Publicado em 12 de fevereiro de 2026 às 16:09
O atleta ucraniano Vladyslav Heraskevych foi banido dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026, em Milão-Cortina, na Itália, na manhã desta quinta-feira (12/2), como resultado da maior controvérsia da competição.>
Heraskevych foi o porta-bandeira do seu país na cerimônia de abertura. Ele desejava participar da competição masculina de skeleton com um capacete especial, ilustrado com imagens de atletas ucranianos mortos durante a invasão russa.>
Mas o Comitê Olímpico Internacional (COI) afirma que o ato infringe a Carta Olímpica, que reúne as normas e regulamentos que regem a organização dos Jogos. Por isso, o COI informou a ele na terça-feira (10/2) que não poderia competir usando o capacete.>
Após dois dias de discussões, com Heraskevych se recusando a acatar a ordem, o COI confirmou na manhã de quinta (12/2) sua desqualificação do torneio.>
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Heraskevych usou o capacete em todos os seus treinamentos antes do início da competição. E andou com ele pela zona mista, onde fica a imprensa internacional, e em diversas entrevistas.>
Mas as regras do COI determinam que ele não poderia usar o capacete durante a competição oficial.>
O organismo mencionou a regra 40.2 da Carta Olímpica, que diz o seguinte:>
"Todos os concorrentes, autoridades e outros membros das equipes nos Jogos Olímpicos deverão ter liberdade de expressão, preservando os valores olímpicos e os princípios fundamentais do Olimpismo, segundo as orientações determinadas pelo Comitê Executivo do COI.">
O artigo se refere às orientações para a expressão dos atletas, criadas em 2023 e que foram incluídas na legislação olímpica.>
Elas determinam que "o foco dos Jogos Olímpicos deve se manter no desempenho dos atletas, no esporte e na harmonia que os Jogos procuram promover".>
"É um princípio fundamental que o esporte nos Jogos Olímpicos seja neutro e separado de interferência política, religiosa e de qualquer outro tipo. Especificamente, o foco no campo de jogo durante as competições e cerimônias oficiais deve ser a celebração do desempenho dos atletas.">
As normas dizem que os atletas podem expressar suas opiniões durante os Jogos Olímpicos, em pronunciamentos à imprensa, nas redes sociais e no campo de jogo, no início da competição ou durante sua introdução.>
Mas o COI proíbe essa expressão durante as cerimônias de entrega de medalhas, nas competições e na vila olímpica. E, se as regras forem desrespeitadas, os participantes "podem ficar sujeitos aos procedimentos disciplinares do COI".>
O Comitê declarou que essas medidas foram definidas após consultas a 4,5 mil atletas, ressaltando que o foco no campo de jogo deve ser o esporte.>
O COI indicou inicialmente, de forma errônea, que a regra 50 teria resultado na desqualificação de Heraskevych. Ela indica que "nenhum tipo de demonstração ou propaganda política, religiosa ou racial é permitida em qualquer local olímpico".>
A presidente do COI, Kirsty Coventry, visitou Heraskevych e seu pai em Cortina às 7h30 da manhã no dia da competição. Ela fez um último apelo para que ele não usasse o capacete.>
Coventry declarou que eles tiveram um encontro longo e respeitoso. Mas, por fim, o acordo não foi possível.>
"Ninguém está discordando da mensagem", disse ela à imprensa. "Esta é uma mensagem poderosa de lembrança, uma mensagem de memória, e ninguém discorda dela.">
"O que propus esta manhã a ele e ao seu pai (porque ele também disse que, quando está descendo, a imagem fica borrada e você, na verdade, não pode vê-la) foi: 'Podemos encontrar uma solução, prestando homenagem à sua mensagem, ao seu capacete antes da prova e assim que ele terminar e for para a zona mista, onde podemos ver as imagens?'">
"Infelizmente, não conseguimos chegar a esta solução. Eu realmente queria vê-lo participar hoje. Esta é uma manhã de grandes emoções.">
Coventry foi vista em lágrimas após deixar a reunião. Ela é ex-atleta olímpica e ganhou duas medalhas de ouro pelo Zimbábue, na natação.>
