Publicado em 23 de outubro de 2025 às 14:32
As notícias sobre uma cúpula iminente entre os líderes dos Estados Unidos e da Rússia foram amplamente exageradas.>
Dias depois de Donald Trump afirmar que, "em duas semanas, mais ou menos", se reuniria em Budapeste com o presidente russo, Vladimir Putin, o encontro foi suspenso por tempo indeterminado. >
Além disso, uma reunião preliminar, que envolveria os principais diplomatas das duas nações, também foi cancelada.>
"Não quero ter uma reunião desperdiçada", disse Trump a jornalistas na Casa Branca, na tarde de terça-feira (21/10). >
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"Não quero perder tempo, então vou ver o que acontece.">
O vaivém da cúpula é o episódio mais recente nos esforços de Trump para intermediar o fim da guerra na Ucrânia. O tema ucraniano voltou ao centro da agenda do presidente americano após ele ter negociado um cessar-fogo e um acordo de libertação de reféns em Gaza.>
Nesta quarta (22/10), os Estados Unidos anunciaram novas sanções contra as duas maiores empresas petrolíferas da Rússia, a Rosneft e a Lukoil, em mais um esforço para pressionar Moscou a negociar um acordo de paz na Ucrânia.>
"Cada vez que eu falo com Vladimir, temos boas conversas, mas elas não levam a lugar nenhum", afirmou Trump.>
"Simplesmente senti que era a hora. Esperamos muito tempo", disse o presidente americano no Salão Oval, após uma reunião com o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Mark Rutte, para discutir as negociações de paz.>
Mesmo que o impacto econômico para a Rússia deva ser mínimo, a medida representa uma grande mudança na política externa de Trump, que anteriormente havia declarado que não imporia sanções até que os países europeus deixassem de comprar petróleo russo. O Kremlin afirmou que a Rússia é "imune" às sanções.>
Steve Rosenberg, editor de Rússia da BBC News, afirma que Trump abandona a conciliação e empunha o bastão contra Putin nas negociações sobre a Ucrânia com as sanções às petrolíferas russas.>
"É improvável que isso force Putin a uma guinada na guerra. Mas é um sinal da frustração de Trump com a falta de disposição do Kremlin em fazer concessões ou compromissos para encerrar os combates na Ucrânia", diz Rosenberg.>
Na semana passada, o Reino Unido aplicou um pacote de sanções semelhante à Rosneft e à Lukoil.>
Os russos não reagiram bem às sanções. >
"Os EUA são nosso inimigo, e seu falastrão 'pacificador' agora trilha abertamente o caminho da guerra contra a Rússia", escreveu o ex-presidente Dmitry Medvedev nas redes sociais. "As decisões tomadas são um ato de guerra contra a Rússia.">
Isso não significa que o Kremlin não queira paz, afirma Rosenberg. "Quer. Mas apenas nos seus termos. E, neste momento, esses termos são inaceitáveis para Kiev e, ao que tudo indica, para Washington.">
Na reunião na Casa Branca na quarta, era esperado que o secretário-geral da Otan discutisse com Trump um plano de 12 pontos formulado pelos aliados europeus da Otan e Kiev, que prevê o congelamento das atuais linhas de frente, o retorno de crianças deportadas e a troca de prisioneiros.>
O plano também inclui um fundo de recuperação para a Ucrânia e o planejamento de um caminho claro para a Ucrânia ingressar na União Europeia, além de maior ajuda militar a Kiev e pressão econômica sobre Moscou.>
Enquanto isso, mais cedo naquele mesmo dia, a Rússia lançou um intenso bombardeio contra a Ucrânia que matou pelo menos sete pessoas, incluindo crianças.>
Na semana passada, enquanto celebrava no Egito o acordo de cessar-fogo em Gaza, Trump se dirigiu a Steve Witkoff, seu principal negociador diplomático, com um novo pedido: "Temos que resolver a questão da Rússia".>
No entanto, as circunstâncias que se alinharam para viabilizar um avanço de Witkoff e sua equipe em Gaza podem ser difíceis de reproduzir no conflito ucraniano — uma guerra que se estende por quase quatro anos.>
