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Por que vilarejo britânico votou para se separar do Reino Unido

Moradores de Piddington votam sobre propostas para abrigar até 1.256 homens que solicitaram asilo nas proximidades

Publicado em 17 de Setembro de 2026 às 15:34

BBC News Brasil

Publicado em 

17 set 2026 às 15:34
Imagem BBC Brasil
Crédito: PA Media

Moradores de uma vila em Oxfordshire votaram pela independência do Reino Unido em um referendo simbólico realizado em protesto contra os planos de abrigar mais de 1.000 migrantes em uma antiga base militar.

Os moradores de Piddington, perto de Bicester, votaram nesta terça-feira sobre as propostas do Ministério do Interior, para abrigar até 1.256 homens que solicitaram asilo na base próxima do Ministério da Defesa (MoD) em Bicester.

O referendo foi organizado pelo conselho paroquial e, dos 312 votos registrados, 285 votaram pela saída, 26 votaram contra e uma cédula foi anulada.

A secretária de Cultura, Lisa Nandy, disse ao programa BBC Breakfast que o governo não reconsideraria a proposta de abrigar os migrantes.

Os 350 moradores de Piddington foram convidados a depositar seus votos em uma pequena urna do lado de fora do salão comunitário da vila.

Ao anunciar o resultado, a vice-presidente do conselho paroquial, Susannah Parden, disse: "Nós somos Piddington, a vila que ruge."

O presidente do conselho paroquial, Tim McNally, acrescentou: "Este é um exemplo da democracia em funcionamento. Entramos neste salão comunitário como azarões — tínhamos uma ideia ousada. Enviamos uma mensagem ao mundo."

O primeiro-ministro Andy Burnham disse que entendia a "força do sentimento" da população da vila, mas afirmou que era preciso haver justiça na distribuição pelo país.

"A única coisa a fazer é reduzir os números, reduzir o número de travessias", disse. "E eles caíram significativamente. Agora estão no nível mais baixo em sete anos.

"Também assumimos o compromisso com as pessoas de acabar com o uso de hotéis para abrigar refugiados e solicitantes de asilo, e esse compromisso precisa ser cumprido. Acho que a grande maioria das pessoas diz: 'sim, isso realmente precisa avançar'.

"Portanto, isso envolve decisões difíceis, muito difíceis. Trata-se de garantir justiça em todo o país. Não estou dizendo que apenas uma parte do país ou um grupo de comunidades deva fazer todo o trabalho."

O secretário de Estado-sombra do Interior, no entanto, disse que o resultado da votação em Piddington foi um "alerta" para o governo

Chris Philip, que visitou a vila no início desta semana, disse que ela estava "enviando uma mensagem em nome de todo o país".

"O país inteiro está cansado de imigrantes ilegais terem permissão para entrar no nosso país e serem acomodados, seja em hotéis, apartamentos ou instalações militares", acrescentou.

Nandy disse que reconsiderar o plano para a base do Ministério da Defesa em Bicester não seria justo.

"A alternativa seria pedir às comunidades que já viram sua população local quadruplicar que assumam uma parcela ainda maior da responsabilidade — e acho isso profundamente injusto", disse.

Ela também afirmou que Piddington "não é, na verdade", um caso incomum, acrescentando: "No meu distrito eleitoral, há determinadas ruas onde isso aconteceu com a comunidade."

E acrescentou que o governo estava ouvindo os ativistas de Piddington.

"Eu realmente entendo que, quando são feitas mudanças que afetam sua comunidade, isso pode ser muito angustiante.

"Recebemos uma enorme fila de pedidos de asilo, estamos processando as solicitações muito mais rapidamente e estamos removendo pessoas que não têm o direito de permanecer aqui. As travessias de pequenas embarcações caíram neste verão pela primeira vez em muitos anos devido às medidas que adotamos."

"Enquanto colocamos ordem no caos do sistema de asilo que herdamos, precisamos garantir que cumpramos nossas obrigações e abriguemos as pessoas que vêm para este país em busca de segurança."

'Nossa vida será destruída'

Mulheres da vila disseram que "nossa vida será destruída" se os planos forem adiante.

Mais de 130 moradoras escreveram para todas as parlamentares mulheres para compartilhar suas preocupações.

