Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

  • Início
  • Mundo
  • Por que o Golfo Pérsico tem mais petróleo do que qualquer outro lugar do planeta?
Mundo

Por que o Golfo Pérsico tem mais petróleo do que qualquer outro lugar do planeta?

A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã voltou a destacar a riqueza de hidrocarbonetos da região, que hoje está no centro de uma crise energética global.

Publicado em 18 de Abril de 2026 às 08:33

BBC News Brasil

Publicado em 

18 abr 2026 às 08:33
Imagem BBC Brasil
Existem mais de 30 campos de petróleo supergigantes ao redor do Golfo Pérsico Crédito: Getty Images
Costuma-se dizer que os países do Golfo Pérsico são simultaneamente abençoados e amaldiçoados por suas vastas reservas de petróleo e gás.
Ao longo de milhões de anos, forças geológicas fizeram da região um polo energético global, o que explica por que uma guerra como a atual pode desencadear uma crise energética mundial.
Como geólogo do petróleo que estudou a área, ainda me surpreendo com a dimensão de seus depósitos de hidrocarbonetos. Há, por exemplo, mais de 30 campos supergigantes, cada um com 5 bilhões ou mais de barris de petróleo bruto, ao redor do Golfo Pérsico.
Os poços na região produzem entre duas e cinco vezes mais petróleo por dia do que até mesmo os melhores poços do Mar do Norte e da Rússia.
A geociência moderna identificou diversos fatores-chave nas rochas que tornam uma região particularmente rica em petróleo, incluindo sua capacidade de gerar e reter hidrocarbonetos.
Na região do Golfo Pérsico, todos esses fatores estão presentes em níveis ideais ou próximos disso.
Por sua enorme abundância e facilidade de produção, a região é, simplesmente, incomparável.

Uma breve história

Os humanos já conheciam a presença de hidrocarbonetos na região muito antes de as inundações formarem o golfo Pérsico, no final da última Idade do Gelo, entre 14 mil e 6 mil anos atrás.
Exsudações naturais de petróleo e gás são frequentes ao longo de rios e vales em diversas partes da região.
Milhares de anos antes da Era Comum (período posterior a Cristo), populações utilizavam o betume, um tipo de petróleo pesado, para produzir argamassa e impermeabilizar embarcações.
A primeira descoberta moderna de petróleo ocorreu em 1908, em um conhecido ponto de exsudação no oeste do Irã.
Nas décadas de 1950 e 1960, período de rápida expansão da exploração de petróleo e gás, ficou evidente que nenhuma outra região do planeta apresentaria tamanha abundância.
Imagem BBC Brasil
Uma foto em preto e branco mostra a construção de uma torre rudimentar de extração de petróleo em uma região desértica, com cerca de dez pessoas ao redor Crédito: Getty Images
Outras áreas com enormes volumes de petróleo e gás foram descobertas, como o oeste da Sibéria, na Rússia, e, mais recentemente, a bacia do Permiano, nos EUA, mas nenhuma se compara à magnitude das reservas no Golfo Pérsico nem ao alto rendimento com que o petróleo e o gás podem ser produzidos na região.

Cenário geológico

A região do Golfo Pérsico está situada no ponto de encontro de duas placas tectônicas: a placa Arábica, ao sul, e a placa Eurasiática, a leste e ao norte.
Essa colisão aconteceu há cerca de 35 milhões de anos e resultou em um cenário dinâmico, no qual as camadas rochosas foram dobradas e fraturadas e, em níveis mais profundos, transformadas por intenso calor e pressão.
As características geológicas diferem significativamente entre os dois lados do golfo. No lado iraniano, a cordilheira de Zagros se estende por cerca de 1,8 mil km, do Golfo de Omã até a fronteira com a Turquia.
Parte do grande sistema alpino-himalaio, a Cordilheira de Zagros é formada por rochas intensamente dobradas e fraturadas, criadas nos últimos 60 milhões de anos pelas colisões das placas da África, Arábia e Índia com a Eurásia.
Imagem BBC Brasil
Os vales e cristas das montanhas de Zagros evidenciam a colisão das placas tectônicas na região do Golfo Crédito: Getty Images
Na costa arábica do Golfo Pérsico, esse tipo de dobramento e fraturamento não ocorreu.
Em vez disso, as forças compressivas da colisão deformaram uma plataforma rígida de rocha dura e profunda, conhecida como "rocha basal", criando amplas estruturas em forma de domo, de grande dimensão, que se estendem por dezenas, até centenas, de quilômetros quadrados.
Sob o Golfo Pérsico encontra-se uma bacia preenchida por sedimentos erodidos a partir da elevação da Cordilheira de Zagros. Em suas áreas mais profundas, a bacia foi submetida às altas temperaturas e pressões necessárias para a geração de petróleo e gás.
Em síntese, é um ambiente altamente favorável à geração e ao armazenamento de hidrocarbonetos em grande escala.
Imagem BBC Brasil
Crédito: BBC

