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Os números que podem definir a eleição presidencial em primeiro turno — e os fatores que apontam contra isso

Lula e Flávio Bolsonaro dizem que vão vencer no domingo; a maioria dos analistas ainda vê o segundo turno como o cenário mais provável, mas admite que a definição no próximo domingo deixou de ser hipótese apenas teórica.

Publicado em 02 de Outubro de 2026 às 18:34

BBC News Brasil

Publicado em 

02 out 2026 às 18:34
Imagem BBC Brasil
Crédito: BBC

As campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) têm animado seus eleitores sobre uma possível decisão das eleições em primeiro turno.

Na reta final da campanha, ambos os candidatos têm repetido a possibilidade em entrevistas e palanques.

"Eu sinceramente acho que vou ganhar as eleições em primeiro turno. Acho que as eleições vão ser definidas domingo", disse Lula na quinta-feira (1º/10) durante entrevista ao podcast Flow. O presidente decidiu conceder a entrevista no lugar de participar do debate antes marcado pela TV Globo.

Em entrevista à TV Band em 27 de setembro, o petista também afirmou que seria "simples a escolha do povo". "Eu tô com uma leve impressão de que não haverá segundo turno", afirmou Lula.

Por sua vez, Flávio Bolsonaro também tem dito à sua base que está em contagem regressiva para vencer já no próximo domingo, citando "arrancada" para uma vitória.

"Eu não vou perder essa eleição. Eu digo mais, vou ganhar no primeiro turno", disse Flávio em sabatina à Globo no dia 28 de setembro.

O candidato do PL, que também desistiu de participar do último debate presidencial, de última hora, fez uma live no mesmo horário em que reiterou a possibilidade o voto útil.

"Se você estava pensando em não votar, compareça e vá votar no domingo. Se você está pensando em votar em algum outro candidato, que são meus concorrentes contra o Lula, a única candidatura que pode superar o Lula é a do Flávio Bolsonaro. Me dê o seu voto de revolta, me dê o seu voto inteligente já no primeiro turno."

Para vencer no primeiro turno, é preciso mais de 50% dos votos válidos, que excluem brancos e nulos. Desde a redemocratização, só Fernando Henrique Cardoso (PSDB) conseguiu isso, em 1994 e 1998.

Às vésperas do primeiro turno, uma pesquisa Datafolha publicada nesta quinta mostrou Lula somando 45% das intenções em votos válidos, que excluem brancos, nulos e indecisos, ante 40% de Flávio Bolsonaro.

Já no segundo turno, em votos totais, o instituto mostra empate técnico: 48% para o presidente e 45% para o senador fluminense.

No Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, feito em parceria com a consultoria Polling Data, Lula aparece com 42% das intenções de voto no primeiro turno, e Flávio, com 39%. Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão) têm 3% cada. Romeu Zema (Novo) pontua 1%. Indecisos somam 8%.

Com a concentração da disputa acirrada para a Presidência da República, candidatos menores perdendo espaço e um eleitorado pouco entusiasmado, cientistas políticos ouvidos pela BBC News Brasil divergem sobre a possibilidade de a eleição presidencial ser decidida no domingo.

A maioria dos especialistas ainda considera o segundo turno o cenário mais provável. Mas eles divergem sobre o peso do voto útil, da abstenção e da desidratação dos candidatos menores.

Quatro fatores que podem levar a uma decisão em primeiro turno

Para o cientista político Hilton Fernandes, professor da Fespsp (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo) e sócio da empresa de pesquisas de opinião e análise de dados Veris, mesmo considerando as últimas pesquisas de intenção de voto às vésperas do primeiro turno, o cenário ainda indica ser mais provável haver uma segunda rodada de votação.

No entanto, ele afirma que não está descartada a possibilidade da decisão ocorrer já no próximo domingo.

O professor afirma que a desidratação da intenção de votos de candidatos como Renan Santos, Cury e Caiado pode ser um fator para esse fenômeno.

"Na última semana, os dois principais candidatos somaram dois pontos percentuais cada em suas intenções, depois de um longo período de estabilidade, ao mesmo tempo em que os demais candidatos foram perdendo eleitores", nota o analista.

E uma possível explicação para isso é o chamado voto útil, quando os eleitores podem deixar de votar em seu candidato favorito para impedir a vitória do candidato que rejeitam.

