"Não era como se eu estivesse mal, mas a verdade é que eu não via muito futuro", conta Villa à BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC.
Foi então que, em janeiro de 2023, aos 33 anos, ele pegou um avião e se mudou para o Reino Unido.
Villa faz parte dos quase dois milhões de colombianos que deixaram o país nos últimos quatro anos, em uma tendência que teve seu pico em 2022, mas que ainda se mantém, com um fluxo importante de emigração.
De acordo com o escritório de Migrações da Colômbia, cerca de 370 mil colombianos saíram em 2025 e não retornaram.
O fenômeno se mantém desde 2022, quando mais de 500 mil cidadãos deixaram o país, o que na época foi visto como um processo migratório incomum em comparação com os anos anteriores.
O curioso é que isso acontece em um contexto de certo bem-estar financeiro, com números macroeconômicos que muitos especialistas classificam como estáveis e positivos, apesar de um déficit fiscal preocupante e de um alto nível de informalidade no mercado de trabalho.
No fim de 2025, o produto interno bruto colombiano cresceu 2,3% em relação ao ano anterior, um índice semelhante ao crescimento do Brasil e acima do México, os dois gigantes econômicos da região.
O desemprego, por sua vez, se manteve abaixo de 9% nos últimos meses, a menor taxa em 25 anos.
Ainda assim, para muitos acadêmicos, a migração colombiana é um fenômeno que vem ocorrendo há mais de cinco décadas e que deve continuar nos próximos anos.
"Os colombianos migram há mais de 50 anos, independentemente de haver uma bonança ou estarmos em recessão. Primeiro para os Estados Unidos e Venezuela e, desde o início deste século, essa tendência passou a incluir a Espanha e o Chile", diz à BBC Mundo William Mejía Ochoa, coordenador de Pesquisas do Grupo de Mobilidade Humana da Universidade Tecnológica de Pereira.
"O que é preciso entender é que o colombiano não migra, na maioria dos casos, porque está passando fome ou porque não tem emprego. Ele emigra porque quer melhorar sua renda ou se reunir com um familiar", acrescenta.
Assim, uma das razões por trás do aumento nos números absolutos é que a rede de pessoas que podem receber novos migrantes vem se ampliando cada vez mais, especialmente nos Estados Unidos e na Espanha.
"Atualmente há quase um milhão de colombianos na Espanha, 1,2 milhão nos Estados Unidos e cerca de 200 mil no Chile. Isso, claro, atrai mais colombianos, porque facilita a migração", observa o acadêmico.
Fenômeno Schengen
Estima-se que haja quatro milhões de colombianos vivendo no exterior, enquanto a população do país chega a 52 milhões.
Além do efeito multiplicador das redes familiares e de conterrâneos, que facilita novas migrações, os especialistas também apontam que esse fenômeno é impactado pela isenção de visto para colombianos na zona Schengen, estabelecida em 2015 para estadias curtas, e no Reino Unido, desde novembro de 2022 — embora posteriormente a exigência tenha sido restabelecida em 2025.
Esse fato contribuiu para o aumento dos pedidos de asilo. Uma vez que entravam nos países europeus dentro do espaço Schengen, muitos visitantes apresentavam solicitações de proteção para estender sua permanência.
De acordo com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), a Colômbia é o terceiro país, atrás da Venezuela e do Sudão, com o maior número de cidadãos com pedidos de asilo no mundo.
Embora muitas dessas solicitações estejam relacionadas às consequências do grave conflito armado que o país viveu durante cinco décadas, também foram registrados casos de irregularidades e abusos.
Governos da Europa e do Reino Unido denunciaram casos irregulares que buscam se aproveitar do acesso sem exigência de visto para depois se apresentarem como pedidos de refúgio.
É por esse motivo que o governo britânico decidiu, em 2025, cancelar o benefício da isenção de visto para os colombianos. Já o governo espanhol anunciou em dezembro do ano passado que classificou a Colômbia como um "país seguro", com o objetivo de reduzir os pedidos de proteção internacional.
Embora o governo colombiano tenha implementado programas de repatriação e retorno (especialmente a Lei 1.565 de 2012, que prevê diferentes planos de volta ao país), essas iniciativas não tiveram o efeito de promover um retorno em massa dos colombianos à sua terra natal.
A 'explosão' de 2022
Para os colombianos, migrar tem sido uma atividade constante e, sobretudo, diversa.
"Temos feito isso desde camponeses e mão de obra, estudantes e professores, até pessoas para abrir rotas do narcotráfico, para trabalhar como mercenários, para criar os famosos 'gota a gota' (fornecedores de crédito informal) em outros países. De tudo", afirma Mejía Ochoa.