Segundo Witkoff, o ponto decisivo para o acordo foi a decisão de Israel de atacar negociadores do Hamas no Catar. A ação irritou aliados árabes dos EUA, mas deu a Trump margem para pressionar o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, a firmar um acordo.>
Trump se beneficiou de um longo histórico de apoio a Israel que remonta ao seu primeiro mandato, incluindo a mudança da embaixada americana para Jerusalém, a mudança da posição americana sobre a legalidade dos assentamentos israelenses na Cisjordânia e, mais recentemente, o apoio à campanha militar israelense contra o Irã.>
Na verdade, o presidente americano é mais popular entre os israelenses do que o próprio Netanyahu, uma posição que lhe garantiu influência única sobre o líder de Israel.>
Somam-se a isso os laços políticos e econômicos de Trump com atores árabes importantes na região, o que lhe conferiu um vasto poder diplomático para forçar um acordo.>
Na guerra da Ucrânia, diferentemente, Trump tem bem menos influência. Nos últimos nove meses, o presidente americano tem oscilado entre tentativas de pressionar tanto Putin quanto Zelensky, mas com pouco efeito aparente.>
Trump ameaçou impor novas sanções às exportações russas de energia e fornecer à Ucrânia novos armamentos de longo alcance.>
Mas reconheceu que essas medidas poderiam desestabilizar a economia global e ampliar o conflito.>
Enquanto isso, criticou publicamente o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, cortando temporariamente o compartilhamento de informações de inteligência e o envio de armas ao país. Trump, porém, recuou diante da preocupação de aliados europeus, que alertam que um colapso ucraniano desestabilizaria toda a região.>
Trump costuma exaltar sua habilidade de negociar e fechar acordos, mas suas reuniões presenciais com Putin e Zelensky pouco avançaram rumo a uma resolução da guerra.>
É possível que Putin esteja usando o desejo de Trump por um acordo, e sua crença em negociações cara a cara, como uma forma de influenciá-lo.>
Em julho, Putin concordou em participar de uma cúpula nos EUA (15/08) justamente quando parecia provável que Trump aprovaria um pacote de sanções do Congresso, apoiado por senadores republicanos. O projeto legislativo foi, então, paralisado.>
Na semana passada, enquanto avançavam informações de que a Casa Branca avaliava entregar mísseis Tomahawk (capazes de voar a baixa altitude e atingir alvos em longa distância) e baterias do sistema antiaéreo Patriot (usadas para interceptar mísseis inimigos) à Ucrânia, Putin ligou para Trump, que então mencionou a possibilidade de uma cúpula na Hungria.>
No dia seguinte (17/10), Trump recebeu Zelensky na Casa Branca, mas a reunião terminou sem acordo após um encontro relatado como tenso.>
O presidente americano insistiu que não estava sendo manipulado por Putin.>
"Sabe, fui manipulado pelos melhores ao longo da vida, eu me saí muito bem", disse.>
Mas o líder ucraniano observou a sequência dos fatos: "Assim que a questão do [armamento de] longo alcance se afastou um pouco de nós, da Ucrânia, a Rússia quase automaticamente perdeu o interesse na diplomacia", afirmou.>
Em poucos dias, Trump passou de cogitar o envio de mísseis à Ucrânia a planejar um encontro com Putin na Hungria e, em seguida, pressionar em privado o presidente Zelensky a ceder todo a região de Donbas (no leste da Ucrânia, na fronteira com a Rússia), inclusive áreas ainda fora do controle russo.>
Por fim, propôs um cessar-fogo nas linhas atuais de combate, proposta rejeitada pela Rússia.>
Durante a campanha do ano passado, Trump prometeu encerrar a guerra da Ucrânia em poucas horas. Agora, admite que a tarefa é mais difícil do que esperava.>
É uma rara admissão dos limites de seu poder e da dificuldade de encontrar um caminho para a paz quando nenhum dos lados quer, ou pode, parar de lutar.>
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