É o principal fator para que a decisão seja antecipada já em um primeiro turno, observa a analista Cila Schulman, CEO do Ideia Instituto de Pesquisa. Ela avalia que a chance de definição no primeiro turno é a maior desde 1998.

Com 45% e 40% dos válidos no Datafolha, sobram 15 pontos. Lula precisaria de um terço deles para passar de 50%; Flávio, de dois terços. Ainda assim, Schulma avalia que, se houver definição no primeiro turno, o favorecido seria Flávio.

"Temos esse fenômeno que chamo de 'antipetismo de chegada', que é quando esse eleitor, que está indeciso ou que está num desses candidatos que a gente chama de terceira via, migra para o candidato que ele julga ser mais forte para vencer o Lula", afirma.

Imagem BBC Brasil
Crédito: Reprodução

Já a cientista política Luciana Santana, professora de Ciência Política na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), vê que a possibilidade de encerramento no primeiro turno vale para qualquer um dos lados, tanto Flávio quanto Lula, se eleitores de Caiado, Zema e Cury abandonarem seus candidatos.

No entanto, ela faz a ressalva de que nenhuma pesquisa dá evidência suficiente para afirmar isso.

"Apesar de não ser tão provável, não é impossível que aconteça agora uma definição da eleição no primeiro turno", afirma.

"Temos ainda uma quantidade de indecisos que podem se reverter em voto útil na reta final da campanha e favorecer alguns dos candidatos. Um dos dois candidatos que estão à frente."

Santana afirma que é preciso estar atento aos redutos eleitorais nos estados, principalmente São Paulo, Rio e vários estados do Nordeste. "Isso vai dizer muito sobre a possibilidade ou não de se definir a eleição no primeiro turno."

O segundo fator é a rejeição elevada aos principais concorrentes. Segundo Hilton Fernandes, como ambos são muito conhecidos, o eleitor tende ao voto "no menos pior", em vez de pulverizar escolhas.

"Como os dois líderes também são muito rejeitados, empatados com 45% de rejeição cada [segundo o DataFolha], é possível que ainda recebam votos de quem que neste está com Cury, Caiado ou Renan, candidatos que não têm chance de vitória", afirma.

Além do voto útil e da rejeição a Flávio e Lula, uma alta abstenção é um terceiro fator que pode impactar o cenário, ao diminuir a contabilização do total de votos válidos.

Nas últimas eleições gerais, em 2022, o número de eleitores que não compareceram às urnas foi o maior desde 1998: 33 milhões ficaram de fora do primeiro turno — ou seja, 20,95% do eleitorado daquele ano.

Segundo Fernandes, historicamente, a abstenção pesa mais sobre a base de Lula, de menor escolaridade e mais idosa. Mas homens, segmento em que Flávio lidera, costumam comparecer menos que mulheres, entre as quais o petista vai melhor.

Imagem BBC Brasil
Historicamente, a abstenção pesa mais sobre a base de Lula Crédito: Reprodução/Flow

A decisão pelo 'não-voto'

"Boa parte desse número se explica por impossibilidade de participação, como pessoas com problemas de mobilidade, falta de atualização do registro eleitoral, problemas de saúde; e outros por terem o voto facultativo, em especial pela idade", diz o professor da Fespsp.

"Mas eleitores que estão desiludidos com a política ou que não percebem seus candidatos com chance de vitória podem decidir não comparecer no dia das eleições. Se isso ocorrer, o maior impacto seria entre quem não vota em Lula e Flávio, e isso levaria a uma diminuição da quantidade de votos válidos e, consequentemente, a uma maior chance de encerramento já no primeiro turno."

A probabilidade de a eleição terminar no primeiro turno será alta se o não-voto (que soma brancos, nulos e abstenções) chegar a uma zona entre 31% e 32%, calcula Cila Schulman.

Quanto menor for o total de votos válidos usado para calcular a maioria, menor será a quantidade de votos necessária para um candidato vencer.

Além dos 20,95% de eleitores que não foram votar, mais de 5 milhões de brasileiros – ou pouco menos de 5% do eleitorado que compareceu às urnas – votaram branco ou nulo no primeiro turno de 2022.

Por fim, o quarto fator que pode fazer com que a campanha se encerre já neste domingo é a campanha esvaziada. Segundo Schulman, os candidatos fora da polarização ficaram sem exposição, e os debates perderam força.

