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Por que o novo regime do Irã é totalmente diferente do anterior

O funeral do ex-líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, é um lembrete da mudança geracional ocorrida na liderança iraniana. Mas o que desejam os novos líderes do país?

Publicado em 12 de Julho de 2026 às 07:35

BBC News Brasil

Publicado em 

12 jul 2026 às 07:35
Imagem BBC Brasil
Crédito: AFP via Getty Images
No mês passado, o presidente americano, Donald Trump, assinou um acordo de cessar-fogo com o Irã, durante um jantar no Palácio de Versalhes, em Paris, na França. Mas muitos observaram o evento como uma ironia. Seu anfitrião foi o presidente francês, Emanuel Macron.
Talvez ele quisesse garantir que o Memorando de Entendimento fosse assinado antes que Trump mudasse de ideia e pode ter imaginado que os tons dourados da Galeria dos Espelhos agradariam seu convidado.
Mas a escolha do local gerou inevitáveis comparações entre o acordo de uma página e meia assinado naquela noite e o extremamente extenso Tratado de Versalhes, assinado ao final da Primeira Guerra Mundial, em 1919.
Aquele tratado reformulou a Europa, mas suas exigências de enormes reparações deixaram a Alemanha indignada e amargurada. Elas ajudaram a preparar o cenário para outro confronto global 20 anos depois.
O acordo com o Irã é diferente em muitos aspectos. Será que ele poderia vir a ter o mesmo destino?
O frágil cessar-fogo se manteve com dificuldades até a última quarta-feira (8/7), quando Trump anunciou o seu rompimento, após uma troca de ataques envolvendo os dois países na madrugada anterior.
Após vários conflitos no estreito de Ormuz e regiões próximas, sem que nenhum dos problemas que levaram à guerra esteja perto de ser resolvido, a situação no Oriente Médio parece tão precária quanto antes.
Imagem BBC Brasil
Ali Khamenei foi enterrado após diversas cerimônias fúnebres que duraram uma semana Crédito: NurPhoto via Getty Images
Paralelamente, o Irã atravessa um profundo processo de mudanças.
O país se despede do seu antigo líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei (1939-2026), morto há mais de quatro meses durante os devastadores ataques aéreos conjuntos dos Estados Unidos e Israel que deram início à guerra, eliminando grande parte dos líderes do regime de Teerã.
Este é um momento fundamental: um importante lembrete de que a velha guarda cedeu o lugar para a nova geração. Com os novos rostos, vem um novo enfoque, com suas próprias implicações.
Os Estados Unidos e Israel podem ter enviado muitos dos antigos líderes do país prematuramente para o túmulo, mas teriam eles sido substituídos por adversários ainda mais temidos?