Rochas que geram petróleo

O petróleo e o gás se formam a partir de material orgânico, como zooplâncton e fitoplâncton marinhos, acumulado em rochas como folhelhos e calcários, submetidas a altas temperaturas e pressões.
Quando essas rochas têm pelo menos 2% de material orgânico, são consideradas de boa qualidade para gerar petróleo e gás.
A região do golfo tem muitas camadas desse tipo de rocha, algumas muito espessas, abundantes e ricas em matéria orgânica.
Imagem BBC Brasil
As camadas rochosas da escarpa de Tuwaiq, na Arábia Saudita, formadas no período Jurássico, entre 200 milhões e 145 milhões de anos atrás, são ricas em material orgânico Crédito: Getty Images
Exemplos disso são as formações de Hanifa e Tuwaiq, na costa arábica do golfo, formadas durante o período Jurássico, entre 200 milhões e 145 milhões de anos atrás, e a formação de Kazhdumi, no Irã, formada no período Cretáceo, entre 145 milhões e 66 milhões de anos atrás.
Essas rochas apresentam entre 1% e 13% de conteúdo orgânico e, em alguns pontos, até mais.

Estruturas de petróleo e gás

As camadas de rochas dobradas e fraturadas da região, assim como seus domos, são altamente favoráveis ao aprisionamento de hidrocarbonetos.
As dobras da Cordilheira de Zagros — consideradas emblemáticas entre geólogos pelas formas impressionantes visíveis em imagens de satélite — abrigam centenas de bilhões de barris de petróleo e grandes volumes de gás.
Uma observação rápida de um mapa de petróleo e gás da região do Golfo Pérsico revela campos com formato alongado, semelhantes a "salsichas", que se estendem de noroeste a sudeste e refletem importantes estruturas dobradas.
Essas formações incluem centenas de jazidas individuais de diferentes tamanhos, que se estendem do sul do Irã atravessando o nordeste do Iraque.
Imagem BBC Brasil
Os campos de gás natural South Pars–North Dome têm capacidade de produzir pelo menos 46 trilhões de metros cúbicos de gás Crédito: Getty Images
Na placa arábica, as grandes estruturas em forma de domo deram origem a acumulações particularmente vastas de petróleo e gás. Entre elas está o campo petrolífero de Ghawar, na Arábia Saudita — o maior do mundo —, que pode produzir mais de 70 bilhões de barris de petróleo.
O campo de gás natural South Pars–North Dome, compartilhado entre Irã e Catar, pode produzir ao menos 46 trilhões de metros cúbicos de gás — um conteúdo energético equivalente a mais de 200 bilhões de barris de petróleo.
Imagem BBC Brasil
Crédito: BBC
As rochas-reservatório mais importantes são os calcários, nos quais algumas porções foram parcialmente dissolvidas, o que facilita o fluxo de petróleo e gás.
Nos reservatórios de Zagros, os fluidos escoam por fraturas formadas pelo dobramento e por falhas resultantes da colisão entre placas tectônicas.
Em locais como o reservatório Arab-D, no campo de Ghawar, na Arábia Saudita, e o calcário de Asmari, presente em diversos campos de Zagros, essas rochas de alta qualidade para armazenamento de petróleo se estendem por áreas vastas — de centenas a até milhares de quilômetros quadrados.
Não há nada dessa magnitude em nenhuma outra parte do planeta, nem em terra nem no mar, o que evidencia a singularidade da geologia petrolífera da região do golfo Pérsico.

Possibilidades futuras

O efeito combinado desses fatores é que cerca de metade das reservas convencionais de petróleo do mundo e 40% do gás estão concentrados em apenas 3% da superfície terrestre.
Avaliações do Serviço Geológico dos EUA indicam que, mesmo após mais de um século de perfuração e produção, ainda há grandes jazidas de petróleo e gás a serem descobertas na região do Golfo Pérsico.
Imagem BBC Brasil
Embora a região tenha quase metade das reservas de hidrocarbonetos do mundo, estudos indicam que ainda pode haver muito mais produção Crédito: Getty Images
Em um relatório de 2012 que analisou a Península Arábica e a Cordilheira de Zagros, a agência estimou que poderia haver até 86 bilhões de barris de petróleo e 9,5 trilhões de metros cúbicos de gás nas rochas, além das quantidades já descobertas.
Mais petróleo e gás também poderiam ser produzidos com o uso de técnicas de perfuração horizontal e fracking (fraturamento hidráulico), desenvolvidas nos EUA nas décadas de 2000 e 2010.
A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos vêm testando esses métodos em seus campos petrolíferos. Ainda é cedo para avaliar o grau de sucesso, mas estudos indicam que eles podem ampliar ainda mais a produção.
*Scott L. Montgomery é professor de Estudos Internacionais na Universidade de Washington D.C., nos Estados Unidos. Seu artigo foi publicado no The Conversation, cuja versão original em inglês pode ser lida aqui.

Este vídeo pode te interessar

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Dois veículos colidem em Pancas e os dois motoristas morreram no local
Batida frontal mata motorista de carro de prefeitura no ES e outro condutor
Imagem de destaque
Acidente entre três veículos resulta em mortes e feridos na BR 101 em Aracruz
Bairro Praia do Canto
A nova ACPC e o salto de qualidade esperado na Praia do Canto

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados