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Por que é improvável que brasileiro preso pelo governo Trump seja chefe do PCC e do CV

Felipe Dell Aquilla foi preso por agentes do ICE em 5 de junho. Ele entrou ilegalmente nos EUA. Segundo o governo americano, ele já comandou duas das principais facções do Brasil, mas fontes ouvidas pelas BBC News Brasil consideram isso questionável.

Publicado em 16 de Junho de 2026 às 13:35

BBC News Brasil

Publicado em 

16 jun 2026 às 13:35
Imagem BBC Brasil
Governo de Donald Trump classificou PCC e CV como terroristas Crédito: Mandel NGAN / AFP via Getty Images
O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS, na sigla em inglês) afirmou que prendeu o brasileiro Felipe Linares de Oliveira Dell Aquilla e o apontou como comandante tanto do Primeiro Comando da Capital (PCC) quanto do Comando Vermelho (CV).
Dell Aquilla foi preso por agentes do ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos. Ele entrou ilegalmente nos EUA em data e local desconhecidos.
A detenção ocorreu em 5 de junho na Carolina do Norte, após uma perseguição, mas só veio a público na noite de segunda-feira (15/6).
Em nota, as autoridades americanas afirmam que "Aquilla já havia sido comandante do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV), ambos classificados [pelos Estados Unidos] como organizações terroristas estrangeiras".
No entanto, investigadores da Polícia Federal (PF) que atuam no combate ao crime organizado disseram à BBC News Brasil, em caráter reservado, que a indicação de que Dell Aquila teria exercido cargos de liderança no PCC e no CV é considerada inusitada por dois motivos.
O primeiro é pelo fato de que, historicamente, PCC e CV são facções rivais que disputam mercados e rotas de escoamento de drogas há décadas. Por isso, uma "mudança de lado" entre integrantes com cargo de direção é considerada uma possibilidade remota.
O segundo motivo é o fato de que Dell Aquilla, segundo dados de inteligência, não constaria como membro nem do PCC nem do CV até o momento.
De acordo com os investigadores com quem a BBC News Brasil conversou, Dell Aquilla teria um histórico de crimes de extorsão e até poderia ter prestado algum serviço para facções, mas não haveria indícios de que ele exerceria cargos de lideranças nestas organizações.
Em São Paulo, uma autoridade que atua há décadas no combate ao crime organizado disse à BBC News Brasil, em caráter reservado, que duvida que Dell Aquilla seja membro de alguma das duas facções.
Por outro lado, segundo o sociólogo Gabriel Feltran, diretor de pesquisa no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) e professor titular da Sciences Po, em Paris, já não é possível falar em chefes ou líderes das organizações criminosas modernas.
De acordo com ele, que é autor de Irmãos: Uma História do PCC, as facções se organizam de uma maneira que "existem posições ocupadas por pessoas que têm responsabilidades com os grupos", mas que não necessariamente "mandam" neles.
"Não conheço esse preso e nunca tive informação de que fosse integrante ou líder do PCC. Duvido muito que seja integrante das duas facções", diz Feltran.
Imagem BBC Brasil
Dell Aquilla foi preso no último dia 5, segundo o governo dos EUA Crédito: Departamento de Segurança Interna dos EUA
As autoridades americanas disseram que havia um mandado internacional emitido pelo Brasil contra Dell Aquilla por acusações de associação criminosa e extorsão. Mas, até o fim da manhã de terça-feira (16/6), seu nome constava na lista vermelha pública da Interpol.
No Brasil, há dois mandados nacionais de prisão — por coação no curso do processo e extorsão agravada.
A BBC News Brasil pediu informações sobre o brasileiro ao Ministério da Justiça e ao Itamaraty, mas não obteve resposta.

PCC e CV classificados como terroristas

Recentemente, o Departamento de Estado dos Estados Unidos classificou as PCC e o CV como organizações terroristas.
Em comunicado publicado no último dia 28, o secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que ambas as facções "são duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil" e que elas serão designadas como Organizações Terroristas Estrangeiras a partir do dia 5 de junho.
"A Administração Trump continuará a usar todas as ferramentas disponíveis para proteger nossa nação e nossos interesses de segurança nacional, mantendo drogas ilícitas fora de nossas ruas e interrompendo os fluxos de receita que financiam narcoterroristas violentos", afirmou.
A medida também possibilita que pessoas ligadas ao PCC e CV tenham bens e ativos que estejam sob jurisdição dos EUA congelados sem aviso prévio.
Também proíbe transações financeiras entre pessoas ou empresas americanas e essas organizações e prevê sanções contra indivíduos ou entidades que forneçam apoio material, financeiro ou logístico a esses grupos.
O anúncio ocorreu um dia após o senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reunir com Marco Rubio, e na mesma em que ele pediu que o presidente Donald Trump designasse as facções brasileiras como organizações terroristas, durante encontro na Casa Branca.
A decisão do governo americano foi comemorada pelo senador nas redes sociais. "Grande dia", escreveu Flávio no X, compartilhando o comunicado de Rubio.
Imagem BBC Brasil
PCC e o CV foram designados como organizações terroristas pelos EUA em determinação que começou a valer no último dia 5 Crédito: VANDERLEI ALMEIDA/AFP via Getty Images
A decisão do governo Trump confere às facções brasileiras o mesmo status jurídico de grupos que são alvo, há mais de um ano, de duras intervenções de Washington na América Latina, como os cartéis de Sinaloa e Jalisco Nova Geração, no México, o Tren de Arágua, na Venezuela, e o Clã do Golfo, na Colômbia.
Segundo especialistas consultados pela BBC News Brasil, com exceção do caso venezuelano, a designação como terrorista não levou, pelo menos até o momento, ao enfraquecimento dessas organizações ou a uma diminuição da criminalidade.
Mas a classificação significou, em alguns casos, penas mais duras para criminosos capturados e extraditados para os Estados Unidos e, principalmente, sanções econômicas específicas e um monitoramento muito mais rigoroso das transações financeiras dos grupos nos EUA e com empresas que possuem laços em território americano.

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