Reorganizando o tabuleiro de xadrez

"Esta guerra trouxe consequências muito maiores e uma envergadura superior à atribuída até agora", avalia Vali Nasr, professor de assuntos internacionais e estudos de Oriente Médio da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos.
"Todas as grandes guerras desta magnitude acabam reorganizando o tabuleiro de xadrez", explica ele. "É o que irá acontecer no Oriente Médio."
Em janeiro, o Irã foi sacudido por protestos populares. Trump e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, previram que as manifestações poderiam ser o presságio do colapso da República Islâmica.
Àquela altura, a economia iraniana já estava em pedaços, após décadas de sanções internacionais. O país também seguia gravemente debilitado, devido à Guerra dos 12 Dias contra os Estados Unidos e Israel, ocorrida seis meses antes.
O programa nuclear iraniano (que serviu, por muito tempo, de ferramenta de pressão diplomática) não havia sido aniquilado, como anunciou Trump, mas sofreu danos consideráveis.
O paradeiro exato das suas reservas de urânio era desconhecido. Calculava-se que, se fossem adicionalmente enriquecidas, elas seriam suficientes para a produção de 10 a 11 armas atômicas.
Mas o que se acreditava era que grande parte delas jazia sob os escombros, perto do complexo nuclear de Isfahan.
Além das suas fronteiras, o "Eixo da Resistência" iraniano (uma aliança flexível de grupos interpostos e aliados em todo o Oriente Médio) havia sofrido uma série de importantes reveses.
Na Síria, o regime de Bashar al-Assad, aliado próximo do Irã, desapareceu. Ele foi varrido em poucas semanas de muita agitação, no final de 2024.
No Líbano, Israel eliminou destacados membros do Hezbollah, um grupo apoiado pelo Irã, e também dizimou seus combatentes, valendo-se de pagers e walkie-talkies explosivos.
Na Faixa de Gaza, outro aliado de Teerã, o Hamas, teve destino parecido. Israel respondeu aos devastadores ataques do grupo em outubro de 2023 com uma ofensiva implacável, que arrasou grande parte da Faixa de Gaza, pondo fim à vida de dezenas de milhares de civis.
Por fim, foi a vez dos rebeldes houthis do Iêmen. Apoiados pelo Irã, eles lançaram mísseis balísticos contra Israel, em resposta à guerra em Gaza, e começaram a atacar navios no mar Vermelho.
Israel, EUA e o Reino Unido lançaram contra-ataques, alguns deles dirigidos à cúpula do grupo.
Imagem BBC Brasil
Os iranianos saíram às ruas antes do começo da guerra Crédito: Getty Images
Depois de tantos reveses internos e externos, o consenso era que o Irã se encontrava em estado de grande vulnerabilidade.
O jornal The New York Times noticiou que Trump havia recebido diversos relatórios de inteligência, indicando que aquele era o momento mais fraco do Irã desde a Revolução Islâmica de 1979.
A ideia de que Teerã poderia enfrentar os Estados Unidos e Israel até chegar a um impasse parecia absurda. Mas foi o que aconteceu.
A República Islâmica permanece de pé, graças, em parte, à sua capacidade de fechar uma das vias marítimas mais importantes do mundo (o estreito de Ormuz), estrangulando a economia global.

Vantagem para Teerã?

