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O que a execução mal sucedida de Christa Pike diz sobre a pena de morte nos EUA

A falha na execução da prisioneira condenada à morte Christa Pike no Tennessee volta a chamar a atenção para a pena de morte e sua forma de aplicação nos Estados Unidos.

Publicado em 01 de Outubro de 2026 às 18:35

BBC News Brasil

Publicado em 

01 out 2026 às 18:35
Imagem BBC Brasil
A execução de Christa Pike foi objeto de uma batalha judicial no último minuto Crédito: Reuters/Getty Images/BBC

A americana Christa Pike, condenada à morte no Estado americano do Tennessee, foi levada ao hospital após uma tentativa frustrada de execução por injeção letal, segundo seus advogados.

Um dos advogados declarou à BBC que Pike, de 50 anos, está agora sob tratamento médico no hospital, após a administração de duas seringas de pentobarbital.

Os detalhes sobre os motivos que levaram a execução a ser mal sucedida ainda estão sendo revelados.

Pike foi condenada à morte em 1996, pelo assassinato de Colleen Slemmer, de 19 anos. Sua execução foi objeto de uma batalha legal no último minuto.

Esta foi a segunda execução fracassada no Tennessee em 2026. Em maio, autoridades postergaram a injeção letal de Tony Carruthers, condenado pelo sequestro e assassinato de três pessoas em 1994.

Os funcionários encarregados não conseguiram encontrar uma veia para administrar a droga letal.

Como as execuções são realizadas?

Imagem BBC Brasil
A injeção letal ainda é, de longe, o método mais comum de execução, aplicado em cerca de 89% dos casos Crédito: Getty Images

Em 1976, a Suprema Corte americana suspendeu sua proibição temporária da pena de morte.

Desde então, 1.683 pessoas foram executadas nos Estados Unidos, segundo o Centro de Informações sobre a Pena de Morte (DPIC, na sigla em inglês). Destas, 18 eram mulheres, o que representa cerca de 1% das execuções.

O banco de dados da organização mostra que 47 pessoas foram executadas em 2025 — o número mais alto desde 2009. Foi um aumento sensível em relação aos 25 casos de 2024.

Mas o apoio popular à pena de morte encontra-se no seu nível mais baixo dos últimos 50 anos.

Uma recente pesquisa do instituto Gallup concluiu que 52% dos americanos apoiavam a prática em 2025. Segundo a mesma pesquisa, 44% se opunham à pena capital, o que representa o maior índice de oposição registrado pelo Gallup desde maio de 1966.

Desde 1976, os Estados americanos utilizam cinco métodos principais de execução:

  • Injeção legal;

  • Eletrocução;

  • Fuzilamento;

  • Gás;

  • Forca.

A injeção letal ainda é, de longe, o método de execução mais comum. Ele representa 89% do total das execuções desde 1976.

Segundo o DPIC, todos os Estados que realizam execuções atualmente utilizam este método, embora vários deles também autorizem formas alternativas.

A forca não é usada em nenhum Estado desde 1996, quando Delaware executou Billy Bailey.

New Hampshire havia mantido o método como alternativa, caso a injeção letal fosse impraticável. Mas o Estado aboliu a pena de morte em 2019.

A medida não foi retroativa, de forma que ainda existe um prisioneiro que permanece no corredor da morte. New Hampshire não executa nenhum prisioneiro desde 1939.

A pena capital permanece legal em 27 Estados americanos, bem como sob as leis federais e militares.

Quatro Estados suspenderam as execuções (Califórnia, Ohio, Oregon e Pensilvânia) e vários outros, onde a pena de morte é legal, não realizam execuções há anos.

Já a Flórida foi responsável por 19 execuções em 2025, o que representa cerca de 40% do total nacional.

Quais drogas são utilizadas?

Historicamente, muitos Estados utilizavam um protocolo de três drogas:

  • Anestésico ou sedativo (frequentemente, tiopental sódico, depois midazolam)

  • Agente paralisante (brometo de vecurônio)

  • Cloreto de potássio para fazer o coração parar

Tiopental sódico foi amplamente empregado em injeções letais por anos. Mas as companhias farmacêuticas passaram a se opor cada vez mais ao uso dos seus medicamentos nas execuções.

Os fabricantes suspenderam o fornecimento de drogas para este propósito e as restrições de exportação europeias reduziram ainda mais a sua disponibilidade.

Muitos Estados passaram a adotar um protocolo de uma única droga, pentobarbital. Uma grande dose do barbiturato é administrada ao prisioneiro para reduzir sua atividade cerebral e a respiração.

Na época, a droga era amplamente disponível nos Estados Unidos. Em doses menores, ela é empregada como sedativo e no controle de convulsões. Seu uso também é comum na medicina veterinária, para realizar eutanásia em animais.

