Publicado em 9 de setembro de 2024 às 16:02
Os incêndios que se alastraram pelo interior de São Paulo, cobrindo o céu de muitas cidades e causando pânico e evacuações, chamou atenção para o uso do fogo nas chamadas queimas controladas da agricultura.>
A situação é bastante comum no cultivo de cana-de-açúcar — os recentes incêndios atingiram principalmente os canaviais, queimando 100 mil hectares de lavouras e causando um prejuízo milionário aos produtores.>
Os questionamentos se intensificaram quando um vídeo que mostra essa prática viralizou nas redes sociais.>
Nas imagens, funcionários da usina da Delta Sucroenergia colocam fogo em uma plantação de cana.>
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Até o dia 8 de setembro, 6,2 mil focos de incêndio foram registrados no Estado de São Paulo, sendo a maioria deles (pouco mais de 2,6 mil) em um só dia, 23 de agosto. É o maior desde 1998, quando o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) começou a fazer este tipo de levantamento.>
A Delta refutou as acusações levantadas em redes sociais ao dizer que a queima havia sido feita em maio no interior de Minas Gerais, reforçou que a prática está prevista em lei e que toma medidas contra a propagação de incêndios nas plantações de cana.>
“As autoridades ambientais, cientes do vídeo, estiveram no local e não constataram irregularidades”, disse a empresa em nota.>
Esse tipo de queima controlada da palha da cana-de-açúcar ainda é realizada no Brasil, principalmente no Nordeste.>
Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, a técnica é usada quando o terreno de cultivo é mais acidentado, o que impede o uso de máquinas para a colheita.>
Também ajuda a aumentar a produção e reduz a carga de trabalho para quem colhe a cana manualmente.>
Mas isso só pode ser feito em épocas e condições meteorológicas específicas, com autorização e sob a fiscalização de autoridades.>
Essa prática na agricultura e na pecuária é regulamentada pelo decreto federal 2.661, de 1998, e defina a queima controlada como "o emprego do fogo como fator de produção e manejo em atividades agropastoris ou florestais, e para fins de pesquisa científica e tecnológica, em áreas com limites físicos previamente definidos".>
No caso dos canaviais, a queima é usada antes da colheita para limpar as folhas secas e verdes, deixando a cana-de-açúcar limpa e adequada para ser cortada manualmente para então ser transportada e moída.>
A queima está muito associada ao relevo de onde estão os canaviais. Ela é permitida onde o terreno é acidentado, o que não permite usar máquinas para fazer a colheita.>
O uso do fogo para eliminar a palha facilita a colheita manual, aumenta a quantidade de cana que um trabalhador consegue cortar diariamente e reduz o esforço físico necessário.>
O mesmo decreto que autoriza a queima estabelece que ela deve ser gradativamente eliminada onde o terreno não é tão inclinado e é possível mecanizar a colheita.>
Mas há exceções. >
"As lavouras de até 150 hectares, fundadas em cada propriedade, não estarão sujeitas à redução gradativa do emprego do fogo", detalha outro trecho do documento.>
Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apontam que 93% da colheita de cana no país é mecanizada, sendo a região Nordeste a que apresenta o menor índice.>
A reportagem da BBC News Brasil procurou o Ministério da Agricultura para falar sobre a queima da palha da cana-de-açúcar no Brasil, porém não obteve retorno até a publicação da reportagem.>
Isso quer dizer que áreas com terrenos planos como as do Estado de São Paulo, por exemplo, as queimadas da palha da cana-de-açúcar não devem ser feitas e já são proibidas, sendo a colheita 100% mecanizada, segundo o setor.>
No entanto, em outras regiões do país onde o relevo é irregular, como Pernambuco, por exemplo, essa queima ainda é feita na maioria dos canaviais.>
No Nordeste, apenas 30% da colheita da cana-de-açúcar é feita de maneira mecanizada, segundo Gerson Carneiro Leão, presidente do Sindicato dos Cultivadores de Cana-de-Açúcar de Pernambuco (Sindicape). Segundo ele, o principal motivo da baixa mecanização é o relevo.>
"Nosso re1levo não é plano como em outros lugares do Brasil e as máquinas não conseguem fazer o corte por causa dessa irregularidade", diz Leão.>
"Existem empresas chinesas que estão criando máquinas para atuar em relevo com até 40% de inclinação e isso vai ajudar na colheita no nosso Estado.">
Leão explicou ainda que não há uma data para que essas máquinas cheguem ao Brasil e passem a fazer a colheita na região.>