O COI também restabeleceu o credenciamento de Heraskevych, permitindo que ele permaneça presente aos Jogos e na vila olímpica pelo restante da competição.>
Em uma tensa entrevista coletiva na manhã de quinta (12/2), o porta-voz do COI Mark Adams defendeu sua decisão de banir Heraskevych.>
Adams declarou que, se eles permitissem que os atletas usassem um kit homenageando os mortos em guerras, os Jogos seriam abertos à exploração.>
"Existem 130 conflitos em andamento a todo instante, segundo a Cruz Vermelha", segundo ele. "Não podemos ter a todos em competição entre si nos Jogos.">
"O campo de jogo poderia se tornar um campo de expressão e poderíamos vê-lo ser levado ao caos. Não podemos ter atletas pressionados por líderes políticos para se manifestar durante as competições.">
"Fazemos o melhor para criar um campo de jogo adequado e não me desculpo pelo ocorrido", declarou Adams.>
O porta-voz do COI também negou que a entidade tenha sido pressionada pelo Comitê Olímpico russo ou pelo governo de Moscou para banir Heraskevych.>
Paralelamente, Heraskevych declarou à rede CNN Sports que pretende apresentar um recurso urgente contra a decisão à Corte de Arbitragem do Esporte (CAS).>
O CAS pode reunir comitês com fins específicos durante os Jogos. Por isso, seu recurso pode ser julgado horas depois da proibição.>
A decisão de banir Vladyslav Heraskevych causou comoção e a condenação de muitos atletas olímpicos, atuais e do passado.>
Lizzy Yarnold, duas vezes medalhista de ouro olímpica no skeleton pelo Reino Unido, declarou à BBC Sport: "Acho, na verdade, muito surpreendente. Existe surpresa e comoção entre os praticantes da modalidade.">
"O uso do capacete foi uma reação a algo que era um ato memorial, com uma importância incrivelmente emocional para ele. Acho que o COI deve a ele um pedido de desculpas e que esta decisão foi errada.">
O atleta do bobsled John Jackson, que competiu em duas Olimpíadas, se mostrou igualmente insensível em relação ao COI.>
Jackson serviu na Marinha britânica. Ele disse à BBC que "sua intenção foi relembrar os que caíram".>
"Como militar e, agora, como veterano, a memória é muito importante para todos os veteranos. Todos nós perdemos amigos e colegas em conflitos. Todos nós conhecemos alguém que não está presente e fez o último sacrifício.">
"Eu o apoio no que ele estava tentando fazer. É muito importante relembrar aqueles que deram sua vida por algo que, em última análise, não precisa acontecer", concluiu Jackson.>
Paralelamente, Heraskevych declarou à BBC que a proibição gerou nele uma sensação de "vazio".>
"Ontem e anteontem, eu vinha treinando bem", ele conta.>
"Eu poderia estar entre os medalhistas deste evento, mas, de repente, devido a alguma interpretação das normas com a qual eu não concordo, não posso competir.">
"As orientações sobre expressão — o que você considera como expressão? Muitos outros aqui, nesta arena, têm capacetes com cores diferentes e acredito que isso também é uma forma de expressão", prossegue o atleta.>
"Outros tinham símbolos nacionais, o que também é expressão. Por alguma razão, os seus capacetes não foram verificados e eles puderam competir, mas eu, não.">
"Acredito que eles [os que caíram] mereçam estar aqui, devido ao seu sacrifício. Quero homenagear a eles e às suas famílias", conclui Heraskevych.>
Seus colegas de equipe também demonstraram apoio ao longo de todas as competições desta quinta-feira (12/2) na Itália.>
Dmytro Shepiuk, do esqui alpino, exibiu, depois de competir, uma nota com os dizeres "Heróis ucranianos conosco". Já Olena Smaha, do luge, expressou seu apoio a Heraskevych usando uma luva com os dizeres: "Relembrar não é uma infração." >
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, acusou o COI de "fazer o jogo do agressor russo", após a desqualificação de Heraskevych.>
"O esporte não deve significar amnésia e o movimento olímpico deve ajudar a impedir as guerras, sem fazer o jogo dos agressores", escreveu Zelensky no X, antigo Twitter.>
"Infelizmente, a decisão do Comitê Olímpico Internacional, de desqualificar o atleta ucraniano do skeleton Vladyslav Heraskevych, diz o contrário.">
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