O governo federal americano usou a substância como sua única droga de execução desde a adoção do protocolo de uma única droga em 2019, apesar da sua baixa disponibilidade.

Como resultado, muitos Estados procuraram as farmácias de manipulação, que produzem lotes sob encomenda e sofrem menos regulamentação que os fabricantes de medicamentos.

Diversos Estados também aprovaram leis para proteger a identidade dos fornecedores. Por isso, muitas vezes não se sabe ao certo de onde vieram as drogas.

Ainda assim, um memorando de 48 páginas do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, publicado em abril, chama a substância de "padrão-ouro das drogas de injeção letal".

O DPIC afirma que a dificuldade cada vez maior de obtenção legal das drogas empregadas em execuções levou alguns Estados a experimentar novas drogas e combinações.

Este procedimento resultou em execuções prolongadas, com prisioneiros exibindo sinais de dor e estresse. Além disso, a escassez da droga também elevou os custos das execuções.

Em 2014, o governador de Oklahoma suspendeu as execuções no Estado, após uma injeção letal mal sucedida.

A Louisiana também deixou de realizar execuções por 15 anos, devido a falhas na aquisição das drogas. O intervalo terminou em 18 de março de 2025, com a execução de Jessie Hoffman Jr., usando gás nitrogênio.

O que mudou?

Imagem BBC Brasil
Christa Pike foi condenada à morte em 1996, pelo assassinato de Colleen Slemmer, de 19 anos de idade Crédito: Departamento Correcional do Tennesse

O memorando do Departamento de Justiça também orientou as prisões federais a expandir o leque de métodos de execução e incluir fuzilamento, asfixia com gás e eletrocução.

O órgão declarou que a mudança "fortaleceria" a pena de morte, por "dissuadir os crimes mais bárbaros, oferecer justiça para as vítimas e fornecer a conclusão devida há muito tempo para os entes queridos sobreviventes".

O governo do ex-presidente Joe Biden (2021-2025) decretou moratória da maior parte das execuções federais. E, antes de deixar o poder, Biden perdoou 37 dos 40 prisioneiros federais no corredor da morte.

Já o atual presidente, Donald Trump, apoia há muito tempo a pena de morte. Ele orientou o Departamento de Justiça a retomar as execuções no primeiro dia do seu segundo mandato, em janeiro do ano passado.

Métodos alternativos

Cadeira elétrica

A eletrocução já foi um dos principais métodos de execução, mas sua aplicação, agora, é rara.

Atualmente, nove Estados americanos autorizam o uso da cadeira elétrica. A Carolina do Sul fez da eletrocução seu método padrão, enquanto os outros oito Estados a mantém como opção ou backup, com a injeção letal como padrão.

Desde 1976, 163 execuções foram realizadas por eletrocução, mas apenas 19 desde 2000. A última ocorreu no Tennessee, em 2020.

Fuzilamento

O fuzilamento já foi considerado uma relíquia do passado.

Mas a Carolina do Sul retomou as execuções por fuzilamento em 2025. Idaho fez do fuzilamento seu principal método de execução em julho de 2026, depois das dificuldades para obter drogas de injeção letal.

Gás nitrogênio

O Alabama se tornou o primeiro Estado a executar um prisioneiro por hipóxia por nitrogênio em 2024. A Louisiana veio em seguida, em março de 2025.

O método consiste em privar o prisioneiro de oxigênio, forçando-o a respirar nitrogênio puro.

Seus defensores o descrevem como uma alternativa prática à injeção letal, mas outros alegam que o método passou por poucos testes e levanta sérias preocupações éticas.

O que dizem os críticos?

Os críticos da pena de morte defendem que as dificuldades para a obtenção de drogas para injeção letal, aliadas a uma série de execuções problemáticas, trouxeram questionamentos se as execuções podem ser realizadas de forma humana.

Os questionamentos legais, muitas vezes, se concentraram nas preocupações de que alguns protocolos de drogas podem causar dores ou sofrimento desnecessário. Ativistas afirmam que eles violam a Constituição americana, que proíbe punições cruéis e incomuns.

Seus oponentes também indicam a falta de transparência, já que a identidade dos fornecedores é protegida em alguns Estados. Esta medida dificulta a investigação da fonte e da qualidade das drogas empregadas nas execuções.

Alguns críticos também defendem que o impacto das execuções se estende para além dos prisioneiros e das famílias das vítimas.

Em entrevista à BBC em 2014, o diretor do sistema prisional do Estado americano da Geórgia nos anos 1990, Allen Ault, descreveu o impacto psicológico permanente das execuções para as autoridades e diretores de presídios, além das equipes médicas e das testemunhas.

"Ainda tenho pesadelos", contou Ault à BBC. "É a forma mais premeditada de assassinato que você pode imaginar e ela permanece na sua psique para sempre."

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