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Perfis usam mulheres de IA em campanha por Flávio Bolsonaro e Lula para atrair público e até vender conteúdo adulto

Levantamento da BBC News Brasil identificou que páginas têm quase 7 milhões de seguidores e centenas de milhares de curtidas. Avatares apoiam Lula e Bolsonaro.

Publicado em 20 de Outubro de 2026 às 17:33

BBC News Brasil

Publicado em 

20 out 2026 às 17:33
Imagem BBC Brasil
Imagem manipulada por IA coloca mulher virtual ao lado do candidato Flávio Crédito: Reprodução

Uma mulher aparece acenando ao lado de Flávio Bolsonaro (PL) em cima de um trio elétrico no Farol da Barra, em Salvador. O vídeo viraliza, e ela acumula centenas de milhares de seguidores nas redes sociais. Mas a mulher não existe: foi criada por inteligência artificial.

O caso não é isolado. A BBC mapeou 37 perfis no Instagram e TikTok que publicam fotos e vídeos de mulheres criadas por inteligência artificial apoiando os candidatos à presidência.

Predominam referências a Flávio Bolsonaro, mas há também perfis de mulheres apoiando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Os perfis usam temas em alta, como as eleições, para atrair seguidores. Alguns encaminham o público para o OnlyFans, site conhecido por seu conteúdo adulto, ou Telegram, onde vendem conteúdo pornográfico por meio de pagamentos em contas no exterior ou por empresas intermediárias.

O caso da mulher ao lado de Flávio Bolsonaro ganhou repercussão nesta semana, depois que o influenciador Guga Figueiredo expôs as montagens da página.

A personagem foi inserida ao lado de Flávio em diferentes manifestações. Em outros publicações no perfil, ela anuncia lives e vídeos sexuais. A conta ficou indisponível nas primeiras consultas da BBC News Brasil na manhã desta terça-feira (20/10), mas voltou ao ar à tarde, com mais de 500 mil seguidores.

Juntas, as páginas mapeadas pela BBC somam cerca de 7 milhões de seguidores.

A reportagem contabilizou 504.105 interações nesses perfis, com quase 500 mil curtidas e 18,6 mil comentários.

A grande maioria das contas não contêm rótulos explicando a outros usuários que aquele conteúdo foi gerado por inteligência artificial, o que viola diretrizes do Instagram e do TikTok.

Em nota, a Meta, responsável pelo Instagram, afirmou: "Temos regras contra nudez e atividade sexual de adultos e removemos conteúdos violadores quando identificados. A Meta emprega amplos esforços, incluindo o investimento em tecnologia, para mitigar os riscos de que tais conteúdos circulem em suas plataformas".

A BBC News Brasil também procurou o TikTok, mas não houve retorno até o momento. O espaço segue disponível para manifestações.

A BBC não conseguiu identificar os autores das páginas, mas encontrou indícios de que pode haver uma ou mais redes de perfis operados pela mesma pessoa ou grupo de pessoas: são páginas que se seguem e que direcionam o usuário para um mesmo canal no Telegram. O maior deles apontava ter mais de 50 mil usuários.

As montagens muitas vezes reaproveitam registros de pessoas reais. Um dos vídeos que circula nas redes mostra como uma das falsas influencers ocupa na verdade o lugar do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) em uma cena ao lado de Flávio.

Em outro, a personagem de IA ocupa o lugar que antes era de Cristina Graeml, candidata do PSD ao Senado pelo Paraná, que não se elegeu.

A tática de utilizar influenciadores geradas por inteligência artificial associados a política como forma de atrair usuários para conteúdo adulto não é algo exclusivo do Brasil.

Nos Estados Unidos, a revista Wired relatou, em abril deste ano, o caso de uma falsa enfermeira pró-Trump que vendia imagens adultas e camisetas políticas. Seu criador, um estudante de medicina na Índia identificado por pseudônimo, disse à revista ganhar alguns milhares de dólares por mês.

Na Alemanha, uma investigação da organização de jornalismo independente CORRECTIV.Faktencheck identificou 190 perfis de 22 personagens nas redes sociais que usavam IA, promoviam a AfD ou posições de direita e encaminhavam o público a plataformas eróticas pagas.

Imagem BBC Brasil
Perfil com mais de 500 mil seguidores usou IA para incluir mulher em manifestação pró-Bolsonaro; página vende conteúdo adulto Crédito: Reprodução

Exploração da imagem feminina

Um perfil com milhares de seguidores mostra mulher na academia com uma camiseta com as cores da bandeira brasileira estampada com o rosto de Flávio Bolsonaro. Ela mostra a língua e flexiona o braço. "Boa noite, Brasil", diz a legenda, acompanhada de hashtags sobre eleição e Bolsonaro.

