Publicado em 10 de setembro de 2025 às 21:32
Conhecido por ser um ministro muito duro em ações penais, ou seja, que raramente atende pedidos das defesas, Luiz Fux adotou a postura oposta no julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e mais sete ex-integrantes de seu governo, no Supremo Tribunal Federal (STF).>
O ministro votou, nesta quarta-feira (10/9), para que o processo seja anulado e absolveu Bolsonaro por todos os cinco crimes denunciados pela Procuradoria-Geral da República.>
"A questão do voto do ministro Fux chocou todos pela falta total de aderência ao passado. Vamos lembrar que o ministro Fux sempre foi punitivista", disse o criminalista Aury Lopes Júnior, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), em um vídeo compartilhado em seu Instagram.>
Até 20h da quarta-feira, quando seu voto já durava mais de 9 horas, Fux só havia condenado o delator Mauro Cid, tenente-coronel e ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, pelo crime de tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito.>
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Com isso, formou-se maioria por sua condenação — os ministros, porém, ainda vão decidir se sua pena será reduzida ou extinta, como prêmio pela colaboração.>
Acusados de tentar um golpe de Estado após Bolsonaro perder as eleições de 2022, todos os réus negam envolvimento em planos ou ações autoritárias.>
Além de Fux, já votaram os ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino, ambos pela condenação dos oito. O julgamento ocorre na Primeira Turma do STF, formada por cinco ministros — ou seja, se houver mais um voto pela condenação de Bolsonaro, ele será considerado culpado.>
A expectativa é que Fux conclua seu voto nesta quarta-feira e o julgamento seja retomado na quinta-feira com os votos de Cármen Lúcia e Cristiano Zanin.>
Juristas já esperavam que Fux divergiria de Moraes, devido a posições recentes adotadas pelo ministro. Ele passou, por exemplo, a considerar excessivas as penas dos condenados pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023, após ter apoiado essas condenações nos primeiros julgamentos.>
Apesar disso, advogados dos réus ouvidos pela BBC News Brasil reconheceram que o voto de Fux pela absolvição surpreendeu. Inicialmente, a expectativa era de que ele poderia votar por condenações mais brandas que Moraes.>
Outro ponto celebrado pelos advogados foi a decisão de Fux de atender a maioria das preliminares levantadas pelas defesas. As questões preliminares costumam tratar da legalidade do processo, e são analisadas antes que os ministros decidam sobre a culpa ou inocência dos réus.>
Ao analisar esses pedidos, o ministro votou, por exemplo, para que toda a ação penal fosse anulada por entender que houve cerceamento da defesa, devido à falta de tempo adequado para que os advogados analisassem o grande volume de conteúdo produzido pela investigação da Polícia Federal.>
Ele também considerou que o processo deveria ter tramitado na primeira instância judicial, e não no Supremo, e disse que isso também era um motivo para anular a ação penal.>
Moraes e Dino, porém, rejeitaram essas preliminares e votaram pela legalidade do processo. Cármen Lúcia e Zanin ainda vão se manifestar nesse ponto, mas há expectativa de que também recusem os pedidos. >
O ex-defensor público federal Caio Paiva também considerou surpreendente a postura mais branda de Fux no julgamento de Bolsonaro, típica de um "garantista" — ou seja, um juiz que dá maior peso em seus votos às garantias constitucionais dos acusados e aos argumentos das defesas.>
Coordenador do CEI, uma plataforma de cursos jurídicos, ele faz um acompanhamento sistemático de decisões dos ministros do STF e afirma que Fux é o que mais rejeita habeas corpus — recurso típico das defesas.>
"Conheço praticamente toda a jurisprudência penal do STF. Faço esse estudo há muitos anos, tanto da jurisprudência atual como de decisões mais antigas. Raramente algo relevante me escapa", escreveu na rede social X.>
