Publicado em 19 de fevereiro de 2026 às 12:12
Ouvir uma opinião contrária à nossa raramente deixa de nos provocar uma reação. >
E apesar de atribuirmos a dificuldade de lidar com opiniões divergentes a fatores culturais ou pessoais, a ciência mostra que ela tem raízes profundas no funcionamento do cérebro.>
A neurociência ajuda a explicar por que é tão difícil ouvir opiniões diferentes. >
A discordância ativa sistemas cerebrais voltados para detectar conflitos e manter a coerência interna. >
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Isso ajuda a entender por que reagimos tão rápido e, muitas vezes, com resistência a ideias que vão contra as nossas crenças.>
Quando ouvimos uma ideia que contradiz a nossa forma de pensar, o cérebro não começa avaliando argumentos. Primeiro, ele detecta que existe um conflito. >
Uma das regiões envolvidas nesse processo é o córtex cingulado anterior (CCA). >
Essa estrutura funciona como um radar responsável por identificar inconsistências entre nossas expectativas e a realidade, assim como conflitos entre respostas ou entre crenças. >
Por isso, o CCA funciona como "um radar de incongruências".>
Evidências da neurociência mostram que o CCA faz parte de circuitos envolvidos tanto no controle cognitivo quanto no processamento da dor física e social.>
Assim, uma opinião contrária pode ser recebida pelo nosso cérebro como algo desconfortável ou ameaçador, mesmo quando não há confronto direto.>
Além do córtex cingulado anterior, outras regiões também são ativadas. >
Uma delas é a amígdala, envolvida na resposta a ameaças. Outra área importante é a ínsula, relacionada à percepção do mal-estar do corpo. >
O resultado desse processo é familiar para todos: um nó no estômago, tensão no corpo e a tendência a se defender ou encerrar a conversa.>
Por fim, entra em ação o córtex pré-frontal dorsolateral, responsável por funções como o planejamento, a inibição de impulsos e a tomada de decisões.>
Aceitar uma visão oposta à nossa exige um esforço considerável. >
O cérebro precisa manter, ao mesmo tempo, dois modelos mentais incompatíveis: "o que eu acredito" e "o que você diz". >
Além disso, precisa compará-los e decidir se algum deles deve ser modificado. >
Do ponto de vista energético, essa é uma operação exigente.>
A esse esforço soma-se a dissonância cognitiva: o mal-estar que surge quando uma informação ameaça a coerência da nossa visão de mundo ou da nossa identidade.>
Em muitos casos, esse desconforto não se resolve ouvindo o outro, mas justificando aquilo em que já acreditávamos. É o que se chama de "raciocínio motivado".>
Por outro lado, muitas crenças estão ligadas ao sentimento de pertencimento a um grupo. >
Mudar de perspectiva pode ser vivido, ainda que de forma inconsciente, como um risco social: passar vergonha, perder status ou sentir-se excluído.>
O cérebro social está especialmente orientado a evitar esse tipo de ameaça.>
Um fator-chave em todo esse processo é o estresse. >
Quando o estresse é alto ou prolongado, o sistema nervoso entra em estado de alerta, o que reduz a capacidade do córtex pré-frontal de regular as emoções e lidar com as discordâncias de forma calma.>
Nesse estado, ouvir se torna especialmente difícil.>
A boa notícia é que esses sistemas são maleáveis. As regiões do cérebro envolvidas no conflito, na emoção e no controle mudam com a experiência e a prática.>
A dificuldade de ouvir opiniões contrárias está cada vez mais presente no debate social e cultural, especialmente em contextos em que as decisões têm consequências compartilhadas, como equipes de trabalho, instituições ou espaços de liderança.>
Um desacordo mal administrado tende a escalar para conflitos interpessoais, falhas de comunicação e deterioração do clima emocional. >
Isso é muito comum em ambientes de trabalho cuja exigência é muito alta.>
Felizmente podemos nos treinar para ouvir com calma — algo que melhora a habilidade de liderança e a tomada de decisões.>
Práticas como mindfulness e o biofeedback diminuem a reatividade automática e aumentam a capacidade de observar a divergência sem responder de forma impulsiva.>
Por exemplo, estudos sobre as redes cerebrais em repouso mostram que a prática contínua de mindfulness modula redes ligadas à regulação emocional e à flexibilidade cognitiva.>
Isso contribui para respostas mais equilibradas diante de opiniões divergentes. >
Por outro lado, nossos projetos de pesquisa do grupo Neurociência do Bem-estar da Universidade de Sevilha têm mostrado que treinar a regulação fisiológica e emocional está associado a uma maior capacidade de pensar antes de responder, ouvir com menos reatividade e conduzir conversas difíceis com mais clareza.>
O mais importante não é evitar o desconforto, mas aprender a regulá-lo para que não se transforme em uma rejeição automática.>
Ouvir não significa ceder nem abrir mão dos próprios valores. Significa sustentar o desconforto pelo tempo suficiente para ampliar o horizonte a partir do qual tomamos decisões.>
Em um mundo cada vez mais polarizado, a capacidade de escutar opiniões diferentes é uma habilidade neurocognitiva que pode ser treinada. >
Entender como o cérebro responde às divergências é o primeiro passo para deixar de reagir automaticamente a uma opinião contrária e começar a responder com mais calma, clareza e humanidade.>
*Francisco Manuel Ocaña Campos é o pesquisador principal do Grupo de Neurociência do Bem-Estar do Departamento de Psicologia da Universidade de Sevilha, na Espanha.>
*Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado aqui sob uma licença Creative Commons. Leia aqui a versão original (em espanhol).>
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