A decisão, anunciada na madrugada de terça-feira (3/11), foi tomada por unanimidade pela diretoria do Banco Central e levou à suspensão imediata de todos os serviços do Ueno Bank, que é um dos principais bancos do Paraguai e, segundo dados da própria instituição, tem 3 milhões de clientes, o equivalente a 60% da população adulta do país.
Clientes do Ueno Bank relataram que não conseguiam realizar operações em caixas eletrônicos nem acessar os serviços bancários pela internet.
"Determinamos o fechamento da instituição. Portanto, a partir de hoje, nem o aplicativo, nem os cartões, nem qualquer outro serviço do banco estão funcionando", confirmou Liana Caballero, integrante da diretoria do Banco Central do Paraguai, em entrevista coletiva a jornalistas.
O Ueno Bank administra mais de US$ 800 milhões (cerca de R$ 4,4 bilhões) em recursos públicos, incluindo aproximadamente US$ 380 milhões (cerca de R$ 2,1 bilhões) investidos pelo Instituto de Previdência Social do Paraguai, responsável pelo sistema estatal de aposentadorias.
O Banco Central paraguaio iniciou o processo de resolução bancária, que determina o bloqueio de todos os ativos e passivos da instituição até que seja definido o destino desses recursos e como e até que limite serão cumpridas as obrigações do banco.
O presidente do Banco Central paraguaio, Carlos Carvallo, afirmou que "a instituição informará os mecanismos para que os depositantes cobertos pela garantia possam recuperar seus recursos".
O Fundo de Garantia de Depósitos do Paraguai cobre depósitos de até 228 milhões de guaranis por pessoa (cerca de R$ 211 mil), o que equivalente a 75 salários mínimos.
Os clientes com depósitos superiores a esse limite terão de aguardar o balanço definitivo elaborado pela Superintendência de Bancos.
Carvallo ressaltou que a situação do Ueno Bank é "um caso pontual e isolado" e afirmou que o sistema financeiro paraguaio, de modo geral, "continua sólido e saudável".
Escândalo no Paraguai
A intervenção no banco é o desfecho de um escândalo que tem marcado o governo do presidente Santiago Peña desde que ele assumiu o cargo, em 2023.
Pouco depois de tomar posse, Peña nomeou Carlos Carvallo, então presidente-executivo do Ueno Bank, para comandar o Banco Central do Paraguai. A decisão foi criticada por pessoas que apontaram um conflito de interesses.
Embora o Banco Central tenha afirmado que Carvallo não participou das decisões do órgão regulador sobre o banco de cuja diretoria havia feito parte, o próprio Carvallo anunciou nesta terça-feira (3/11) que havia assinado sua renúncia, mas permaneceria à frente da instituição até a conclusão do processo de resolução do Ueno Bank.
"Já assinei minha renúncia, justamente porque o Banco Central precisa de tranquilidade para fazer seu trabalho", afirmou Carvallo em entrevista coletiva.
Pouco depois do anúncio da intervenção e do bloqueio dos recursos dos clientes, veículos de imprensa paraguaios noticiaram a prisão de vários dirigentes do banco, entre eles Miguel Vázquez, presidente do Grupo Vázquez, ligado à instituição.
A intervenção não demorou a provocar repercussões políticas.
O vice-presidente do Paraguai, Pedro Alliana, anunciou que decidiu suspender temporariamente sua candidatura à Presidência pelo governista Partido Colorado, diante da necessidade de "arrumar a casa" após a crise do Ueno Bank.
Ricardo Estigarribia, pré-candidato à Presidência pelo Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), principal partido de oposição do Paraguai, anunciou que seu partido pretende apresentar um pedido de impeachment contra Peña e Alliana no Congresso.
"O que aconteceu é muito grave. Saquearam o país, roubaram o dinheiro dos aposentados, e isso não pode ficar assim. Não pode haver impunidade", afirmou Estigarribia, em declarações reproduzidas pelo jornal paraguaio ABC.
Como a crise começou e o que acontece agora
Carvallo, presidente do Banco Central do Paraguai, informou que a decisão de intervir no banco foi tomada após a constatação de que seu índice de solvência — indicador que mede a capacidade de uma instituição financeira de absorver perdas — havia caído abaixo do mínimo exigido por lei. Segundo Carvallo, meses de investigação também identificaram empréstimos concedidos a empresas ligadas ao grupo proprietário do banco.
O Banco Central anunciou que enviará funcionários para assumir o controle da instituição e aplicará sanções aos responsáveis.
No entanto, o órgão não garantiu que todos os clientes afetados conseguirão recuperar a totalidade dos recursos depositados no banco.
Caballero, da diretoria do Banco Central, afirmou: "Precisamos fazer um balanço dos ativos e passivos para avaliar até que ponto será possível cobrir os valores que ultrapassam 75 salários mínimos", limite garantido por lei pelo Fundo de Garantia de Depósitos do Paraguai.
"O Banco Central do Paraguai mobilizará todos os seus recursos para que o processo seja o mais rápido possível, e a prioridade serão sempre os pequenos poupadores", afirmou Carvallo.