"Por isso, afirmo com toda certeza: esse voto do ministro Fux representa um dos episódios mais estranhos da história do Supremo e, sem dúvida, o posicionamento mais garantista ou libertário do ministro mais rigoroso da história recente do STF. Fux elegeu o julgamento dos crimes contra a democracia para escrever uma página inédita no livro da sua história no Supremo", continuou.>
Juristas lembraram também a postura dura de Fux ao decidir sobre grandes escândalos de corrupção, como no julgamento do Mensalão (escândalo de corrupção do primeiro governo Lula) e depois em processos da Lava Jato, operação contra desvios na Petrobras e grandes obras públicas, iniciada em 2014 e que entrou em declínio a partir de 2019.>
Professor da PUC-RS, Aury Lopes Júnior listou ainda outros momentos em que Fux se posicionou por uma aplicação mais dura do direito penal, em vídeo no seu Instagram.>
Por exemplo, quando o ministro se posicionou a favor do cumprimento antecipado da pena, antes do esgotamento dos recursos, a chamada prisão em segunda instância.>
Ou quando ficou contra o chamado juiz de garantias, uma nova categoria de magistrado criada pelo Congresso para que processos criminais passem a ser julgados por um juiz diferente daquele que preside o inquérito criminal, antes da abertura da ação penal.>
O objetivo dessa divisão é garantir maior imparcialidade do juiz no julgamento, evitando que ele se "contamine" pela visão da acusação na fase de investigação.>
O professor citou ainda pesquisa do advogado David Metzker mostrando que Fux costuma negar 99% dos habeas corpus que analisa, aparecendo, ao lado de Flávio Dino, como o ministro que mais nega esses pedidos.>
"Ele não está sendo coerente com nada do que decidiu no passado. Hoje, ele teve mais divergência pró-réu, talvez, do que toda a vida", disse ainda Lopes Júnior.>
Em longa manifestação, que já dura mais de 9 horas, Fux votou para absolver Bolsonaro dos cinco crimes denunciados: organização criminosa; tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito; golpe de Estado; dano contra o patrimônio da União; e deterioração de patrimônio tombado.>
O ministro sustentou que não há provas de que o ex-presidente sabia do plano Punhal Verde e Amarelo, para matar autoridades, entre elas o presidente Lula.>
Fux afirmou ainda que Bolsonaro ter supostamente discutido a decretação de Estado de sítio após perder as eleições, em 2022, não configuraria os crimes de tentativa de abolição violenta do Estado democrático ou golpe de Estado.>
"Se então, o presidente da República aventou e discutiu a decretação do Estado de sítio ou operação de garantia da lei e ordem, nada disso saiu da mera cogitação, motivo pelo qual não é possível reconhecer a configuração do artigo 359 [do código penal, que criminaliza o golpe de Estado]", disse o ministro.>
Além disso, Fux também absolveu o ex-comandante da Marinha Almir Garnier. Na sua visão, ele não deve ser condenado por tentativa de abolição violenta do Estado democrático de Direito e de golpe de Estado, apesar de ele supostamente ter se colocado à disposição de Bolsonaro durante uma reunião com chefes das Forças Armadas em que teriam sido discutidas medidas golpistas.>
Segundo Fux, o simples fato de se colocar "à disposição" não se configura como crime.>
"Apenas afirmar que se está à disposição ou que tropas estão à disposição não corresponde a auxílio material concreto. A denúncia não imputou a Almir Garnier a conduta de ter efetivamente convocado suas tropas para permanecer de prontidão de modo a prestar auxílio futuro a evento golpe de Estado", afirmou Fux.>
Segundo a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR), Almir Garnier teria dito que estaria à disposição de Bolsonaro quando o então presidente se reuniu com outros chefes das Forças Armadas para discutir medidas de exceção após a derrota de Bolsonaro nas eleições de 2022.>
Ainda de acordo com a denúncia, Garnier teria sido o único chefe militar a supostamente aderir ao plano supostamente discutido com Bolsonaro.>
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