Trump gosta de dizer que conseguiu uma mudança de regime no Irã. Vali Nasr não o contradiz, mas afirma que isso, na verdade, jogou a favor de Teerã.
"Uma geração totalmente nova assumiu o poder", destaca ele. "Eles têm uma agenda muito clara. Eles administraram a guerra e, agora, gerenciarão também a paz."
A nova cúpula dirigente não é composta pelo tipo de pessoas que Washington costuma chamar de "ideólogos apocalípticos de mente confusa", segundo Nasr, mas por líderes, em sua maioria, da era posterior à revolução.
Eles estão implacavelmente concentrados na preservação do Estado e dispostos a agir com determinação maior que os seus predecessores.
Aos 56 anos, o novo líder supremo do país, Mojtaba Khamenei, é 30 anos mais jovem que seu pai e antecessor. Acredita-se que Ali Khamenei tivesse a saúde fragilizada quando morreu, logo no início da guerra.
O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, é mais velho. Ele tem 71 anos, mas a geração que protagonizou a revolução de 1979 já desapareceu por completo.
Duas figuras-chave ainda caminham para os 70 anos de idade: o presidente do Parlamento iraniano e negociador-chefe, Mohammad Bagher Ghalibaf, e o comandante-chefe da Guarda Revolucionária, Ahmad Vahidi.
Da mesma forma que o novo líder supremo, ambos mantêm fortes vínculos com o todo-poderoso Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI).
"São filhos da revolução", afirma Sanam Vakil, diretora do Programa de Oriente Médio e Norte da África do centro de estudos Chatham House, em Londres.
"Não há mais uma pessoa de 86 anos liderando a República Islâmica", destaca ela. "O grande freio da evolução do sistema era Ali Khamenei."
Durante décadas, o cauteloso Khamenei seguiu uma estratégia denominada, às vezes, "nem guerra, nem paz". Mas seus sucessores são mais audazes.
Eles lançaram ataques contra bases militares americanas na região e, poucas semanas depois, já estavam dispostos a se sentar para negociar o fim das hostilidades — em termos que, à primeira vista, estão longe de serem humilhantes para Teerã.
"Eles demonstraram sua disposição de travar guerras de forma muito mais agressiva do que a geração anterior", afirma Nasr.
Quando Trump ordenou o ataque aéreo que pôs fim à vida do ex-comandante da Guarda Revolucionária, Qasem Soleimani (1957-2020), o Irã anunciou deliberadamente sua intenção de realizar represálias, até lançar 12 mísseis balísticos contra bases americanas no Iraque.
Não houve baixas entre os militares americanos.
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A morte do aiatolá Ali Khamenei trouxe mudanças internas e internacionais Crédito: AFP via Getty Images
Neste ano, frente a uma ofensiva total por parte dos Estados Unidos e Israel, o Irã não demonstrou essa mesma contenção.
Teerã lançou ataques com drones e mísseis contra diversas bases americanas na região. Elas incluíram a sede da Quinta Frota dos Estados Unidos no Bahrein e a base aérea de al-Udeid, no Catar.
Seis soldados americanos foram mortos no Kuwait e centenas ficaram feridos durante os combates.
A disposição do Irã de atacar os aliados dos Estados Unidos no Golfo Pérsico, interromper o tráfego marítimo e fechar o estreito de Ormuz também parecem ter tomado a Casa Branca de surpresa.
Por décadas, Washington tentou conter Teerã por meio da sua rede de instalações militares e suas relações cada vez maiores com os países do Golfo.
Mas a resposta contundente do Irã aos ataques israelenses e americanos indicou que esta estratégia deixou de funcionar.
"Muitos destes países esperavam que as bases militares americanas no seu território oferecessem segurança, não que os transformassem em alvos", avalia Ali Vaez, diretor do projeto sobre o Irã do centro de estudos International Crisis Group.
"Os Estados do Golfo, agora, questionam a credibilidade do guarda-chuva de segurança americano e sua própria estratégia de dissuasão", segundo ele.
Relatórios indicam que a maior parte dos países do Golfo está sondando o terreno com o Irã, para tentar reparar as relações com seu perigoso vizinho.
Citando um diplomata anônimo, a agência de notícias AFP chegou a noticiar que a Arábia Saudita se preparava para realizar uma "cúpula de reconciliação", que reuniria o Irã e os vizinhos dos sauditas no Golfo.
A Arábia Saudita restabeleceu relações diplomáticas com Teerã em 2023, após décadas de inimizade.
Mas, apesar de toda a sua indignação ao se verem capturados em meio a uma guerra que eles não desejavam e tentaram evitar a todo custo, Vaez duvida que alguém esteja disposto a romper seus vínculos com o Exército americano.
"Eles dependem muito dos Estados Unidos para romper completamente os acordos de segurança", afirma ele. "Eles podem tentar diversificar suas opções, mas, no final das contas, não têm mais a quem recorrer."
Sem buscar grandes paralelos históricos, Vaez qualifica a situação atual de "momento maleável", carregado de possibilidades, enquanto antigos adversários contemplam um novo tipo de relações.
"Percebo certo grau de realismo que não existia no passado", destaca ele.
Mas onde está o povo iraniano?