Entre 2012, ano em que começaram a ser feitos os registros, e 2019, o fluxo migratório alcançou uma média de 150 mil a 200 mil pessoas por ano. E, segundo as análises, o motivo mais comum era a busca por um futuro melhor.
Entre 2020 e 2021, devido à pandemia de coronavírus e às restrições de voos, esses números caíram de forma significativa. No entanto, com a retomada das viagens, em 2022 ocorreu um fenômeno migratório que atingiria números recordes: mais de meio milhão de pessoas em 12 meses.
Em menos de dois anos, entre 2022 e 2023, e de acordo com dados da Migração Colômbia, cerca de um milhão de colombianos deixaram o país para não retornar, o que é conhecido como "migração líquida". 2022 foi o ano em que mais colombianos deixaram sua terra na história: 540 mil emigrantes.
"Não se pode negar que a pandemia teve um efeito devastador no país, não apenas no aspecto econômico, mas também social, mas não é a única razão para a explosão desses números", afirma Mejía.
De acordo com vários organismos nacionais, como o Banco da República, os efeitos da pandemia de covid-19 foram muito negativos no plano econômico: o PIB registrou um resultado negativo (-6,8%), a pobreza chegou a 47% e o desemprego atingiu um máximo histórico de 21%.
Mas, além do mal-estar econômico geral que impulsionou a saída assim que as medidas de confinamento foram suspensas, os pesquisadores apontam que, por trás do pico migratório de 2022, também houve um grande número de pessoas que haviam retornado ao país durante a pandemia e decidiram sair novamente.
"Durante 2020 e 2021, estima-se que tenham retornado ao país, devido a um programa oferecido pelo governo, dezenas de milhares de colombianos e, entre eles, uma vez que a pandemia terminou, um bom número decidiu voltar aos países para os quais haviam emigrado originalmente", afirma Mejía.
A isso soma-se o fato de que a situação econômica do momento fortaleceu moedas estrangeiras como o dólar, o euro e a libra esterlina frente ao peso colombiano.
Novo perfil
Para alguns dos imigrantes entrevistados pela BBC Mundo para esta reportagem, as razões por trás da sempre complexa decisão de migrar são muito diversas, muitas das quais não têm relação com a situação econômica do país.
Laura Juliana Melo decidiu deixar a Colômbia em 2022 rumo à Espanha por uma razão: seu irmão.
"Se eu for procurar razões, talvez a principal seja que meu irmão me disse para eu vir. Eu tinha emprego na Colômbia. Nunca passou pela minha cabeça morar na Espanha", conta Melo à BBC Mundo.
Ela é de Bucaramanga, no norte do país. Embora tenha enfrentado alguns problemas, acredita que foi uma boa decisão.
"Não me arrependo", afirma.
O professor Mejía Ochoa projeta que o movimento migratório de colombianos para o exterior deve continuar de forma estável nos próximos anos e pode até aumentar em termos de números anuais.
"Atualmente está em andamento um processo de regularização de migrantes na Espanha que vai fazer com que muitos mais migrantes obtenham residência ou cidadania naquele país e na Europa", observa.
Daniel Arango, acadêmico e comunicador, faz parte desse grupo de migrantes que deixou o país após 2022. As razões foram familiares, mas ele sente que será difícil retornar à Colômbia no curto prazo, agora que conseguiu a cidadania espanhola.
"Eu tinha um bom trabalho na Colômbia e aqui tive desafios nesse sentido, mas agora consegui organizar tudo para que funcione, então não acho que vou voltar tão cedo e acredito que isso acontece com muitas pessoas aqui", explica.
Embora muitos deles não classifiquem a situação econômica que tinham no país de origem como difícil, o fato é que, nos novos destinos, encontraram uma estabilidade que não tinham em casa.
"Sei que a experiência não é igual para todos, mas eu vim a Londres para estudar e aqui consegui um emprego onde ganho muito mais do que ganhava na Colômbia com muito esforço, acho que essa é a diferença", conta à BBC Mundo Dayana Peña, que também emigrou em 2022.
Peña é administradora de empresas, profissão que exerceu por 10 anos, e também representa uma tendência observada nos fluxos migratórios de colombianos.
Para muitos especialistas, a migração deixou de ser predominantemente não qualificada — em que muitas pessoas não tinham nem o ensino médio completo — e passou a ser muito mais profissional.
"Hoje é uma emigração de nível educacional mais alto, em que continuam sendo as mulheres as que mais emigram", explicou ao portal DW o sociólogo colombiano Fernando Urrea, da Universidade do Valle.
Essa profissionalização fez com que, embora Estados Unidos e Espanha sejam os principais destinos, países como Alemanha, Nova Zelândia, Austrália e, em casos mais recentes, a Polônia, também tenham se tornado centros de recepção de colombianos no exterior.