo de "Pessoa Onze".
Imagem BBC Brasil
Em 2018, Roberts-Smith entrou com um processo por difamação depois que partes de uma investigação do exército que o implicavam em crimes de guerra começaram a circular, mas ele perdeu Crédito: Getty Images
"Enquanto (Ali Jan) ainda estava algemado e imobilizado, Roberts-Smith o chutou, provocando sua queda de uma altura de aproximadamente 10 metros e causando ferimentos, incluindo a perda de dentes", afirmam os documentos judiciais, acrescentando que a Pessoa Quatro e moradores locais disseram ter presenciado a queda.
Ben Roberts-Smith e a Pessoa Onze desceram então a encosta até onde Ali Jan estava, ferido e ainda algemado.
A Pessoa Quatro declarou à acusação que viu Roberts-Smith e a Pessoa Onze — ambos armados com fuzis — conversarem brevemente.
Enquanto a Pessoa Quatro estava de costas, vários disparos foram ouvidos; ao se virar, a Pessoa Onze estava com o fuzil apoiado no ombro. A acusação afirma que foi a Pessoa Onze quem atirou em Ali Jan.
Os documentos judiciais dizem que um rádio portátil — que Roberts-Smith teria retirado do corpo de um homem que havia matado anteriormente — foi colocado perto de Ali Jan e fotografado para dar aparência de legitimidade ao assassinato.
Em um julgamento anterior por difamação, Roberts-Smith negou que qualquer homem tenha sido detido ou que o penhasco sequer existisse.
Imagem BBC Brasil
As acusações contra Roberts-Smith abalaram a sociedade australiana, já que o oficial era considerado um herói Crédito: Wendell Teodoro/Getty Images

Syahchow - 20 de outubro de 2012

Em 20 de outubro de 2012, Ben Roberts-Smith, então comandante de patrulha, foi enviado à aldeia de Syahchow para procurar um insurgente apelidado de "Objetivo Pino".
Relatórios da missão indicam que duas pessoas morreram durante um confronto em um recinto. Outras duas morreram pouco depois, atingidas por tiros e por uma granada lançada em um milharal onde supostos combatentes teriam se refugiado e se recusado a se render.
A acusação afirma que essa versão é fictícia. Um soldado raso, identificado como Pessoa 66, disse que os dois homens no campo eram, na verdade, detidos e foram mortos sob ordens de Roberts-Smith.
A Pessoa 66 declarou que ambos foram capturados no recinto e depois interrogados por Roberts-Smith, que teria socado um deles no estômago.
Os documentos judiciais afirmam que os dois homens foram posteriormente alinhados na extremidade do milharal.
Um soldado de patente superior atirou em um dos homens, antes de Roberts-Smith supostamente retirar as algemas e a venda do segundo e ordenar ao Soldado 66 que fizesse o mesmo.
Segundo a acusação, o homem foi empurrado ao chão com as mãos levantadas, cobrindo o rosto. O Soldado 66 — em sua primeira missão operacional — hesitou por um momento e então disparou duas ou três vezes contra o peito dele, conforme consta nos autos.
Em seguida, ele observou Roberts-Smith lançar uma granada em direção aos corpos — um ato descrito pelos investigadores como uma tentativa de sustentar a versão de que as mortes ocorreram em combate legítimo.
Peritos forenses identificaram marcas compatíveis com amarras nas fotografias de pelo menos um dos homens. Também foram observadas marcas lineares menos visíveis no outro.
Imagem BBC Brasil
O caso Roberts-Smith representou um duro golpe para o exército australiano, visto que o militar reformado foi o oficial mais condecorado de sua carreira Crédito: Getty Images

O julgamento ainda está a anos de distância

Ben Roberts-Smith se aposentou do serviço ativo no fim de 2012 e deixou formalmente o Exército Australiano em 2015, pouco depois de receber uma menção honrosa por Serviço Distinto.
Cerca de um ano depois, altos comandantes militares iniciaram uma investigação sobre rumores de crimes de guerra no Afeganistão, e reportagens começaram a circular detalhando as acusações.
Em 2018, Roberts-Smith foi apontado como suposto autor de vários incidentes. Ele negou as acusações e entrou com um processo histórico por difamação — que acabou perdendo.
Em seu depoimento sob juramento no julgamento civil, cujas transcrições foram incluídas nos documentos do processo criminal, Roberts-Smith negou ter violado as leis de guerra previstas na Convenções de Genebra.
Também afirmou que sabia que matar uma "pessoa sob custódia" — ou detida — nunca seria permitido, e negou ter usado "objetos plantados" (termo técnico para itens como rádios ou armas colocados no local de mortes) para justificar execuções.
"Roberts-Smith exerceu seu direito de não acrescentar, modificar ou comentar sua declaração anterior", segundo os registros judiciais.
Ainda assim, a acusação apresentou outras provas que pretende usar no julgamento.
Os documentos concluem que há "elementos comuns" nos supostos assassinatos: todas as vítimas estariam algemadas, teriam sido detidas por algum tempo e interrogadas antes da execução, e todas foram mortas em situações em que as Forças de Defesa Australianas tinham controle total, sem confronto ativo com forças inimigas.
Além disso, há pelo menos um testemunho direto ou de testemunha ocular para cada um dos casos. Os documentos indicam que a lista inclui três testemunhas que afirmam ter participado da execução de um ou mais detidos, sob ordens ou com a conivência de Roberts-Smith, que era seu superior.
A equipe jurídica de Roberts-Smith ainda não respondeu detalhadamente às acusações, e o veterano ainda não se declarou culpado ou inocente. O julgamento ainda está distante de ocorrer.
Ao conceder fiança rigorosa e condicional na sexta-feira, o juiz Greg Grogin afirmou que não seriam "semanas nem meses, mas anos — possivelmente muitos anos" até que Roberts-Smith compareça ao tribunal.

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