Os novos pragmáticos

Em janeiro, Trump prometeu aos cidadãos iranianos que "a ajuda estava a caminho". E, ao iniciar a guerra, em 28 de fevereiro, ele foi ainda mais explícito. "Quando terminarmos, assumam o controle do seu governo", recomendou ele. "Será de vocês."
Até o momento, estas promessas se mostraram ilusórias. Teerã pode ter uma nova geração no comando, mas ela ainda não ofereceu ao seu povo a perspectiva de um futuro mais livre e próspero.
Considerando que o regime está totalmente preocupado com a própria sobrevivência, a analista Aniseh Bassiri Tabrizi, da Chatham House, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, não espera observar um enfoque diferente em relação aos dissidentes. "Eles manterão um enfoque muito forte nas ruas", afirma ela.
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Trump convocou o povo iraniano a tomar o governo ao término da guerra Crédito: VCG via Getty Images
Mas, como o jihab não é mais obrigatório fora das instituições estatais, mesmo antes da guerra, e com o álcool discretamente disponível nos restaurantes de Teerã, existem também sinais de que o regime pode estar deixando gradualmente de lado alguns dos seus velhos tabus.
Para Vali Nasr, tudo é impulsionado pela necessidade de restaurar a fé no Estado iraniano. "Eles tomaram a decisão pragmática de que a sua raison d'état (a razão do Estado) exige a flexibilização destes pontos", explica ele.
Depois da comoção gerada pelo derramamento de sangue em massa, em janeiro, o regime demonstrou que consegue, pelo menos, proteger a soberania do país.
Para os iranianos, a guerra foi profundamente confusa.
O horror frente à brutalidade do regime gradualmente deu lugar a outro tipo de horror, à medida que as bombas americanas e israelenses caíam sobre o seu país, matando civis e danificando infraestrutura vital.
A morte de dezenas de crianças em uma escola primária da cidade de Minab, no primeiro dia da guerra, fez com que alguns se perguntassem quem era o verdadeiro inimigo. Afinal, apesar de prometerem libertá-los, Israel e os Estados Unidos pareciam decididos a destruir o país.
Mas, depois de enfrentar o poder combinado dos Estados Unidos e de Israel, os novos líderes iranianos poderão capitalizar esta oportunidade potencialmente fugaz de reconstruir a abalada legitimidade do regime?
"Esta é uma espécie de momento 'China depois de Mao'", explica Vaez, "no sentido de que o sistema, como um todo, reconhece que tem que ceder em algum ponto. Esta nova liderança entende que precisa de um novo contrato social."
A questão é se eles conseguirão atingir este objetivo.
Agora, mais do que nunca, a elite do CGRI governa o Irã, enquanto um grande número de jovens formados, ainda afligidos pela perda de milhares dos seus amigos na sangrenta repressão de janeiro, sentem que não têm voz ativa para determinar o futuro do país.
Este é um ponto de inflexão, com o Irã em equilíbrio precário entre velhas certezas e possibilidades futuras, dentro do país e no exterior.
Mesmo com uma série de enfrentamentos no Golfo Pérsico, Teerã optou por um processo diplomático com os Estados Unidos que poderá resultar no que o vice-presidente americano, J.D. Vance, já chamou de "relação fundamentalmente transformada".
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O Irã foi devastado pelos ataques aéreos dos Estados Unidos e de Israel Crédito: Getty Images
Frente à tentadora perspectiva de um alívio das sanções, em troca de concessões nucleares, a capacidade do regime iraniano de gerenciar a economia poderá ajudar a restaurar sua maltratada reputação interna.
Desde a assinatura do Memorando de Entendimento, o Irã já se beneficiou de isenções às sanções americanas, permitindo ao país exportar petróleo e derivados por 60 dias.
Poderiam surgir outras formas de alívio durante o período de negociação de 60 dias, incluindo o descongelamento de bilhões de dólares em ativos iranianos. E, quando se chegar ao acordo definitivo, poderá vir o prêmio maior: a suspensão de todas as sanções internacionais.
O memorando também faz referência à criação de um plano de "reconstrução e desenvolvimento", avaliado em US$ 300 bilhões (cerca de R$ 1,5 trilhão), embora não se saiba ao certo quem irá financiá-lo.
Em conjunto, esses incentivos econômicos representam um fator poderoso para que os novos líderes do Irã cheguem a um acordo.
Sanam Vakil concorda que a região enfrenta "uma janela de oportunidade", mas se mostra cautelosa. "Existe um cenário possível no qual não se chega a um acordo, isso se prolonga indefinidamente, o presidente Trump perde a paciência e diz: 'bem, está na hora do terceiro assalto'."
Nenhum dos especialistas com quem conversei acredita que o futuro esteja garantido.
Décadas de relações tortuosas entre o Irã, seus vizinhos do Oriente Médio e os Estados Unidos deixaram um legado tóxico, caracterizado por profundas suspeitas e falta de confiança quase absoluta.
Não faltam motivos para o fracasso: desacordos sobre o programa nuclear iraniano, o futuro do estreito de Ormuz, a guerra no Líbano e as arraigadas posturas dos setores mais intransigentes de todas as partes.
Após três meses de convulsão, a região começa a mudar de aspecto. Mas muitas coisas devem sair bem para que este momento, ainda instável, possa se consolidar em algo melhor.

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