Apesar de afirmar que a mecanização da colheita da cana-de-açúcar é mais econômica para o produtor rural, Leão também diz que o corte manual faz com que o produto tenha maior rendimento.>
"Com a máquina perde-se muita cana que cai pelo caminho ou que não é bem cortada, o rendimento do corte manual é melhor, além de a prática gerar empregos. Mas também esbarramos na falta de mão-de-obra", acrescenta.>
Além das legislações federais, Estados brasileiros têm criado regras e proibições regionalizadas para controlar a queima da palha da cana-de-açúcar, como estabelecer horários em que é possível fazer isso.>
"Antes de fazer, é necessário pedir autorização da queima controlada, que é válida por três meses", explica Jacigleide Soares, analista ambiental da Agência Estadual de Meio Ambiente de Pernambuco - CPRH.>
"Tentamos acompanhar e controlar ao máximo com fiscalização para que as regras da sejam seguidas e, desta forma, impactar o menos possível no meio-ambiente.">
No Estado, por exemplo, a queima só pode ser feita se o vento estiver com baixa intensidade, no início da manhã, no final da tarde ou à noite e em áreas com aceiros com largura mínima de três metros.>
O objetivo é que o fogo não se espalhe e a fumaça chegue o menos possível à área urbana.>
O uso de fogo também é feito por alguns produtores rurais para o manejo de pastagem e limpeza de áreas rurais, ajudando na eliminação de resíduos, pragas e ainda na renovação do pasto a curto prazo.>
Nesses casos, a queima controlada é permitida desde que haja autorização prévia dos órgãos estaduais competentes.>
Cada Estado também tem autonomia para proibir essa queima controlada nos períodos de estiagem, como fez o Pará, que decretou situação de emergência no último dia 27 por conta dos incêndios.>
Por meio de um decreto, o governador Helder Barbalho (MDB) proibiu a utilização de fogo no Estado para atividades de limpeza ou de manejo de áreas e pastagens pelos próximos 180 dias.>
No entanto, como ficou mais evidente com os incêndios sem precedentes recentes em todo o país, lavouras em chamas podem causar prejuízos.>
O procedimento de queima emite uma espécie de fuligem composta por dezenas de partículas e gases que prejudicam a saúde e o meio ambiente.>
Especificamente, a queima da palha da cana-de-açúcar pode causar, por exemplo, contaminação de solos e água, chuva ácida e danos à biodiversidade.>
A longo prazo essa queima causa prejuízos mais profundos ao solo devido à perda de matéria orgânica, que pode demorar décadas para se recuperar, segundo o professor do departamento de Solos da Universidade Federal de Viçosa, Igor Rodrigues de Assis.>
"A matéria orgânica e os microrganismos que ali vivem são fundamentais para a saúde do solo. Sem eles, as plantas passam a absorver menos nutrientes e água, fazendo com que a produtividade caia e a plantação também fique mais propensa a pragas. Um solo sem saúde vai refletir em uma população sem saúde", diz.>
A queima controlada da palha da cana-de-açúcar também traz danos à saúde da população, principalmente daquela que mora em municípios próximos aos canaviais.>
A exposição à fumaça pode causar irritação nos olhos, narinas, olhos e garganta podendo gerar problemas de saúde como por exemplo, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e agravar outras doenças respiratórias como asma e rinite alérgica.>
"Essa fumaça tem diversas partículas que quando inaladas agem como um corpo estranho em nosso organismo causando inflamações. Aquelas pessoas que não tem problemas de saúde, quando expostas podem começar a ter, inclusive problemas crônicos", explica Maria Vera Cruz, pneumologista do Serviço de Pneumologia do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual de São Paulo (Iamspe).>
Os principais poluentes emitidos durante a queima da palha da cana-de açúcar são monóxido de carbono, dióxido de enxofre, dióxido de nitrogênio e material particulado. >
A queimada do canavial liberta para a atmosfera grandes quantidades de gases como CO2, N2O e CH4, que contribuem para o efeito estufa impactando a população como um todo.>
Gases tóxicos, como monóxido de carbono e óxidos de nitrogênio, também são liberados, aumentando o risco e agravando doenças pulmonares e cardiovasculares.>
"O ideal é que as pessoas evitem ao máximo inalar esse ar. Se for possível, evitar sair de casa ou então fazer uso de máscara quando for necessário ir às ruas", diz a pneumologista.>
"Não é preciso que seja uma máscara específica, qualquer uma já ajuda a amenizar a inalação dessas partículas. Além disso, é importante beber muita água porque ela ajuda a manter as narinas hidratadas, assim como todo o restante do corpo.">
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