"Como mulheres, vocês entenderão os graves riscos aos quais isso nos exporia. Nossa segurança, nossa proteção e nossas liberdades estarão ameaçadas."

"Não nos sentiremos seguras andando pelas nossas ruas", disseram.

Políticos locais e organizações de caridade disseram estar "atônitos" com as propostas do governo e afirmaram que o local não é adequado para esse tipo de uso.

Hari Reed, da organização de caridade Asylum Welcome, com sede em Oxfordshire, disse: "Eles [os solicitantes de asilo] ficarão distantes do tipo de apoio de que normalmente precisam, e isso colocará uma carga adicional sobre os serviços públicos que existem para atendê-los."

Christina Gower, moradora de Piddington, de 26 anos, disse estar decepcionada por os moradores terem precisado fazer algo "tão drástico e desesperado" para chamar a atenção do primeiro-ministro. Ela acrescentou que ele seria bem-vindo para tomar uma xícara de chá com eles e discutir a questão.

Ela disse: "Você vê esse tipo de coisa na televisão, em frente à Downing Street, número 10, não na pequena e determinada Piddington, no meio de Oxfordshire.

"Não faz sentido, mas então penso que isso é um símbolo para o restante do Reino Unido, e acho que os moradores de Piddington estão muito orgulhosos de conseguir fazer algo tão inusitado, fora de lugar e realmente impactante."

Ian Darby disse ter ficado "extremamente emocionado" ao ouvir o resultado ser anunciado.

O homem de 63 anos disse: "Nunca vi uma comoção da imprensa como essa em torno de uma pequena vila. É realmente extraordinário."

Ele acrescentou que isso fez a vila pensar: "Uau, nossa voz pode ser ouvida."

Imagem BBC Brasil
Uma placa com os dizeres 'Principado de Piddington' foi colocada na entrada da vila de Piddington Crédito: PA Media

Joe Marshall, conselheiro paroquial de Piddington, disse que a vila poderia eleger líderes para seu novo "principado" e até criar carteiras de identidade.

Questionado sobre até onde a campanha pela independência poderia chegar, Marshall disse que isso dependeria de quanto o governo estaria disposto a ouvir.

Ele acrescentou que o principal objetivo era incentivar outras comunidades insatisfeitas com decisões locais "a fazer algo semelhante".

Ele citou o Principado de Sealand como inspiração — uma antiga plataforma militar no mar, ao largo de East Anglia, que se declarou um território independente em 1967.

O Home Office, o Ministério do Interior britânico, anunciou os planos em junho como parte de propostas mais amplas para retirar migrantes dos hotéis.

Conhecido como "Site A", o MoD Bicester está localizado entre as vilas de Piddington e Upper e Lower Arncott.

Em 2005, o local foi alvo de planos semelhantes para a criação de um centro de acomodação para solicitantes de asilo, que foram abandonados pelo então governo trabalhista.

O anúncio deste ano provocou críticas generalizadas, inclusive por parte do conselho distrital e de grupos de direitos humanos, enquanto muitos moradores expressaram choque.

Tim Beader, líder do Conselho do Condado de Oxfordshire, disse que os ativistas fizeram um trabalho incrível ao chamar a atenção para suas preocupações com o centro de acolhimento de solicitantes de asilo proposto.

"É em parte uma questão relacionada à própria proposta e, em parte, à forma como o governo conduziu o processo sem dialogar com a comunidade local ou avaliar a viabilidade deste local", disse.

"É o local errado para as comunidades locais, para os próprios solicitantes de asilo e para o contribuinte."

Piddington faz parte do distrito eleitoral do deputado liberal-democrata por Bicester, Calum Miller. Ele havia dito anteriormente que os planos estavam "envoltos em segredo" e que o processo não garantia a participação pública "além de uma lista restrita de órgãos previstos em lei".

No entanto, no início deste mês, o governo publicou um pedido de aprovação para um empreendimento urgente da Coroa.

Uma consulta pública sobre os planos está em andamento até a meia-noite de 17 de setembro.

Miller classificou a consulta como uma "vitória clara para a democracia local e para cada morador que se recusou a ser excluído de uma decisão com consequências profundas para nossas comunidades".

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