Ela se identifica como uma estudante de Biomedicina de 21 anos, do Rio Grande do Sul, e também publica imagens com camisetas de diferentes times de futebol. Apesar de exibir o aviso "Conteúdo de IA" em uma foto com uniforme do Grêmio, recebe elogios de homens, que a chamam de "gata" e "linda".

Já outro perfil no TikTok com cerca de 24,4 mil seguidores contêm imagens geradas por inteligência artificial de um grupos de mulheres com camisetas vermelhas e símbolos do PT em cenários de manifestações.

Para Raquel Saraiva, presidente e coordenadora da área de Gênero e Tecnologia do Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife (IP.rec), a inserção das personagens em atos políticos faz parte de uma estratégia que conecta a atenção despertada pelas imagens à venda de conteúdo adulto. "Quem produz esse conteúdo faz o pacote completo", diz.

Na avaliação dela, os criadores reproduzem padrões de beleza para atrair homens heterossexuais e estimular o consumo do material anunciado. Saraiva relaciona esse modelo de negócio à exploração da imagem feminina e à misoginia. Embora as personagens não existam, afirma, sua criação reproduz padrões presentes fora das redes.

Para ela, a produção das imagens, a criação dos perfis e o encaminhamento do público para ambientes de conteúdo pago são etapas de uma mesma operação comercial. "Nada disso é dissociado da misoginia na sociedade. Tudo é uma grande cadeia", ela diz, defendendo uma maior fiscalização dessas contas pelas plataformas.

Imagem BBC Brasil
Página no TikTok exibe avatares de mulheres feitas com IA e camisetas do PT Crédito: Reprodução

Apoio aos dois candidatos

Curiosamente, algumas páginas contêm avatares que declaram apoio aos dois adversários na corrida presidencial.

No Instagram, um perfil com cerca de 175 mil seguidores mostra uma mulher de cabelo curto diante do espelho com uma camiseta vermelha com uma foto de Lula. Em outra publicação, ela aparece com um vestido verde estampado com o rosto de Flávio Bolsonaro.

Outra conta, com cerca de 18 mil seguidores, também faz postagens de apoio aos dois candidatos. Uma imagem mostra uma mulher com um vestido vermelho estampado com o rosto de Lula, o símbolo do PT e a frase "Sou trans e apoio o Lula".

Em outra postagem, ela veste uma camiseta com a imagem de Flávio e os dizeres "Eu sou trans e fecho com Flávio Bolsonaro".

"Você apoia o Lula e fecha com o Flávio Bolsonaro?!", perguntou um usuário no post com a imagem de Lula. Outro escreveu: "Vou fazer o L por vc."

Em outras contas, os comentários misturam manifestações de voto, elogios à aparência das mulheres e mensagens de quem percebe ou suspeita da montagem.

"IA tá começando a confundir a galera", diz um usuário.

Imagem BBC Brasil
Perfil publica fotos a favor de Lula e Bolsonaro Crédito: Reprodução

BBC News Brasil mostrou uso de avatares de IA na política

Imagem BBC Brasil
Avatares de IA são usados na política tanto para engajar quanto para gerar renda para criadores; na imagem está Dona Maria, avatar de IA que faz críticas a Lula e ao STF no Instagram Crédito: Reprodução

O uso de personagens gerados por IA para discutir política já havia sido mostrado pela BBC News Brasil no caso de um avatar de uma mulher idosa que viraliza com críticas a Lula e ao STF. Um dos vídeos chegou a 8,8 milhões de visualizações.

A página entrou na mira do PT e de outros partidos, foi parar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e acabou saindo do ar. Meses depois, outra foi criada.

O criador, Daniel Cristiano dos Santos, disse à BBC News Brasil trabalhar como motorista de aplicativo e usar a página para complementar a renda.

Segundo ele, a escolha dos temas passa por pesquisar quais assuntos estão gerando mais engajamento nas redes. Além da audiência dos vídeos, o criador disse obter renda com a produção de material de IA para empresas e o ensino dessas técnicas.

A conversão da atenção política em vendas também apareceu no TikTok ao longo da campanha.

Em agosto, uma investigação da agência Lupa documentou uma conta que passou de deepfakes de Lula para vídeos falsos de Bolsonaro e, depois, para uma personagem feminina de IA em tom sedutor.

Em outra, deepfakes de Jair e Flávio deram lugar a uma mulher artificial que anunciava roupas e produtos domésticos.

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