O último, o tradicional debate da TV Globo, estava marcado para quinta, mas foi cancelado após decisões judiciais que mexeram na configuração do evento e a desistência de Lula e Flávio.

"Foi uma não-campanha, uma campanha com baixíssima energia. Eu chamo de a 'campanha dos anestesiados', em que o eleitor está votando muito olhando para o retrovisor, para dois nomes que, na cabeça dele, ele já experimentou e não gostou", afirma.

O que pesa para decisão em segundo turno

O volume de votos que não vão para Lula nem para Flávio é o primeiro fator. Segundo o agregador de pesquisas da BBC News Brasil, Cury, Renan Santos, Caiado e Zema acumulam 10% do eleitorado às vésperas da eleição.

A cientista política Luciana Veiga, da Unirio, aposta que esse contingente não deve cair a menos de 7%. "Ou seja, há um percentual de votos nos outros que impede que você tenha essa eleição no primeiro turno", afirma.

Mesmo que haja um "esmagamento" dos concorrentes sem chances na reta final, diz, a chance de resolver no primeiro turno é muito pequena.

O segundo é a falta de entusiasmo, que reduz o apelo do pedido de voto útil, seja de Lula ou de Flávio. Veiga cita os escândalos envolvendo as duas candidaturas e avalia que os apelos não terão efeito.

"Por mais que Lula faça um discurso de apelo ou até mesmo o Flávio Bolsonaro faça, eu acho que não vai dar resultado. Particularmente porque estamos tendo muitos escândalos envolvendo as duas candidaturas", afirma.

"Não tem uma agenda que atraia, que faça com que as pessoas venham e falem: 'Puxa, eu vou votar no primeiro turno porque essa candidatura está merecendo'. Você não tem um entusiasmo que justifique alguém querer dar a todo custo uma eleição no primeiro turno."

Imagem BBC Brasil
Analistas avaliam que eleitores estiveram pouco entusiasmados com uma campanha esvaziada em 2026 Crédito: Getty Images

Cila Schulman acrescenta que o caso Master e a pauta do STF levaram muitos eleitores a concluir que "todo mundo é corrupto".

Para ela, o terceiro que deve adiar a decisão é o "teto de votos" de Lula. Sozinho no campo da esquerda, ele não conta, na avaliação de Schulman, com votos de Ciro Gomes e Simone Tebet, como em 2022. A margem de crescimento está entre quem aprova o governo, mas não declara voto nele, e é pequena.

"O mercado de votos para Lula é muito restrito nessa campanha, porque ele está sozinho no campo da esquerda", afirma. A analista vê ainda um dilema para o PT: se as pesquisas divulgadas no sábado (3/10), como as do Datafolha e da Quaest, mostrarem Lula perto de vencer, isso pode estimular a migração de votos para Flávio.

"Pode dar a impressão de que ele pode ganhar no primeiro turno no final. E aí ele pode amplificar essa migração de votos em favor do Flávio", argumenta. Nesse contexto, as declarações dos dois candidatos sobre vencer no domingo funcionam também como apelo ao voto útil.

O quarto é o menor número de candidaturas. Neste ano, foram registradas 20,5 mil candidaturas, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Esse é o menor número desde 2010: a disputa deste ano tem 8,5 mil postulantes a menos do que em 2022, uma queda de quase 30%.

Com menos candidatos a deputado pedindo voto e mobilizando eleitores, o pleito presidencial teria menos estímulo ao comparecimento.

O que observar no domingo

Independentemente de terminar em primeiro ou segundo turno, Hilton Fernandes diz que a judicialização será questão importante na reta final.

"Pelo menos desde a redemocratização, nunca houve tantas interferências da Justiça no processo eleitoral nacional, justamente em um momento de grande questionamento dos ministros do STF e suas relações", afirma. Para ele, a situação causa insegurança e pode comprometer as eleições se houver contestações aos resultados das urnas.

A votação termina às 17h, no horário de Brasília, e a divulgação dos resultados começa a partir do fechamento das urnas. Além do total de votos de Lula e Flávio, os analistas recomendam olhar o comparecimento, o volume de brancos e nulos e o desempenho nos grandes colégios eleitorais, como São Paulo, Rio e estados do Nordeste.

Se nenhum candidato passar de 50% dos votos válidos, o segundo turno será no dia 25 de outubro.

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