Publicado em 8 de abril de 2025 às 17:38
Jason Stanley corre de um compromisso para outro: reuniões, um debate diante de centenas de pessoas, um telefone tocando sem parar com pedidos de entrevista e os filhos dizendo que ainda não tomaram café da manhã.>
Este professor de filosofia da Universidade Yale, nos Estados Unidos, tem levado uma vida mais agitada do que o normal desde que anunciou há alguns dias que vai deixar o país devido ao clima político e ao que ele considera a ameaça de uma ditadura incipiente.>
Autor do livro Como funciona o fascismo — que foi traduzido para mais de 20 idiomas desde sua publicação em 2018 —, Stanley está convencido de que esse rótulo se encaixa no governo de Donald Trump.>
"Acho que já somos um regime fascista", disse Stanley em entrevista à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC, na qual abordou desde sua decisão de se mudar para o Canadá até a repressão do governo às universidades nos EUA.>
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Assim como ele, outros dois importantes acadêmicos de Yale e críticos de Trump, os professores de história Timothy Snyder e Marci Shore, também anunciaram que vão trabalhar para a Universidade de Toronto, no Canadá.>
A seguir, está um resumo da entrevista por telefone com Stanley, que nasceu há 55 anos, filho de imigrantes europeus (sua avó fugiu da Alemanha nazista com seu pai em 1939), e cujo último livro é intitulado Erasing History: How Fascists Rewrite the Past to Control the Future ("Apagando a História: Como os Fascistas Reescrevem o Passado para Controlar o Futuro", em tradução livre).>
BBC News Mundo - Por que você vai deixar seu país de origem, os Estados Unidos da América?>
Jason Stanley - O principal motivo é o clima político, tanto para minha profissão como acadêmico quanto para meus filhos, que são negros e judeus.>
Acho que os judeus americanos estão se tornando o centro da política aqui, e isso é muito perigoso. É como se estivessem sendo usados pelo governo Trump para atacar instituições democráticas como universidades. >
E o fato de nós, judeus, estarmos sendo usados como uma espécie de marreta para o fascismo é muito preocupante para o nosso futuro como país, porque eles usam o estereótipo de que controlamos as instituições, e isso só vai gerar antissemitismo.>
Além disso, meus dois filhos são negros, e sua identidade está sendo apagada, atacada e minimizada.>
Eu provavelmente não iria embora, mas depois que a [Universidade de] Columbia cedeu [a Trump], comecei a pensar que as instituições acadêmicas não estão vendo a natureza existencial deste momento, nem reconhecendo que é uma guerra muito maior do que anunciam.>
BBC News Mundo - Você está se referindo à decisão da Universidade Columbia de aceitar certas exigências do governo Trump para manter o financiamento federal. O que exatamente o deixou alarmado neste caso?>
Stanley - É o pior ataque à liberdade de expressão da minha vida, pior que o Macartismo. Eles intervieram em um departamento acadêmico porque o governo federal não concordava com sua ideologia.>
Pessoas fora do mundo acadêmico não entendem o quão dramático isso é. Intervir em um departamento acadêmico por razões ideológicas é algo completamente novo [nos EUA].>
A Columbia já havia forçado Katherine Franke, uma importante diretora de um centro da Faculdade de Direito, a se aposentar mais cedo por comentários que ela fez.>
Critiquei as ações de Israel em Gaza, e não sou antissionista. Eu era a favor de um cessar-fogo desde o início. Estou profundamente preocupado com os atos genocidas em Gaza. E isso me coloca na categoria de... você sabe, é a desculpa que eles estão usando: pessoas que criticam as ações de Israel em relação à guerra.>
Trabalhei com estudantes judeus progressistas no meu próprio campus. Mas o governo usa cinicamente a acusação de antissemitismo contra os esquerdistas, a ponto de a Universidade de Columbia forçar um de seus professores mais ilustres a se aposentar. Então quem disse que isso não vai se espalhar?>
Você já sabe como o fascismo funciona. Eles estão fazendo de Columbia um exemplo, mas a administração de Columbia cedeu imediatamente.>
BBC News Mundo - A presidente de Columbia renunciou após aceitar as exigências do governo Trump. Isso muda sua posição de alguma forma?>
Claro que não, porque eles nomearam uma integrante do conselho de administração como presidente interina. O que um membro do conselho tem a ver com isso? É ainda mais perturbador.>
Não está claro por que a presidente renunciou. Mas quando o fascismo ameaça, há muitas ilusões; muitos dizem que não é tão ruim.>
A princípio, pensamos que a presidente da Universidade de Columbia havia renunciado devido à pressão do corpo docente. >
Quando intervieram no Departamento de Oriente Médio, disseram que talvez quem quer que o chefiasse deixaria o corpo docente continuar a tomar suas próprias decisões, que talvez fosse apenas simbólico.>
Katrina Armstrong [então presidente da universidade] aparentemente disse em uma reunião do corpo docente que não haveria grandes mudanças. >
Parece que a Casa Branca ficou sabendo disso e disse que sim, tem que haver uma grande mudança, então ela deveria renunciar. É algo assustador, porque significa que eles estão realmente prestando atenção.>
BBC News Mundo - O presidente Trump, seu governo e seus apoiadores alegam que, durante os protestos universitários contra a guerra em Gaza, a Universidade de Columbia permitiu comportamento antissemita e reprimiu o discurso acadêmico. Como você analisa isso?>
Stanley - Bem, estou em Yale, e não presenciei os protestos em Columbia. Provavelmente havia pelo menos tanto antipalestinos quanto antissemitas naquele campus. E o que os estudantes palestinos ou árabes vivenciaram? Todos foram chamados de antissemitas. A situação dos estudantes árabes no campus era igualmente difícil.>
E havia muitos estudantes judeus nos acampamentos [de protesto]. Mas sua existência foi completamente apagada. Demorou meses para a mídia perceber que havia muitos estudantes e professores judeus como eu protestando contra Israel.>
As pessoas fizeram distinção entre judeus bons e maus. Os judeus bons eram aqueles que apoiavam as ações de Israel em Gaza, e os maus eram aqueles que protestavam. É antissemita fazer distinções entre judeus bons e maus.>
Muitos judeus americanos, especialmente os mais jovens, ficaram tão horrorizados com as ações de Israel quanto qualquer outra pessoa. E nos apagar do movimento progressista nacional, do movimento antiguerra, dizendo que os judeus que participaram dos protestos não eram judeus é a pior forma de antissemitismo.>
BBC News Mundo - Você é um especialista em fascismo. Pode explicar o risco que vê de os EUA se tornarem uma "ditadura fascista", como você alertou ao anunciar sua decisão no Daily Nous, um site sobre a profissão de filósofo?>
Stanley - Bem, as instituições democráticas vão ser atacadas. O Estado de direito já foi violado. Estão prendendo estudantes... Acho que já somos um regime fascista.>
BBC News Mundo - Por que você diz isso?>
Stanley - Porque nós somos, porque não temos mais o Estado de direito.>
Estou cansado de discutir sobre isso. Se você não consegue ver... O presidente e Elon Musk estão fazendo o que querem. Os tribunais são um desastre... Não somos a Alemanha nazista, mas estamos a caminho de algo muito ruim.>
Não posso falar sobre coisas óbvias. Não é necessário um especialista para isso. Por que é preciso um especialista para dizer que o Estado de direito foi violado? Estão atacando a mídia, os tribunais e as universidades. Mike Johnson [republicano que preside a Câmara dos Deputados] disse explicitamente: vamos dissolver os tribunais se eles não concordarem conosco.>
Há um milhão de razões. Estão prendendo estudantes nas ruas por escrever artigos de opinião, e dizendo que ninguém que não seja cidadão americano pode falar sobre política agora porque seus vistos podem ser revogados imediatamente. Por que eles parariam por aí, com cidadãos não americanos?>
BBC News Mundo - Trump tem sido muito claro sobre suas visões e objetivos desde antes de ser eleito, mas mesmo assim ele venceu no voto popular em novembro. Você diria que uma grande parte da sociedade americana simpatiza com o fascismo?>
Stanley - Sim. Em todos os países, 30% das pessoas querem o fascismo. A Europa do pós-guerra está bem ciente de que as democracias podem votar para se enfraquecer.>
Este é o problema mais antigo da filosofia política democrática. Isso remonta a Platão: nas democracias, um demagogo aparece, aterrorizando as pessoas sobre um inimigo interno e um inimigo externo, e quando ele assume o poder... Veja o caso de Putin: por que mais de 80% dos russos apoiam Putin em pesquisas independentes?>
BBC News Mundo - Mas também se trata das instituições, não? Você está sugerindo que perdeu a confiança na capacidade das instituições, que até agora impediram uma ditadura nos EUA, de fazer isso?>
Stanley - Acho que temos uma ditadura. Eles afirmam que são uma ditadura. Dizem que têm os poderes de uma ditadura. E não acho que as instituições estejam demonstrando que eles estão errados.>
Trump certamente age como um ditador, e diz que é um ditador. E seu partido vota 100% com ele. Eles agem como um sistema de partido único, sem oposição, como o partido de um ditador. E as instituições devem dizer: "Não, você não é um ditador". Mas isso não está acontecendo.>
Trump disse que é um rei, que é a autoridade absoluta. 100% do seu partido está com ele. Parece com a China ou qualquer país autoritário, e as instituições não impedem isso. Será que as pessoas gostam deste tipo de coisa? Claro.>
BBC News Mundo - Você é professor de filosofia, o que de certa forma consiste em fazer perguntas. Qual você diria que é a maior questão filosófica que os americanos enfrentam atualmente?>
Stanley - A principal questão filosófica é antiga, a questão da ideologia: por que tantas pessoas estão dispostas a sofrer?>
Muitos apoiadores de Trump sofrem terrivelmente com essas políticas para dar dinheiro a bilionários. É uma velha questão que também surgiu com a monarquia: por que tantas pessoas estavam dispostas a morrer para que um rei pudesse se vangloriar? Por que tantos americanos estão dispostos a sacrificar seu bem-estar material para tornar Elon Musk mais rico?>
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